Alexender Shan, CEO da Jolera, ao Correio dos Açores

“Podemos desempenhar um papel de relevo na retenção de jovens especialistas que se formam nos Açores e depois vão para outros locais”

Correio dos Açores - Qual o plano de investimento da Jolera para o centro de operações dos Açores no Nonagon? Quais as oportunidades de crescimento?
Alexander Shan - Nos Açores somos como uma startup. Estamos no mundo dos negócios há 25 anos, em Portugal há seis anos e nos Açores há cerca de quatro meses. A estratégia inicial era usar a localização do arquipélago como forma de agilizar a contratação de recursos para cumprir os contratos que temos, com clientes no Canadá e nos Estados Unidos. Depois de cá estar e do feedback da equipa, parece-nos haver muito mais oportunidades nos Açores do que pensámos inicialmente.
Após conhecer as pessoas que trabalham no escritório, de sentir a sua energia e de ver o quão inteligentes são, decidimos que queremos crescer exponencialmente aqui.
Para tal, estamos a procurar mais pessoas, mais imóveis, isto é, mais espaço para expandir o escritório, além de que estamos em contacto com a Universidade dos Açores e com as escolas, com o intuito de criar programas de treino, com acreditação, assim como formações para áreas específicas, nas quais nos inserimos, tais como cibersegurança e infra-estruturas. Historicamente, Tecnologia da Informação é programação, contudo nós não somos programadores e, no entanto, somos uma grande empresa.
Queremos contribuir, igualmente, para a sociedade dos Açores. O plano de médio prazo é ter pessoal de vendas, pessoas a desenvolver negócios, gerentes de projecto e, consequentemente, empregos de maior valor. Para conseguir estes empregos de maior valor, precisamos, antes de mais, de treinar as pessoas que contratámos para começar, para que estas consigam progredir e, posteriormente, colocar mais pessoas na base. Ou seja, é um ciclo.
Após estarmos reunidos com membros do Governo esta manhã (ontem), verificamos que uma das suas preocupações se prende com as pessoas abandonarem os Açores, para irem para o continente ou outros locais do mundo.
Além disso, falei com outras pessoas e conheço a situação no terreno, pelo que acredito firmemente que podemos desempenhar um papel na retenção destas pessoas no país e nas suas ilhas. Ao oferecermos boas oportunidades a essas pessoas, para que consigam melhorar as suas vidas, estas permanecerão cá. Não há necessidade de ir a algum lugar quando se tem o que se precisa em casa.

Que mais-valias pode a Jolera oferecer à Administração Pública e às empresas dos Açores?
Estou em São Miguel há apenas 24 horas, mas posso afirmar, segundo as conversas que tive, que a tecnologia que oferecemos, e como a oferecemos, não está disponível actualmente nas ilhas dos Açores. Vamos trazer novas tecnologias, novos vendedores de alto nível na cadeia de valor, uma nova forma de gerir os dados. O nosso negócio não é apenas comprar e vender hardware, como se associa às empresas de Tecnologia da Informação. É um tipo diferente de negócio que visa trazer as a service. Se pesquisarmos na internet o que quer dizer o termo as a service, verificamos que significa, em tecnologia, tornar algo complicado, em algo simples de entender e barato para comprar.
Um dos desafios que superámos no Canadá, como empresa, foi saber pegar em coisas complicadas e caras, tornando-as baratas e fáceis de entender. Considero que isso se vai encaixar bem no povo e Governo açorianos.

Quais os potenciais aspectos diferenciadores que os Açores oferecem?
Primeiramente, o que fez sentido para nós foi o ambiente competitivo.
Se formos para cidades, países ou ambientes competitivos, é mais complicado contratar, além de que demora mais tempo, e é muito mais difícil crescer, pois não existem escritórios disponíveis, não existe alinhamento com a administração local, entre outros.
Nos Açores fomos muito bem recebidos e temos bons parceiros no terreno para nos ajudar, o que significa que vir para cá, investir na infra-estrutura, será mais fácil, pois não estamos a competir com ninguém.  
Já passámos por outros lugares em que é uma luta para entrar, porque estão lá grandes empresas como a Google, ou a Microsoft, o que dificulta o processo. Os Açores têm sido uma bênção e espero que assim continue, pelo menos por um tempo.

Porquê assinar protocolos com a ENTA e a Universidade dos Açores?
Muitos dos empregos que procuramos construir precisam de talentos de nível básico. Precisamos de talento, pois isto é o mais importante em Tecnologia da Informação, e de serviços. Precisamos de pessoas para pensar e trabalhar. Privilegiamos a lealdade e ensinamos o que é preciso fazer. É mais difícil do que se pensa encontrar pessoas dispostas a trabalhar no duro, por um lado e, por outro, a aprender e apreciar as oportunidades.
Quando chegámos a Portugal continental, há seis anos, a realidade assemelhava-se com a dos Açores actualmente, isto é, estavam todos muito animados para agarrar as oportunidades, mas nos dias de hoje muita coisa mudou.
De momento, estão lá a Google, o Facebook, a Farfetch, e é difícil encontrar talento, assim como pessoas que entusiasmadas por trabalhar ou conseguir um emprego. Nos Açores, a população está ansiosa o que constitui uma grande vantagem e espero que não a desperdicemos.
O protocolo com a ENTA será assinado amanhã (hoje) e o objectivo, semelhante ao da Universidade dos Açores, passa por trazer alguma tecnologia e influência para a escola. Pretendemos ajudar a escola a saber o que vem a seguir. Ou seja, actualmente, a escola está a ensinar o que existe e o que está no mercado agora. Todavia, a escola deve ensinar, à população futura, a próxima tecnologia, não a de ontem. As escolas aqui estão dispostas a ouvir, ao passo que, na América do Norte, a escola sabe de tudo, embora não faça negócios, nem ganhe dinheiro.
Nota-se, pela forma como os estabelecimentos de ensino da Região estão a trabalhar connosco, que estão dispostos a ouvir, a aprender com o que está a acontecer no mundo real e em como podem aplicar isso aos alunos, para que estes possam aprender melhor. Creio que é uma oportunidade para todos.

A Jolera oferece mais de 300 soluções informativas inovadoras. Quais as mais procuradas pelos seus clientes?
Não contamos com tantos anos como o Correio dos Açores, mas 24 anos já é algum tempo. Quando começámos, trabalhávamos essencialmente com e-mail, mensagens de texto, sites, entre outros. Hoje, a Jolera envolve redes, servidores…
Se assistirmos às notícias vemos que todos os dias surgem ataques informáticos e o alvo destes ataques fica sem funcionar, e ninguém trabalha por causa dos hackers. Actualmente, a maior parte da nossa receita, que aumenta de ano para ano, vem da cibersegurança e isso é algo que estamos a trazer para os Açores.
A nível da administração local e dos parceiros que encontramos aqui, sabemos que eles não têm esta experiência. Somos líderes em segurança. Tudo o resto, muitas pessoas o podem fazer, ao passo que a segurança nem todos o conseguem.

É objectivo de a empresa ter, em 18 meses, 70 funcionários com diferentes níveis de qualificação e totalmente orientados para a exportação de serviços?
Esse é o objectivo dos colaboradores da Jolera em Portugal. Eu gostaria de ter mais. Se tivermos espaço, vamos crescer, porque a atitude nos Açores é a correcta. Temos oportunidade de trazer gente para a Região, nomeadamente do Canadá e do continente. Aliás, vamos trazer pessoas de inúmeros lugares, pois precisamos que os gestores treinem e aprendam.

Há algo que queira acrescentar?
Estamos entusiasmados por estar aqui. Agradecemos a oportunidade que a comunidade nos está a dar, assim como os meios de comunicação social, que têm sido muito bondosos e positivos, o que me dá vontade de investir mais tempo, dinheiro e esforço na Região.
                     
Carlota Pimentel

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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