Projecto desenvolvido pela Solideriad’Arte na freguesia do Livramento

‘Mercearia’ proporciona troca de bens só para os moradores do bairro de Santo António

Correio dos Açores - Como surgiu a iniciativa?
Leonardo Sousa (Presidente da Direcção da Solidaried’arte) - Esta iniciativa nasceu no âmbito da nossa valência na Associação, denominada de valência Conexio - Lig’Arte ao Bairro, direccionada para a intervenção comunitária em bairros onde as pessoas têm maiores necessidades. 
A Mercearia Solidária começou por ser pensada para o bairro Piedade Jovem, onde temos o centro da nossa acção, no entanto, devido a uma quantidade de condicionalismos, optámos por transferir o projecto da Mercearia Solidária para o bairro de Santo António. Este projecto foi desenvolvido a par com a Câmara Municipal de Ponta Delgada, cuja parceria foi exemplar, no sentido em que aderiu imediatamente ao projecto, tal como foi apresentado, tendo inclusive um papel fulcral em que acrescentou mais ao projecto do que era previsto inicialmente. 
Este projecto, financiado pela Direcção Regional da Juventude através do Programa Jovens+, tem como objectivo colmatar, na comunidade em causa, a não existência de uma pequena mercearia onde as pessoas possam adquirir bens de primeira necessidade, tendo em conta que o comércio local ainda fica bastante distante do Bairro de Santo António. Além disso, proporcionar a aquisição de bens a um preço mais reduzido e acessível às pessoas, já que estas se caracterizam por terem dificuldades económicas. 

Apenas os moradores do bairro podem comprar os produtos?
Está circunscrito ao bairro e aos seus moradores, ou seja, quem não for morador do bairro não pode utilizar a mercearia. Não queremos fazer concorrência a ninguém, antes pelo contrário, consideramos que o comércio local poderá ser um parceiro importante para o funcionamento da mercearia. 
Existe um sistema de controlo dos nossos parceiros. A pessoa tem de se registar para poder comprar, pois este projecto é para suprir as necessidades daquela comunidade. 

Como é feito o controlo?
De forma sucinta, a pessoa tem de se dirigir à Junta de Freguesia que, por sua vez, irá passar um atestado de residência com o agregado familiar. Estas pessoas serão registadas e sempre que forem utilizar os serviços de mercearia têm que apresentar o seu cartão de cliente para poderem adquirir o produto. 

Além do bairro de Santo António, pretendem estender o projecto a outros bairros?
De momento, a ideia deste projecto piloto é experimentar e acertar o que for necessário ao longo do tempo. Se a experiência resultar, e nós acreditamos que sim, implementá-la-emos na mesma lógica a outras comunidades da ilha. 
Outra finalidade deste tipo de mercearias, que se pretende que no futuro se possam multiplicar, passa por envolver as pessoas como actores principais do seu processo de mudança, ou seja, pretende-se que esta mercearia a médio/longo prazo, seja gerida pelo próprio bairro e que este participe activamente na dinâmica da própria mercearia para colmatar as necessidades da população que residente. 

Há a possibilidade de troca de géneros 
alimentares?
Há a possibilidade de as pessoas produzirem e de terem coisas que podem colocar à venda na mercearia e/ou trocar por outros produtos. Portanto, não há apenas uma lógica comercial entre produtos e dinheiro, sendo que existe também a possibilidade de poder fazer troca directa de um bem pelo outro. 
Devido a um contributo da Câmara Municipal de Ponta Delgada, temos alguns produtos para troca, que não estão necessariamente a ser feitos no bairro, nomeadamente em parceria com o projecto da Casa dos Manaias, que será igualmente um dos nossos fornecedores de frescos, dando-lhes a possibilidade de escoarem os seus produtos, além de todo o benefício que isto traz para o processo de recuperação destas pessoas. 
Além disso, temos algumas pessoas dos centros de dia dos idosos a fazer compotas para pôr à venda na mercearia, o que constitui uma mais-valia para estas pessoas, em termos de envelhecimento activo e participação cívica. Acabou por se criar uma rede interessantíssima à volta da mercearia. 

Que outras mais-valias provém do projecto ‘Mercearia Solidária e Comunitária’?
Outra mais-valia da mercearia é que esta pode servir, ainda, para introduzir novos hábitos de alimentação, modificando alguns comportamentos das pessoas. A nossa grande aposta será nos frescos, dando a possibilidade de as pessoas poderem, de alguma forma, sair do tipo de consumo e alimentação maioritariamente à base de massas, conservas e farinhas. Entendemos que é a isto que as pessoas têm acesso, através de outro tipo de respostas sociais, visto que produtos como as hortaliças, por exemplo, são mais complicados de conservar.
Por isso, o nosso investimento nos frescos foi pensado no sentido de as pessoas terem acesso a este tipo de bens, podendo alterar, rentabilizar e melhorar os seus hábitos alimentares. 
Colocamos, junto a esses produtos, o seu valor nutricional, bem como sugestões de receitas para aquele bem em específico.  Pretendemos que a mercearia possa servir de instrumento e pretexto para que se trabalhe comportamentos e mude atitudes, e as pessoas possam ir crescendo enquanto comunidade.
Além disso, existem, no bairro de Santo António, pequenas hortas abandonadas e o facto de poder colocar o meu excedente na mercearia poderá ser um factor para incentivar as pessoas a retomarem as suas pequenas hortas comunitárias. 

Está a ter muita adesão?
Inaugurámos Segunda-feira passada, porque era o Dia da Erradicação da Pobreza e entendemos ser uma data significativa para a abertura. Esta semana estamos ainda organizar e ultimar o que falta, para que possamos abrir num determinado horário. Apraz-me dizer que os moradores do bairro estiveram em massa na inauguração, o que foi uma surpresa muito agradável. 
Na inauguração, estive a conversar com os moradores e, invariavelmente, o feedback das pessoas foi muito positivo. Diziam-me: “graças a Deus, finalmente temos uma coisa dessas aqui, já devia ter sido antes”. Mas, para mim, o ponto alto da inauguração foi a conversa de um senhor que me disse que se estivermos e trabalharmos juntos, conseguimos tanta coisa. Foi tão significativo, pois, às vezes, é preciso levarmos anos a fazer intervenção social nas comunidades até ouvirmos uma conversa destas, que demostra um sentido de noção do próprio morador. Isto fez o meu dia. 
Enquanto associação, um dos princípios que defendemos é que só conseguimos quebrar ciclos de pobreza quando as pessoas são envolvidas nos projectos. Mas, envolvidas de forma activa, não como sujeitos passivos à espera que alguém vá fazer alguma coisa por eles. 

Há algo mais que queira acrescentar?
Desde já, apelamos a que apareçam voluntários que ajudem na dinâmica e no funcionamento da própria mercearia. Serão apenas algumas horas por dia, nada de extraordinário.
Existe, ainda, outra forma de voluntariado que gostaríamos de introduzir, nomeadamente o voluntariado em casa. Ou seja, a pessoa não tem tempo para fazer duas horas na mercearia, mas talvez ao fim-de-semana tenha algum tempo livre e consiga fazer pastéis, rissóis, compotas, biscoitos, entre outros, na sua casa para entregar na mercearia. Assim, está a colaborar sem ter de despender de tempo que não tem, durante a semana.

Carlota Pimentel

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Autor: CA

Categorias: Regional

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