Padre Norberto Brum, pároco da Igreja de Nossa Senhora de Fátima

“A Imaculada Conceição é uma questão de pureza de vida, de coração, de alma e de palavras”

 Correio dos Açores - Que fé e sentimentos envolvem o culto a Nossa Senhora da Conceição?
Padre Norberto Brum -  Maria, para já, é uma presença muito constante na vida da Igreja, porque também o é na vida de Jesus. Apesar de ser uma figura, de certo modo, obscurecida, pacata, não é uma figura protagonista na Bíblia – tem o seu protagonismo na questão da maternidade de Jesus e pouco mais – mas é uma presença constante na vida de Jesus e uma presença constante na vida da Igreja, e ao longo dos tempos ela sempre foi esta companheira de viagem, esta presença maternal.
Podemos dizer que é o rosto materno de Deus na Igreja. E a comunidade sempre teve um apreço muito especial pela figura de Nossa Senhora, primeiro, enquanto primeira cristã – a primeira mulher ouvinte da Palavra, aquela que disse o “sim”, e é precisamente pelo seu “sim” que ela é venerada e olhada. Depois, porque ela é esta presença contínua na vida de Jesus que o acompanha e que nos vai acompanhando, é o lado materno que tem muita força, muita influência. O pai, é pai, mas a mãe é sempre mãe, tem aquele toque feminino e aquele lado amoroso, aquele toque compreensivo e aquele olhar meigo, tem aquele sentimento que um homem não tem, temos que ser honestos.
As pessoas têm sempre esta proximidade com ela, e porquê? Porque, quando nós queremos alguma coisa vamos ter com a nossa mãe. Quando há alguma inconfidência, algum problema ou alguma inquietação, habitualmente vamos sempre à mãe, e há esta devoção, esta proximidade a Nossa Senhora, porque ela também faz ponte com o seu filho Jesus.
Imaculada Conceição é um dos títulos de Nossa Senhora, e é curioso que neste dogma, e habitualmente nos dogmas marianos, o povo vai sempre à frente da Igreja. O povo já venerava Imaculada Conceição antes do dogma ser proclamado, como o dogma da Assunção de Nossa Senhora, pois já o povo celebrava a Assunção de Nossa Senhora e acreditava quando a Igreja declarou, de facto, o dogma. O povo parece que tem esta percepção e vai sempre à frente, e é a comunidade que vai fazendo esta descoberta. A Imaculada Conceição inspira-se, precisamente, na questão da anunciação da pureza e é muito mais do que a pureza física ou a pureza do corpo, é muito mais que uma questão de castidade ou de virgindade, a Imaculada Conceição é uma questão de pureza de vida, de coração, de alma, de coração e de palavras.
Esta Imaculada Conceição que o povo venera é de facto esta mulher mãe que é boa, misericordiosa, acolhedora, que é ouvinte, que é confidente, mais do que uma mulher virgem de corpo, de uma questão corporal, é uma questão de alma, de vida.

“Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Ela saberia que isso lhe poderia trazer problemas…
Maria ficou perturbada, logo. Nossa Senhora estava na expectativa do Messias, como qualquer pessoa do povo judeu, mas nunca tinha passado que seria ela a escolhida, e ela fica perturbada. Ela não entende e não percebe, há uma perturbação, fica inquieta, questiona-se como é possível, e, depois, Deus prova-lhe com a gravidez de Isabel. Para Deus nada é impossível e há esta prova de amor de Deus.
Ela percebe que a mensagem é de Deus e, mesmo assim, entendeu e disse “Faça-se em mim segundo a tua palavra” e quando ela vai visitar Isabel, esta diz-lhe “Feliz aquela que acreditou em tudo o que foi dito da parte do Senhor”. A felicidade de Maria está em acreditar, não é por ser mãe de Jesus que a torna numa super estrela ou super mulher. O que faz de Maria uma mulher grande é o facto de ela ter tido a coragem de dizer “Faça-se em mim segundo a tua palavra”, sem entender e perceber, a isso chama-se fé.
Aceitou todos os riscos, porque ela não estava casada, podia ser apedrejada até à morte, estava a namorar com José e corria o risco de também o namorado a deixar.
E José também foi um homem grande porque, no meio daquilo tudo, tinha a certeza de que estava a namorar com uma rapariga séria e, de repente, aparece a rapariga a dizer que está grávida pela obra e graça do Espírito Santo… foi preciso ter uma coragem grande para assumir um projecto que não é seu.
Nós vivemos num tempo em que queremos tudo explicado, tudo cientificamente comprovado, mas na fé não há provas, porque ela já é vivência. Ela arriscou-se e nós vamos à frente, mesmo quando não entendemos, mas sabendo que se é um projecto de Deus, é bom porque aquilo que Deus nos pede é sempre possível, o melhor para nós, e da nossa parte a escolha é mais inteligente.

Sendo um dogma, não deixa de ser polémico…
É uma questão de fé.  

Quanto maior o dogma, maior o grau de significado para a Igreja Católica?
É sinal de que é algo de muito importante para nós, e mais importante do que ela é a missão dela, mais importante do que Maria, a mulher, é a missão dela como mãe, como protagonista da gestação de Jesus Cristo, e esse dogma é fundamental em função de Jesus. Deus preparou uma digna morada de Jesus e Maria foi o primeiro sacrário para Jesus. Da mesma forma que, nas igrejas, temos os sacrários, onde guardamos a Eucaristia, Maria é o primeiro Sacrário onde Jesus habita.
Isto não quer dizer que as outras mulheres não sejam Imaculadas também, que as outras mulheres não sejam dignas, porque aquilo que torna verdadeiramente digna uma mulher é o facto de ela ser mãe, de ela gerar. Podemos questionar, então Maria é a Imaculada Conceição porque vai gerar Jesus, e as outras mulheres não?
 
Maria perdeu o filho. Normalmente são os filhos que perdem a mãe. Como se reage quando se perde uma mãe?
Quando morre a mãe há sempre um bocado de nós que se vai. A mulher tem um sexto sentido, tem uma outra sensibilidade. Não digo que o pai não seja, mas a mãe é sempre aquela proximidade, aquele conselho, aquela palavra, aquela aceitação sem julgamento, sem qualquer tipo de condenação. O pai pode apontar o dedo, toda a gente pode apontar o dedo, mas a mãe é sempre aquela que vai até ao fim, e Maria foi até ao fim, foi até à cruz com Jesus.
Nem os discípulos foram até à cruz, Pedro negou, Judas entregou Jesus, João foi com ela, e o resto fugiu tudo mas Nossa Senhora foi até ao fim, tal como as mães vão até ao fim da vida do filho. O ciclo normal da vida passa pelos filhos enterrarem as mães, e nunca a mãe enterrar o filho. Mas tenho experiências com mães que perderam filhos, e elas dizem que parece que toda a razão de viver desapareceu, que todas as expectativas desapareceram e, normalmente, a mãe diz sempre que deveria ter sido ela a ir e não o filho. A mãe quer sempre o melhor para o filho.

Tem, quase sempre, a Igreja de Nossa Senhora de Fátima cheia na Eucaristia. Isso deve-se a quê?
Aquilo que deverá ser a nossa prática, é, em primeiro lugar, uma comunidade acolhedora, que se alegra com as pessoas. Temos tentado manter equipas de acolhimento antes das celebrações nas portas da Igreja a receber as pessoas, para que as pessoas se sintam bem e acolhidas. Depois, há uma preocupação grande em envolver as pessoas nas celebrações, na leitura e no canto. Na questão da palavra de Deus, há uma preocupação quer minha, quer do padre Fernando, que está comigo na paróquia, em traduzirmos a palavra para a vida das pessoas sem qualquer tipo de crítica ou de moralismos, de dar em cima das pessoas ou de dar recados. Não, trata-se de transmitir a palavra de uma forma alegre e, depois, tentamos celebrar com carisma, com entusiasmo, estando ali de corpo inteiro, sem pressas, sem correrias, sem preocupação de queimar e de despachar. Não, estamos ali com calma. A preocupação de adaptar as orações à assembleia que temos à frente, os cânticos, tudo isto faz a diferença.

Está também a acontecer um outro fenómeno, que diz respeito ao número de jovens que estão na catequese, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima...
Estamos num contexto de uma cidade, as pessoas movem-se muito. No contexto rural, as pessoas vão à missa na sua paróquia, onde moram, vão à catequese onde moram, mas no contexto de uma cidade é diferente. Há muita mobilidade e as pessoas circulam muito. Tem também muito a ver com a dinâmica que é imprimida nos encontros, nas catequeses, nas celebrações, nas próprias comunidades e tem a ver com os horários das catequeses. Não temos catequese aos fins-de-semana, por exemplo, temos catequese durante a semana e dá jeito para muitas famílias.

Quantas crianças tem a catequese?
Há 527 crianças. Há crianças de muitas localidades e a maioria vem de fora da cidade, não são dos centros urbanos. Muita gente pensa que a maioria dos nossos meninos são das freguesias da cidade mas não são, são das freguesias limítrofes da cidade.

Como é que vão ao seu encontro?
Acaba por ser por uma questão de horários – normalmente passam por várias paróquias a perguntar pelos horários. Também por uma questão de marketing que as crianças fazem entre si, convidando-se uns aos outros. Há, também, a questão do Colégio do Castanheiro, que deixou de ter a catequese dentro do colégio e todos os alunos vieram para a paróquia, mas os próprios miúdos começam a partilhar uns com os outros onde fazem a catequese, já fazem a escola juntos e acabam também por fazer o percurso na catequese.
Ao nível das instalações, o edifício da igreja é muito grande, mas só temos duas salas de catequese. Tivemos que desmantelar a capela penitencial para fazer uma sala de catequese, temos actualmente três salas de catequese, e estamos com 28 grupos para 10 anos de catequese.

O grupo de catequistas tem também muita importância?
Sim, o grupo de catequistas tem importância nas dinâmicas que são apresentadas e no envolvimento com as próprias famílias, no acompanhamento e na presença contínua com a família. Todas as semanas as famílias recebem no seu e-mail um boletim com informações, por isso, há uma preocupação de acompanhamento e de celebrar juntos, de criar iniciativas. (…) Penso que é pela envolvência que se dá, pelo dinamismo que se emprega, e friso de novo a questão do acolhimento. As pessoas são bem acolhidas, são acolhidas com sorrisos e com abraços. Assim, as pessoas sentem-se estimadas e próximas.

E a comunidade do Lagedo?
Penso que há um estigma muito grande relativamente à comunidade do Lagedo. Há muito a ideia do Lagedo como um lugar meio ruim e meio complicado, mas não. No Lagedo há pessoas simpatiquíssimas, pessoas amorosas, pessoas que se envolvem, que participam, basta irmos ao encontro delas e dizermos que precisamos e eles vêm, empenham-se e têm brio na sua igreja. Recordo-me de uma das vezes em que a nossa igreja foi assaltada, e eu disse desde o princípio que não acreditava que fosse gente do Lagedo e disseram-me para acreditar nisso porque a igreja é a pérola daquela comunidade.
É verdade que 90% das crianças da catequese, 90% das pessoas que estão nas eucaristias, 90% dos nossos movimentos não são com pessoas residentes na paróquia, mas os que lá estão participam. É uma comunidade que se envolve, que se empenha e que tem brio na sua igreja, vão rezar, procuram a igreja, pedem ajuda e a igreja está sempre disponível.

É uma paróquia com dificuldades?
É desafiadora. Não digo difícil porque todas as paróquias são difíceis, hoje não há paróquias fáceis, hoje não há realidades fáceis porque, quer queiramos, quer não, estamos a passar por um tempo de purificação, que é um tempo belo mas um tempo duro e difícil. A Igreja está a passar por momentos difíceis, não tenhamos dúvidas.

E a sociedade também…
Sim, é transversal. Mas, se calhar, não estamos a saber dar as respostas que temos que dar. Penso que um dos nossos problemas é querermos resultados diferentes mas fazendo tudo da mesma forma de há 50 anos. Se olharmos para trás e para o nosso tempo, o que é que estamos a fazer de novo? Há 50 anos já havia catequese e estamos a fazer catequese na mesma, já havia procissões, etc. Quando tentamos fazer alguma coisa diferente parece que há bloqueios ou que é um atentado. É como ter Jesus na cidade, como acontece no Dia das Montras, primeiro estranha-se, depois entranha-se.
Não há paróquias fáceis, há paróquias desafiadoras e o Lagedo é uma paróquia desafiadora. (…) Costumo dizer que é uma paróquia com três grandes blocos: Um à volta da Igreja, o bairro social, um bairro onde as pessoas vivem felizes, embora com algumas dificuldades. Há problemas, há, mas há um empenhamento e uma envolvência da comunidade. Depois, temos a zona do Arcanjo Lar, uma zona com um certo nível de vida, uma classe média onde há muita participação e envolvência, e depois temos os apartamentos do Paim, que, a nível paroquial, é uma zona muito escura, é uma zona quase sem identificação e onde as pessoas não se conhecem.
(…) Precisamente isto é que nos leva a estar mais próximos, a estarmos mais atentos, mais cautelosos na vigilância às pessoas no sentido das suas necessidades. Somos uma comunidade aberta, pronta para acolher seja quem for, seja a que horas for.

A Igreja de Nossa Senhora de Fátima caminha para Santuário?
Isto o povo é que há-de dizer e a Igreja institucional. Não estou a trabalhar para isso, nem esta é uma prioridade e preocupação. Que fique claro que não é este o meu objectivo, mas se tiver de sê-lo, há de o ser. Mas, como pároco, entendo que aquela igreja, mais do que uma vocação paroquial, tem vocação de santuário, de missão, de acolhimento e de evangelização, porque paroquialmente é uma paróquia exigente e diferente.
 

O ‘Santíssimo’ volta hoje à noite
às ruas de Ponta Delgada: um
momento de “emoção e lágrimas”

Jesus hoje volta à cidade de Ponta Delgada…?
Volta, e volta em peso, com força, e, este ano volta com a presença marcante do comité diocesano da Jornada Mundial da Juventude que, na prática, é o grupo que, na diocese, tem o cuidado e a tarefa, não só de divulgar, mas de coordenar a participação dos jovens açorianos na Jornada Mundial da Juventude. (…) Há um trabalho que está a ser feito nas ouvidorias, e nas paróquias, e hoje, neste dia de Nossa Senhora da Conceição, há um aproveitar a cidade com muita gente para transmitir esta mensagem de esperança, de alegria e de motivação, de fazermos passar a mensagem do que é a Jornada Mundial da Juventude, porque muita gente não sabe, temos alguns produtos próprios das Jornadas Mundiais da Juventude, como terços, t-shirts, pulseiras, merchandising da Jornada e que podem ser uma boa prenda de Natal para os jovens. Vamos ter um espaço de oração ao Santíssimo e vamos ter jovens pela cidade.

Como é que as pessoas reagem
ao Santíssimo?
Foi das maiores surpresas, porque começou bem mas também começou mal. Começou bem porque a adoração ao Santíssimo foi feita pelas ruas, itinerante. Foi muito bom, mas houve uma chuva de críticas muito grande e, inclusivamente, houve queixas pelo facto de termos feito uma adoração ao Santíssimo na rua. Confesso que, na altura, foi um bocadinho duro e difícil ter que apanhar com a chuva de críticas e maioritariamente da parte institucional da Igreja, não do povo. O povo e os jovens foram os primeiros a acarinhar a iniciativa. Justifiquei o que foi feito a D. António, na altura, justifiquei a iniciativa e até hoje nunca mais se falou do assunto.
Entretanto, estas coisas primeiro estranham-se, mas depois entranham-se. Foi das coisas que as pessoas mais ficaram surpresas, porque depois continuámos a fazer e os próprios jovens é que começavam a perguntar onde estava o Santíssimo. É dos momentos mais aguardados.
Este ano, vamos fazer uma proposta diferente. Os jovens vão estar a distribuir uma estampa na rua com um desafio e entregar uma vela, e o desafio passa por a pessoa, independentemente da sua religião ou da sua fé, independentemente de se aproximar mais ou menos de Jesus, ir acender a sua vela e, depois, se sentir necessidade de rezar ou de dizer alguma coisa, pois que faça, se não, que acenda a sua vela e que marque presença nesta noite, que seja uma noite luminosa, uma presença de paz, de amor, de esperança, porque este tipo de iniciativas são manifestações de fé.

São também de emoção e lágrimas?
Muitas. É bonito e tenho esta experiência, tal como muitos jovens, de situações, de famílias, de jovens, que chegam ali, que se confrontam com o Santíssimo, com a música de fundo a tocar, com alguns jovens a dar o seu testemunho, e confrontam-se ali em momentos bastante intensos de proximidade e de oração, gente que chega ali e que quase que a sua vida fica ali totalmente exposta perante Deus, e choram. E já aconteceu haver pessoas que chegam ali a pedir naquela hora para celebrar o Sacramento da Reconciliação, a confissão, e já confessei nas ruas da cidade, no dia de Nossa Senhora da Conceição, à noite.

                            

João Paz/Joana Medeitros

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Autor: CA

Categorias: Regional

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