O casal Clara e Carlos Bedo, no Dia Mundial da Terceira Idade

“O idoso pode permanecer em casa desde que haja apoio domiciliário e equipas de Saúde para ajudar o cuidador”

Correio dos Açores - Qual a importância do Dia Mundial da Terceira Idade?
Clara e Carlos Bedo -É importante haver um dia dedicado a determinado tema, fazendo com que a humanidade se lembre e possa reflectir sobre o assunto. Contudo, pessoalmente, pensamos que não deve ser lembrado num único dia.

Com que idade é preciso nos prepararmos para envelhecer?
O envelhecimento começa após o nascimento. Cada dia que passa, somos mais velhos do que no anterior. A preparação para o envelhecimento deve ser permanente, pois é algo que nos atinge a todos, e não esperar pelos 60 ou 65 anos quando, em princípio, já apresentamos certas limitações.

A esperança média de vida aumentou nos últimos anos, o que significa mais idosos. A sociedade açoriana está preparada para abrigar tantos idosos?
É um fenómeno recorrente na nossa sociedade ocidental. Nos Açores temos ilhas onde o envelhecimento é mais acentuado. As respostas de apoio têm sido pontuais, começando a notar-se uma maior diversidade no apoio. Já não são apenas os lares, mas, também, outras estruturas solidárias que vão apoiando. A família ainda permanece como o núcleo duro do apoio, embora nem sempre com a resposta mais adequada.

Temos meios para que os idosos sejam activos o suficiente nos Açores?
Há algumas respostas a nível de várias associações locais. Contudo, a resposta também pode estar, muitas vezes, da parte do idoso em querer sair de casa, quando possível, e aproveitar para caminhar, conversar, apreciar as belezas naturais, entre outros.
O apoio deveria começar na família e os que estão institucionalizados deveriam ter actividades de estimulação, tanto a nível intelectual como físico.

Fala-se muito em envelhecimento activo e saudável. O que é e qual a sua importância?
Definiria envelhecimento activo como o processo que permita aproveitar as oportunidades de saúde, participando na comunidade como voluntário, ou de outra forma, permitindo ao idoso melhorar a sua qualidade de vida, sendo útil para quem mais precisa. Acresce que a sociedade aceite a pessoa idosa e não a faça sentir como um estorvo – estar a mais e sem préstimo. Deve-se promover a actividade física e estimulação cerebral, assim como cuidados médicos e alimentares.

Numa sociedade moderna em que normalmente as pessoas exercem a sua actividade profissional fora de casa, é cada vez mais complicado garantir a permanência do idoso no seio da família. Concorda?
É, de facto, uma realidade. Contudo, o idoso possui, em regra, um manancial de experiência e informação que, ao transmiti-lo no seio da família, permite dar continuidade e relembrar o passado. Enfim, fazer um pouco a história. No entanto, haverá situações em que o idoso possa permanecer em casa, “no seu canto”, com condições económicas que permitam apoio externo.

Encontrar respostas que garantam o bem-estar do idoso é, muitas vezes, um grande desafio para as famílias? Porquê?
Principalmente porque os mais novos, e que estão na vida activa, têm de cumprir horários, estando grande parte do dia fora de casa. É um desafio, pois a nossa sociedade mudou muito e não se incute nos mais jovens o apreço e o respeito pelos idosos.

A última solução é a institucionalização num lar?
O idoso pode permanecer em casa, desde que haja apoio domiciliário e equipas de saúde para ajudar o cuidador. Pode e deveria haver resposta para quando o cuidador precise de descansar, que passa por poder passar algum tempo institucionalizado. Esta modalidade poderia ser uma alternativa ao internamento permanente, desde que o idoso tenha cuidador.Apenas em última instância é que se deve recorrer à institucionalização.

Qual o impacto que isso tem nos idosos e nas suas famílias?
Depende dos idosos e das famílias. Idosos que não tenham ninguém e sem condições para viver sós devem ser institucionalizados. Para os idosos é sempre uma grande angústia saírem de casa. As famílias reagem de forma diferente: há as que ficam sempre com a mágoa de não terem podido cuidar dos seus e outras que ficam como que “aliviadas”. A institucionalização é, em regra, o fim da autonomia do idoso.

Que serviços e instituições existem nos Açores para apoiar os idosos com fragilidades, ao nível da saúde, em casa?
Apoio domiciliário, prestado por várias instituições de solidariedade social, empresas que prestam serviços de apoio ao cuidador e equipas de saúde para tratamento de determinadas doenças. O problema pode ser que, muitas vezes, quem os presta, tanto no domicílio como nas instituições, não ter a sensibilidade para os concretizar.
A propósito, recordo um projecto a ser desenvolvido, em Ponta Delgada (nesta primeira fase) pela Associação Seniores de São Miguel sobre a solidão. Após um primeiro levantamento das situações detectadas, pretende-se “(…) um projecto em rede de combate à solidão que englobe as entidades interessadas; criação de estabelecimentos de ocupação de tempos polivalentes, com especial ênfase na necessidade que alguns idosos têm de enquadramento de enfermagem, mas passando, também, por questões tais como a prática de exercício físico ou actividades relacionadas com música e teatro, por exemplo, melhorar os espaços existentes, adaptando-os às necessidades dos idosos e à dimensão da população-alvo, bem como explorar melhor os espaços já existentes e que podem ser colocados ao serviço dos idosos, promover o voluntariado intergeracional e de proximidade; entre outros aspectos”.

As famílias estão a ficar mais pequenas e a diferença de idade entre as gerações está a aumentar. Esse distanciamento intergeracional pode provocar o afastamento dos idosos?
Esta situação acarreta uma maior aproximação temporal das gerações em que, por vezes, se juntam duas gerações de idosos o que dificulta o apoio de uns e de outros. A longevidade, o aumento da esperança média de vida, tem estes custos.

Mesmo que queiram continuar activos, os idosos têm pouco espaço no mercado de trabalho. Como poderíamos aproveitar melhor a sua experiência?
Reformulando a sociedade, de modo a saber aproveitar-se o que a pessoa idosa aprendeu ao longo da sua longa vida. Desenvolver e incentivar o voluntariado.

A chegada à terceira idade é igual para homens e mulheres?
Talvez, de momento, seja mais complicado para os homens do que para as mulheres, na medida em que estas são mais autónomas, embora com maior desgaste ao longo da vida (criação de filhos, cuidados domésticos, entre outras).

Um mundo mais idoso será mais conservador?
Ser idoso não é sinónimo de conservador. Temos muitos exemplos de pessoas, com idade bastante avançada,que continuam a escrever, divulgando o saber acumulado. A vida activa permitiu-nos conhecer muito melhor o mundo. Diria que ser idoso torna-nos mais racionais e objectivos perante as situações que vão surgindo. Obviamente que tudo isto depende da mentalidade do idoso.

É difícil promover campanhas pela valorização da terceira idade num mundo que celebra mais a juventude?
Penso que a promoção de ambas não será incompatível. Pelo contrário, poderá trazer mais-valias com a complementaridade do conhecimento dos idosos e a criatividade e inovação dos jovens. Contudo, a sociedade não está preparada para essa convivência.

As pessoas hoje vivem mais e os casais têm menos filhos na Região. No futuro, vamos ter idosos mais exigentes? Como se vai lidar com essa nova realidade?
Vai ser difícil, uma vez que a juventude estará em larga minoria.

Que mensagem quer deixar neste dia?
Ser “idoso”, na idade, não significa ficar parado à espera que as coisas aconteçam. Temos de continuar a lutar e cada um deve encontrar aquilo que lhe dá mais prazer para se sentir activo. Não há uma fórmula ou regra para seguir – cada um deve encontrar o seu melhor caminho e definir objectivos de vida, nem que seja no dia a dia.

Há algo mais que queira acrescentar?
O corpo envelhece e tudo se torna mais difícil de concretizar. Impera a dependência. Mas, no meio de tudo isto as pessoas devem, ao longo da vida, aprender a adaptarem-se. Não baixar os braços, não à imobilidade, tanto física como mental. A aceitação é um bem precioso, pois não deixa a depressão tomar conta de nós.Viver não custa, o que custa é saber viver.
                                
Carlota Pimentel

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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