O Enfermeiro “Salva-Vidas Voador” que já participou em mais de 2000 evacuações aéreas nos Açores

Começando um pouco pelo princípio, nasceu na Graciosa e foi estudar para a Terceira em que ano?
Fui para a Terceira em 1975, com 16 anos de idade, para completar o antigo 7º ano (actual 12º ano). Mais tarde, em 1978, entrei no Curso de Enfermagem.   

Portanto, viveu de perto 
o sismo de 1980?
Exactamente. Ainda era aluno de Enfermagem e os finalistas foram mobilizados. Fomos apoiar uma enfermaria de rectaguarda na Escola Secundária porque o Hospital estava cheio com os feridos. Fomos apoiar pessoas com alguns problemas de saúde e até houve, nessa altura, um surto de sarampo em crianças. Foi necessário montar uma enfermaria que ficou a cargo dos enfermeiros finalistas.      

Foi uma experiência e uma 
‘escola’ importantes?
Ninguém estava à espera. Foi uma situação inesperada como é habitual nestas forças da natureza; fomos mobilizados, avançamos e foi realmente uma grande experiência. O meu grupo acabou por ser de “profissionais” no meio dos outros profissionais que eram os nossos tutores na altura. 

Mais tarde termina o seu curso 
e começa a exercer…
Acabei o curso no dia 19 de Dezembro de 1980.

Vai trabalhar para o
Hospital de Angra?
Vou trabalhar para o Hospital de Angra no Serviço de Anestesia e Reanimação. 

E quando começa a exercer nesta 
área da emergência médica?
Antes de ingressar nas evacuações médicas, comecei a dar formação no Serviço Regional de Protecção Civil e Bombeiros dos Açores, que entretanto se formou depois do sismo, porque tirei o meu curso de formação em emergência médica no INEM. É aí que nasce realmente a minha grande sensibilidade para a emergência médica. 

Sempre quis trabalhar nesta área? 
A emergência médica sempre foi a minha área predilecta.

A Unidade de Evacuações Aéreas 
foi fundada em que ano?
Deixe-me explicar que anteriormente já fazíamos evacuações aéreas porque a Reanimação e a Anestesia, transportava, da Terceira para Ponta Delgada, aqueles doentes para os quais não tínhamos valências médicas disponíveis, nomeadamente, traumatismos crânio-encefálicos e de cirurgias de doentes coronários. Já realizávamos esse transporte de doentes apesar de ainda não haver uma Unidade propriamente dita, havia era pessoas que se voluntariavam para fazer esse serviço. Era essa a minha situação, bem como a de mais três colegas, uma delas por acaso até era da Graciosa, e começou-se por aí. Depois, o Hospital sentiu a necessidade de ter uma equipa direccionada para realizar esse tipo de emergência médica no ar e, no dia 14 de Setembro de 1995, é publicada uma Portaria Regional que cria a Unidade de Evacuações Aéreas do então Hospital de Angra. 

Explique-nos de que forma 
a Unidade é accionada? 
Não estamos fisicamente no Hospital, mas encontramo-nos em prevenção. Somos accionados por um médico regulador da Protecção Civil e depois vamos para o Hospital para que seja efectuada a evacuação. Na sua totalidade, esta Unidade é composta por 13 enfermeiros e 12 médicos. Na equipa, na evacuação propriamente dita, vão um médico e um enfermeiro. Depois há, obviamente, a tripulação da Força Aérea (5 pessoas no avião e 5 no helicóptero); 2 pilotos e os recuperadores salvadores que são aqueles que vão normalmente socorrer e resgatar as pessoas nos barcos. Há também um mecânico que vai na aeronave. O helicóptero é o EH Merlin e o avião é o C-295. 
Tem noção de quantas evacuações 
já realizou?
Já fiz milhares. Não tenho presente o número exacto mas já devo ter ultrapassado as 2 mil evacuações. Estamos a efectuar uma média de 500 evacuações anuais e de algum tempo para cá, desde 2014, as evacuações dispararam praticamente para o dobro. Isso prende-se com as necessidades de saúde e as pessoas, juntamente com as Unidades de Saúde, começaram a ter uma maior sensibilidade para os seus problemas. As pessoas acorrem mais às Unidades de Saúde e, logicamente que, quantas mais pessoas vão às unidades, existe mais triagem e por consequência, ocorrem mais evacuações. Antes as pessoas tinham as suas mazelas, tomavam os seus ‘chazinhos’ e não iam tanto às Unidades de Saúde. Desde que se criou esta Unidade de Evacuações Aéreas houve um aumento gradual, mas, o que é certo, é que desde 2014, elas dispararam quase para o dobro. Isso acontece porque passou a existir mais sensibilidade para a saúde, mais necessidade de exames complementares de diagnóstico, algo que as ilhas mais pequenas não têm, e por isso há necessidade de sermos mobilizados para irmos buscar essas pessoas.  

É o profissional de saúde, no activo, que já realizou mais evacuações aéreas?
Não tenho dúvidas disso. Sou o profissional de saúde mais antigo e, portanto, logo por aí dá para perceber que fui o que fez mais evacuações. Além disso, sou um Chefe (gosto mais da terminologia líder) que dou o corpo ao manifesto; gosto de fazer, de estar presente e de me disponibilizar para fazer evacuações. Não sou um enfermeiro de cadeira, sou um enfermeiro de acção. Neste momento temos duas equipas de evacuações de serviço. O ano passado foi criada mais uma equipa porque, se aumentaram as evacuações, temos igualmente de aumentar o número de médicos e enfermeiros. Fazemos também as evacuações para Lisboa e houve realmente essa necessidade de duplicar a equipa. Neste momento, temos sempre dois médicos e dois enfermeiros escalados. 

Nessas mais de 2000 evacuações áreas já efectuadas, certamente terão existido episódios que o marcaram pela positiva e pela negativa. Pedia que deixasse alguns exemplos, começando pelo ‘lado bom’?
O ‘lado bom’ foi o nascimento a bordo de uma criança. É um momento único, é um momento diferente e de alegria para nós, para os pais e para a tripulação. Faz-nos sentir que estamos a fazer aquilo de que gostamos. Isso aconteceu há cerca de 20 anos e foi gratificante, mais tarde, os pais terem vindo mostrar o seu rebento à equipa de evacuações e agradecer o nosso trabalho. Tenho outros momentos e o ano passado tive um episódio de um bebé recém-nascido com 680 gramas que fui levar, em Janeiro, a Lisboa. Em Agosto, numa viajem de regresso num voo civil, porque o avião teve de ficar lá fora em manutenção, o casal, que estava nos lugares atrás, chamou-me para ver o bebé que já estava com 2 kgs e 870 gramas. 

Mas também há outro lado e as coisas nem sempre correm bem…
O episódio mais negativo foi a evacuação do meu pai. Fui buscá-lo à Graciosa, infelizmente numa situação complicada, que acabou mal, e foi aquela que mais me entristeceu. Só de pensar nela entristece-me. Para além disso, há também a evacuação do meu filho, em que fui como acompanhante, que teve de ser operado ao coração quando tinha apenas duas semanas. Foram estas as que mais me marcaram. Mas entre esses dois lados, o positivo e o negativo, o balanço é claramente positivo porque, apesar dessas situações, estou feliz porque conseguimos salvar muitas pessoas. Temos uma grande dedicação às evacuações, trabalhamos de alma e coração e somos uma equipa. Há uns anos atrás o Governo decidiu que deveríamos passar a ser pagos, mas estivemos muitos anos, sem receber absolutamente nada e fazíamo-lo simplesmente por dedicação. Como disse, o balanço relativamente à minha vida como ‘salva-vidas voador’, como costumo dizer, é positivo. Depois há também a questão das aeronaves e alguns episódios de algum perigo; mau tempo, de motores a avariarem no ar ou de voarmos só com um motor, mas isso faz parte da nossa vida.

É uma missão complicada também pela própria extensão da nossa região, porque vocês vão ao Corvo ou às Flores… 
Já aterramos lá à quinta tentativa e até posso dizer que houve uma vez em que desmaiei no avião. Tenho um síndrome vertiginoso, o avião andou às voltas e quando aterrou tinha-me ‘apagado’. Acordei com as estaladas do colega da Força Aérea que ia connosco (risos). Foi, no fundo, um episódio triste, mas que acabou por ser engraçado. Felizmente vivemos num paraíso, mas temos também essas alterações climatéricas e a nossa meteorologia pode mudar de um momento para o outro. Por vezes é complicado, mas vamos porque temos muita confiança nos nossos pilotos. Eles arriscam, mas fazem-no dentro dos limites, não entram em exageros, aterram quando podem e já tivemos de voltar para trás ou ficar na Base (Lajes) à espera de uma melhoria no tempo. 

Convivem com situações extremas, mas também com os sentimentos dos próprios familiares dos doentes e por vezes vocês são alvo de críticas por não efetcuarem a evacuação a tempo. Como lidam com isso?
Aqui não há culpados nem inocentes, existem simplesmente pessoas e meios materiais. A Força Aérea não tem a disponibilidade de meios de há uns anos atrás; em que havia uma Esquadra com 2 helicópteros e 2 aviões sempre prontos a sair. Agora não é assim e temos um Destacamento. Esse Destacamento só tem duas tripulações (uma para o helicóptero e outra para o avião) e eles cumprem à risca as horas de descanso e, por exemplo, quando voam 8 horas consecutivas têm de ter obrigatoriamente 11 horas de descanso. Porque é que chegamos tarde? Reforço que não há culpados, mas não é por nós (equipa médica), é porque não temos meios da Força Aérea para sair ou por estarmos empenhados noutra evacuação.
 
Têm de ser tomadas decisões difíceis?
Quem gere tem de tomar decisões complicadas, fazer uma triagem e priorizar as situações. Há várias evacuações pedidas em simultâneo e temos de dar prioridade aquela que realmente é mais urgente. Acontece, por vezes, sermos chamados à ilha das Flores, existir simultaneamente a necessidade de outra evacuação na Graciosa e conseguimos passar lá e trazer esse doente porque temos material e meios humanos suficientes tal. Em relação às críticas dos familiares, tudo acaba quando chegamos. As pessoas que estão à espera e que têm um familiar doente, é normal ficarem revoltadas ou preocupadas porque querem vê-lo cuidado e tratado a tempo. Quando chegamos acaba-se tudo porque já estamos lá. 

Mas sentem que as pessoas, de forma geral, valorizam o vosso trabalho?
Penso que sim. A maioria das pessoas valoriza o nosso trabalho, felizmente que existimos e que temos cá o Destacamento da Força Aérea porque não imagino os Açores sem as evacuações aéreas. 

Pensa deixar o trabalho no terreno? Até quando irá continuar a desempenhar esta missão de ‘salva vidas voador’? 
Vou continuar. Não enquanto me deixarem, mas enquanto me sentir útil. Já passaram diversos Governos, mantive-me sempre à frente das evacuações e vou continuar a fazê-las e a estar presente. A reforma chegará um dia, não estou preocupado com isso porque ainda me sinto útil e irei reformar-me, das evacuações aéreas e da minha vida profissional hospitalar, quando sentir que não estou a dar o melhor contributo. De resto, podem contar sempre comigo porque não vou arredar pé.
                                          Luís Lobão      
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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