Marco Patrício, de Vila Franca do Campo, dedica a sua vida à música

“A flauta, além de ser a minha ferramenta, é o meio para conseguir alcançar alguns sonhos e ser feliz no meu dia-a-dia”

 Correio dos Açores - Como se sentiste atraído para a música?
Marco Patrício - O meu pai foi músico amador e herdei este gosto através dele. Conta-me ele que quando eu era criança ficava muito atento às bandas filarmónicas nas festas religiosas, e quando a banda passava, eu fingia que tocava clarinete. Algum tempo depois ingressei na filarmónica e, mais tarde, no conservatório.

Qual é a diferença em ser músico da Armada Portuguesa e de outra Banda?
Ser músico na Banda da Armada, além do processo inicial selectivo ser minucioso, requer muita dedicação e trabalho para alcançar um nível artístico elevado. O brio que a Banda ostenta é elevado através da qualidade artística dos músicos e do repertório que apresenta. Tal só é possível através do estudo diário e da disciplina que nos é incutido, para representar Portugal e a Marinha, através da música.

Como foi acolhida a sua marcha de Água d’Alto, no S. João da Vila.
Tenho uma relação muito próxima com a Marcha de Água d’Alto, porque também lá fui marchante alguns anos. Em 2017, convidaram-me para escrever a minha primeira marcha e desde então que as minhas marchas têm sido muito bem recebidas, não só pelos marchantes, mas pela população em geral.

Porque escolhe Aveiro para estudar música?
Escolhi a Universidade de Aveiro por ser uma referência nacional na formação de flautistas, além disso, como me encontrava a trabalhar no Porto - na Banda do Exército, conseguia deslocar-me mais facilmente entre estas duas cidades. Mais tarde, ingressei na Banda da Armada e, morando em Lisboa, acabei por terminar a licenciatura e o mestrado noutra prestigiada instituição, a Escola Superior de Música de Lisboa.

Antes de seguir a formação em flauta transversal, tinha em mente alguma outra profissão?
Sempre gostei de artes no geral, mais as performativas. Se não tivesse optado por estudar flauta, teria escolhido outra arte do espectáculo.

Qual a relação com a flauta?
A relação com o meu instrumento é bastante prazerosa. A flauta além de ser a minha ferramenta de trabalho, é o meio para conseguir alcançar alguns sonhos e ser feliz no meu dia-a-dia.

Quais os agrupamentos musicais que já integrou?
Ao longo do meu percurso integrei a Orquestra dos Jovens dos Conservatórios Oficiais de Música (OJ.COM), a Banda Militar dos Açores, a Sinfonietta de Ponta Delgada, a Orquestra Sinfónica Juvenil e a Banda do Exército - destacamento do Porto. Já trabalhei também com diversas filarmónicas e agrupamentos camerísticos nos Açores e no continente. Actualmente integro algumas filarmónicas em Lisboa e alguns grupos de música de câmara.

De todas as experiências musicais, qual a que mais marcou mais a nível de ganhos curriculares?
A participação nos workshops de Verão realizados pela Orquestra Metropolitana de Lisboa e a participação na Orquestra dos Jovens dos Conservatórios Oficiais de Música (OJ.COM) foram, sem dúvidas, as mais determinantes no meu crescimento artístico.

Quais as referências musicais?
Todos os flautistas com quem tive o privilégio de trabalhar são as minhas referências actuais. São eles: Adriana Ferreira, Nuno Inácio, Jorge Salgado Correia, Paolo Taballione, Thies Roorda, Rien de Reede, Berten D’Hollander, Guillem Escorihuela e Robert Winn. No entanto, tenho o privilégio de poder partilhar o palco diariamente com tantas outras referências minhas e do panorama nacional.

Como é a agenda de trabalho, quando prepara um espectáculo?
Um espectáculo, seja ele de que natureza for, requer sempre uma preparação prévia. Assim, para prepará-los, reparto os meus dias entre estudo diário, ensaios de naipe e por fim, os ensaios conjuntos.

Quando não tem espectáculos, como divide o eu tempo na Armada Portuguesa?
A minha rotina na Banda da Armada é marcada pelos exigentes ensaios e pelo estudo focado que realizo diariamente. Além da preparação para os concertos, há sempre algum cerimonial militar que também é realizado. Consigo ainda gerir o tempo para dar aulas em diversas instituições, outra paixão que abraço diariamente.

Que tipo de repertório dá mais satisfação fazer?
Gosto muito de tocar música francesa do séc. XX. No entanto, uma vez que a preparação de excertos orquestrais faz parte do nosso programa curricular, quando surge alguma obra orquestral com “aquele” excerto para flauta, é sempre bastante satisfatório tocá-la, independentemente da época ou do estilo.

Quais são os compositores preferidos?
É difícil escolher. São todos tão diferentes e tão bons. Se olharmos para o repertório específico para flauta solo, gosto especialmente da escrita de Bach, Doppler, W. A. Mozart, Paul Taffanel e Poulenc. A nível orquestral Ravel é fenomenal e Mahler também… mas também gosto bastante das bandas sonoras de J. Williams e de Hans Zimmer…

Quais os aspectos mais desafiantes da profissão?
Acho que é mais um desafio pessoal do que da profissão em si. Enquanto músico, o desafio é superar as dificuldades específicas da prática instrumental e outras do foro psicológico relacionadas com a performance. No entanto, enquanto músico da Banda da Armada, para mim, acresce a responsabilidade de querer fazer música a um nível altíssimo, dada a qualidade dos artistas com quem piso o palco.

Que grandes mitos o público ainda tem acerca da música clássica?
O público, por vezes, acha que a música “clássica” ou erudita só é apreciada por quem a entende, ou por quem está familiarizado com este estilo de música, no entanto há música erudita para todos os gostos e idades. Numa versão mais contemporânea, há artistas acompanhados por bandas filarmónicas e bandas de rock que juntam orquestras sinfónicas aos seus espectáculos, por exemplo.

Que conselhos daria a um jovem que quer seguir esta carreira?
O principal conselho que dou é: se este jovem quer realmente vingar na música e alcançar os seus sonhos, então que trabalhe e estude arduamente, porque é uma profissão que requer muito foco e muita dedicação, por vezes em circunstâncias menos agradáveis.

Qual o papel das bandas filarmónicas nos Açores?
Para além do papel fundamental que têm na promoção da música e da cultura açoriana, as bandas filarmónicas funcionam como uma escola de música e de vida. Lá formam-se músicos e Hhomens com grandes valores. Neste seio é-nos incutido um elevado sentido de responsabilidade, lealdade e compromisso.

Que projectos o esperam em 2022/2023?
Nesta temporada que se avizinha, esperam-se muitos concertos com a Banda da Armada e com os agrupamentos com quem colaboro, filarmónicos e camerísticos.

Como surgiu e qual o impacto da gravação no Museu Vivo do Franciscanismo?
Uma vez que tínhamos gravado um vídeo com o tema “Chamateia” do Luís Alberto Bettencourt, decidimos gravar desta vez o tema “Saudade” no Museu Vivo do Franciscanismo, por ser um local emblemático na ilha de São Miguel. Foi um momento muito bonito, porque além de promovermos a nossa cultura através da música, partilhamos um momento muito especial entre nós, com um tema que nos diz muito.

Tens saudades dos Açores?
Tenho imensas saudades de casa, dos amigos e de São Miguel. Acho que só damos o devido valor às pessoas e aos locais quando não os temos, por isso, sempre que tenho oportunidade para ir aos Açores, aproveito como se fosse a última vez.
                   

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