Vandalismo na Rua do Valverde sem solução à vista continua a importunar empresários e moradores

Na Rua Manuel Inácio Correia, antiga Rua do Valverde, empresários e moradores continuam a ser alvo do vandalismo recorrente que, praticamente todos os fins-de-semana, é visível através de fechaduras violadas, restos de comida espalhados nas soleiras das portas ou nas montras, sem contar com vomitado ou fezes humanas que surgem no chão, nas portas, vitrinas ou mesmo nas maçanetas das portas destes comerciantes e residentes.
De acordo com os empresários abordados pelo nosso jornal, esta forma de vandalismo tem-se vindo a intensificar ao longo do último ano. Isto é, assim que as medidas de restrição originadas pela Covid-19 foram aliviadas começaram a surgir os primeiros sinais de vandalismo, mas foi sobretudo a partir do momento em que as ruas do centro de Ponta Delgada foram fechadas à circulação automóvel que os danos se agravaram e se tornaram mais frequentes.
Aos queixosos, que por diversas vezes alcançaram uma forma de comunicarem com a Câmara Municipal de Ponta Delgada, presidida por Pedro Nascimento Cabral, foi já mencionada a possibilidade de ali se instalarem câmaras de vigilância, uma “promessa” que, até agora, está por cumprir.
Por outro lado, tendo em conta todo o processo burocrático que não alcança a sua finalidade, e embora alguns empresários e moradores tenham já efectuado queixas formais na Polícia de Segurança Pública referente a estas ocorrências, a maior parte dos visados questionados assume uma postura de desânimo e de descrença na Justiça, acreditando que pouco lhes resta senão conviver com os actos de “má-fé” a que têm sido sujeitos, ao qual se junta o barulho proveniente dos bares e dos estabelecimentos de diversão nocturna que estão ali localizados igualmente, que, acreditam muitos, podem também ser parte do problema.
Uma das pessoas mais afectadas por esta onda de vandalismo tem sido Ana Amélia Bairos, proprietária do Ateliê Arte & Prendas, que – por já ter perdido a conta às vezes que foi surpreendida com este problema ao chegar à sua loja – insiste na necessidade de ali serem montadas câmaras de vigilância, à semelhança do que acontece noutras cidades portuguesas, como Lisboa e Porto.
No dia 2 de Outubro, conta, Ana Amélia Bairos encontrou – novamente – a fachada da sua loja vandalizada, embora a restante rua continuasse intacta. Por esse motivo, e uma vez que tem exposto o vandalismo de que é alvo nas redes sociais, tudo a leva a crer que os actos mais recentes foram direccionados apenas para si, acreditando ainda que os autores destes crimes passarão ali regularmente.
“A última vez, no dia 2 de Outubro, tive a sensação de que foi algo direcionado só a mim porque não fizeram nada a mais ninguém, e foi depois do primeiro vídeo que eu coloquei. Tenho a sensação de que não é ninguém que vem de fora, que é alguém que anda por aqui, porque ninguém vem para a noite e traz chicharros ou batatas cozidas na bolsa para espalhar”, adianta, referindo ainda que palitos, cola e silicone são também utilizados para danificar as fechaduras com alguma regularidade.
Desmotivada pelas respostas que lhe têm sido dadas pela autarquia, Ana Amélia Bairos refere que se prepara para efectuar duas queixas por vandalismo no seu estabelecimento comercial, mas apela à Câmara Municipal de Ponta Delgada que se junte com as entidades responsáveis, nomeadamente PSP, para que se possa amenizar a insegurança sentida na rua em questão aos fins-de-semana e o vandalismo que daí decorre.
Outra das empresárias prejudicadas por este vandalismo recorrente na antiga Rua do Valverde é Maria Amorim, proprietária do Institutoptico, que, à semelhança de Ana Amélia Bairos, afirma que estas acções começaram a ser mais frequentes quando a rua em questão foi fechada ao trânsito.
A par dos alumínios riscados – algo que se verifica em praticamente todas as portas daquela rua – esta empresária foi já surpreendida por várias vezes com vomitado “contra a parede e contra as montras”, e embora comece cada semana “com espírito para trabalhar”, receia sempre ter que encarar alguma surpresa à chegada.
Deste modo, também para Maria Amorim a solução para este problema passaria pela instalação de câmaras de vigilância na rua, de modo a intimidar os vândalos e, também, de modo a que haja uma via para que possa ser feita justiça.
“Alguém tem que fazer alguma coisa em relação a isto, porque nós pagamos impostos, levantamo-nos todos os dias para vir trabalhar e é lamentável chegar aqui e ver que alguém com menos espírito e com malvadez faz uma situação destas”, questionando a “necessidade” de causar prejuízos como aqueles que já a obrigaram a chamar um técnico especializado e em trocar de fechadura por duas vezes devido a um problema “que se tem intensificado”.
Aconselhada, inclusive, pela Polícia Municipal a apresentar uma queixa contra desconhecidos na Polícia de Segurança Pública, esta empresária refere que, dada a burocracia necessária para o efeito, e uma vez que nada garante que o(s) suspeito(s) sejam apanhados e levados à justiça, já desistiu de fazer queixas relacionadas com este problema: “Não vale a pena porque não arranjam nada e no próximo fim-de-semana, se for preciso, está tudo outra vez tudo caído”, adianta ainda.
Também Eduardo Lima, proprietário da Decorlar, relata vários episódios de vandalismo ocorridos à porta da sua loja, bem como à porta dos seus inquilinos, que, à semelhança dos outros casos já relatados, são realizados nas noites de Sábado para Domingo e são visíveis através da presença de dejectos humanos, vomitado e fechaduras violadas, tendo também sido obrigado a mudar de fechaduras por duas vezes no último ano.
“Isto ocorre há mais de um ano. Moradores e alguns comerciantes aqui da zona têm contactado várias entidades oficiais não só pelos desacatos que existem durante a noite e durante a madrugada, mas também por causa do barulho e destas situações. Não temos feito queixa de ninguém (em específico) mas as pessoas reagem desta maneira. Acreditamos que sejam pessoas com uma faixa etária muito nova que se apanha na cidade com o intuito de se divertir, talvez sob o efeito de álcool ou estupefacientes, o que causa bastante transtorno porque à Segunda-feira queremos começar a trabalhar e deparamo-nos, muitas vezes, com objectos introduzidos na ranhura da fechadura da porta e a única solução é chamar um técnico que venha cá substituir a fechadura”, explica, relembrando um dia em que “no espaço de alguns metros, 22 pessoas estavam sem poder entrar nos seus estabelecimentos ou instituições”.
“Nós participámos à Polícia que, por sua vez, diz que envia semanalmente para a Câmara Municipal os factos ocorridos. Já contactámos o Presidente da CMPD no sentido de colocar câmaras de videovigilância na rua ou no sentido de contactarem a PSP para passarem mais vezes na rua. O Presidente mostrou-se, até certo ponto, interessado em colaborar connosco mas as câmaras de videovigilância há mais de um ano que estão prometidas e nunca cá chegaram”, afirma ainda.
No caso do barulho excessivo que existe na rua em questão, vários moradores têm também se sentido incomodados, levando a que encontrem alternativas para lidar com o barulho. Os inquilinos de Eduardo Lima, por exemplo, ora dormem com tampões nos ouvidos nos fins-de-semana, ora evitam dormir nos quartos perto da rua, o que está longe de ser confortável e desejável.
Para além disto, esta é também uma rua onde existe, aparentemente, muita insegurança, tendo o empresário relatado duas ocasiões em que foi alvo de furto. Numa das ocasiões o ladrão, embora apanhado em flagrante, conseguiu fugir da loja com os artigos subtraídos, e na segunda ocasião, embora não tenha conseguido furtar nenhum objecto e tenha chegado a um entendimento com o empresário para que não fosse chamada a PSP, voltaria para se vingar de Eduardo Lima nos momentos seguintes, atirando para o interior da loja uma garrafa de vidro vazia que partiu alguns artigos em exposição.
No Centro Catequético da Matriz de Ponta Delgada encontrámos o padre Nemésio Medeiros, que embora tenha sido também alvo de vandalismo, através das portas riscadas, explicou que foi alvo de uma vingança pessoal e não da mesma forma de vandalismo existente naquela rua.
Acrescenta apenas que, face aos problemas sociais que existem actualmente na cidade de Ponta Delgada, “a Câmara Municipal não pode lavar as mãos de determinadas atitudes ou de determinada vigilância”, esperando, por isso, que as posturas camarárias se alterem e se tornem mais rígidas para evitar ocorrências como as relatadas.
 

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