Teresa Medeiros, investigadora responsável do Projecto TURIVIVA+

“O turismo sénior pode constituir a chave para contrariar a sazonalidade do sector nos Açores”

 Correio dos Açores - Quais os objectivos do Seminário Internacional sobre Turismo Sénior, Bem-estar e Sustentabilidade?
Teresa Medeiros (Professora da UAC e investigadora responsável do Projecto TURIVIVA+) - O Seminário Internacional sobre Turismo Sénior, Bem-estar e Sustentabilidade, organizado pela equipa do Projecto TURIVIVA+ (Turismo Sénior: Rotas de Bem-Estar e Vivências Locais num Ecossistema Insular) propõe-se, em primeiro lugar, a divulgar os resultados dos três estudos que o compõem, pela implementação de vários métodos de investigação, quantitativos e qualitativos. Posso desvendar que o estudo de carácter quantitativo foi levado a cabo, a partir de uma amostra de mais de mil turistas seniores (1.083) que visitaram a ilha de São Miguel nos últimos dois anos. Os resultados permitem dar um contributo para o futuro do turismo, particularmente do segmento do turismo sénior, um segmento em crescimento, com muitas possibilidades para a Região Autónoma dos Açores, uma região onde emana o verde natureza e o azul mar, e repleta de beleza que convida à contemplação, ao relaxamento e a experiências profundas de bem-estar psicológico e bem-estar subjectivos (conceitos cada vez mais estudados na Psicologia Positiva e na Psicogerontologia). Neste Seminário Internacional, aliás na sendo do I Congresso sobre turismo Sénior, também organizado por nós e ocorrido em 2019, pretende agora evidenciar um turismo sénior de bem-estar, aquele que reflecte o período pós-pandémico, com todas as transformações societais que estamos a viver. Iremos caracterizar os turistas seniores da amostra e relevar resultados sobre as actividades, preferências, formas de bem-estar, experiências memoráveis e satisfação com a viagem.
Completam-se os resultados com um estudo qualitativo de testemunhos de pessoas idosas e de artesãos locais nas áreas mais emblemáticas do património manual e na relação das pessoas idosas, com mais experiência de vida, com as suas memórias antigas dos lugares da ilha. A tecnologia de última geração é incorporada com a georreferenciação de cerca de 300 sítios da ilha de S. Miguel, pela utilização da técnica de realidade aumentada, e através de uma aplicação móvel (APP), desenvolvida para o efeito, para delinear circuitos e espaços culturais no perímetro insular.
Sem conhecermos os turistas mais velhos, aqueles que são cada mais desejados pelos mercados do sector turístico, não podemos delinear estratégias. Deste modo, a investigação deve ser o garante da qualidade da acção. O nosso intento, como equipa de investigação multidisciplinar que estuda o envelhecimento e o turismo sénior, desde 2017, é difundir resultados, estreitar redes com os stakeholders, os políticos e possíveis investidores, contribuindo assim para a nossa Região.
Para além da difusão dos resultados do TURIVIVA+, pretendemos promover uma reflexão sobre a relevância do turismo sénior na contemporaneidade e sobre a importância deste segmento de turismo para a sustentabilidade económica, social e ambiental. Pretendemos debater sobre quem são os turistas seniores (também chamados grisalhos ou prateados) que nos visitam, que turistas queremos, etc. Com o aumento da longevidade e a urgência de formas de envelhecimento saudável e construtivo, o turismo sénior, na sua heterogeneidade, precisa muito de ser acarinhado na sua diversidade e cada vez mais diferenciados e exigentes. Repare-se que a grande maioria de turistas da nossa amostra, ou seja turistas seniores que nos visitaram em 2021 e 2022, têm entre 60 e 69 anos, muitos ainda a trabalhar, são detentores de habilitações académicas superiores (licenciatura, mestrado ou mesmo o doutoramento), pesquisam o que desejam e tomam decisões com envolvimento. Têm as suas preferências, são críticos e apresentam sugestões para optimizar o destino.

Quais são os objectivos do projecto Turiviva+?
Os objectivos principais são essencialmente: caracterizar os turistas seniores que visitam a ilha de São Miguel; conhecer os turistas seniores no que respeita ao seu bem-estar global, às experiências memoráveis, ao grau de satisfação com a vida e com a viagem, bem como as recomendações e sugestões que deixam para o futuro deste segmento de turismo; testar o modelo PERMA de bem-estar (Emoções Positivas, Envolvimento, Relações com os Outros, Sentido e Realização) na área do Turismo Positivo, através do PERMA profiler (Butler & Kern, 2016); recolher memórias, narrativas de tradições, e vivências/relações com os locais mais emblemáticos da ilha de São Miguel através de pessoas idosas; criar material audiovisual, relatórios de investigação, narrativas e memórias do povo “micaelense” ou memórias distantes da diáspora, com vista a aplicar nas TIC e tecnologia de realidade aumentada; criar uma aplicação móvel (APP) para a divulgação e aproveitamento dos produtos culturais e de biodiversidade do ecossistema insular da ilha de São Miguel.

Qual a importância do turismo sénior?
O que confere importância ao segmento de turismo sénior, cremos ser, sobretudo, a orientação estratégica desenvolvida para este destino Açores, no sentido de contrariar um turismo de massas vulgarizado que, em certos grandes centros, se confunde com os passeantes e os consumidores compulsivos de serviços de lazer. Há um turismo grisalho – sénior - que se amplia em virtude das tendências demográficas de fundo, mas esta designação carrega também maiores vulnerabilidades ligadas à idade e especificidades de personalidade e trajectória de vida. Ora, é necessário estarmos conscientes que se chega até cada vez mais tarde em posse de todas as faculdades, com saúde e com tempo disponível e rendimento para viver. Os públicos aposentados são detentores de maiores rendimentos e poupanças amealhadas ao longo de uma vida de trabalho árduo, como tal dotados de um maior poder de compra, de maiores qualificações e de tempo para si e para usufruir dos benefícios culturais do lazer.
Turismo prateado ou grisalho, nalgumas versões, não dispensam maiores atenções e cuidados organizados. São eles, porém, que podem constituir a chave para contrariar a sazonalidade do fenómeno numa região arquipelágica como a nossa. Em virtude da sua libertação do tempo e a opção por viagem em tempo de menor afluência, levou um certo autor a chamar-lhe viajantes dos equinócios.
Estes turistas seniores que nos visitam valorizam o património natural numa procura motivada e querem conhecer e usufruir com requinte os sabores da nossa gastronomia regional, as paisagens e a nossa cultura. O segmento sénior está mais vocacionado para tal e oferece maior compatibilidade com o que se espera em termos de reconhecimento das vantagens do destino Açores, contribuindo para a criação de mais-valias na cadeia de valor do turismo, a partir das nossas características da oferta mais contingente, sensível às alterações conjunturais e escassez de rentabilidade das actividades culturais e sazonais, entre outras.

Que sustentabilidade tem o turismo sénior na Região?
Tem, nomeadamente, três tipos de sustentabilidade. Uma primeira é a económica, reforçando a sustentabilidade e desenvolvimento do sector turístico, em geral. Uma segunda, contribui para a sustentabilidade ambiental, minimizando o impacto do turismo por se tratar de um tipo de turismo mais selectivo, escrupuloso e com grande respeitabilidade pela cultura local e pela natureza, em todas as suas vertentes. E, por outro lado, adiciona-se a sustentabilidade social pela justiça social e contribuição de postos de trabalho nas épocas mais baixas, contribuindo para o bem-estar e a qualidade de vida dos residentes. Demonstra-se, pelos nossos estudos, entre outros, que a população sénior é uma população, simultaneamente, mais exigente, mais informada e melhor formada, por relação com a grande maioria dos públicos em outros segmentos turísticos – fala-se já numa silver economy. Mas, a sustentabilidade económica e ambiental não estão nem garantidas e nem resguardadas de conjunturas mais difíceis. Hoje, a sustentabilidade é, essencialmente, um conceito e uma ideia latente conexa ao desenvolvimento.
Um conceito que tem múltiplos sectores de aplicação, mas que, de qualquer modo, obriga a terem-se condutas ecologicamente correctas, economicamente viáveis, socialmente justas e culturalmente pertinentes e diversificadas. É um facto que ainda necessitamos de diversificar mais as respostas turísticas e sensibilizar os agentes e operadores para estas mudanças adaptativas. Não temos dúvidas que a fragilidade e o equilíbrio delicado dos ecossistemas insulares obrigam a cuidados redobrados em matéria de ordenamento da oferta turística ambiental com impacto minimizado. A biodiversidade e os encantos naturais não só encontram neste segmento sénior um público-alvo motivado e comprometido como o seu reconhecimento constitui o fundamento identitário da Região enquanto subsistema social, que se projecta no exterior, e como tal cria mais-valia na sua imagem e reputação.

Quem são os oradores/convidados e quais os temas abordados?
O Seminário conta com um painel de proeminentes investigadores nacionais e estrangeiros que irão partilhar investigação e boas práticas. Assim, destaco  as quatro conferências: “Silver Economy - Tourism: Challenges & Antiphon”, a proferir pelo professor Luiz Moutinho, uma autoridade no marketing (Universidade de Suffolk, Reino Unido); “Grey tourism and deseasonalization”, por Alfonso Vargas-Sanchéz (Universidade de Huelva, Espanha); “Experiências turísticas acessíveis: desafios e estratégias, por Celeste Eusébio (Universidade de Aveiro) e a conferência de encerramento: “The tourist’s motivation for travelling: the case of the senior tourism”, por Rafael Robina Ramírez (Universidade da Extremadura, Cáceres, Espanha). O programa sobre Turismo Sénior, Bem-estar e Boas práticas não podia deixar de ter um painel com investigadores e agentes locais, o qual, no seu conjunto, irá reflectir sobre “Turismo: Experiências, bem-estar, sustentabilidade e desafios em Ilhas”, a partir da sua prática diária com estes novos turistas com maturidade de vida, envolvimento pessoal na viagem e desejo de experiências memoráveis, genuínas e únicas.

 Carlota Pimentel

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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