“Dediquei grande parte da minha vida, com muito trabalho e dedicação, a ajudar os mais desfavorecidos com muita satisfação e empenho”

Correio dos Açores - Onde nasceu e como começou a sua vida?
Délia Leite (Professora primária) - Nasci a 21 de Dezembro de 1950, na Povoação, onde vivi até completar a quarta classe. Depois, tive que fazer o exame de admissão ao liceu de Ponta Delgada e lá ingressei com 10 anos de idade. Tendo em conta que, na altura, não havia transportes regulares e era difícil vir da Povoação todos os dias, fiquei hospedada em Ponta Delgada, a fazer o quinto ano do liceu.

Como foi o seu crescimento com a família? Tem irmãos?
Tenho apenas um irmão, dois anos mais novo, que também veio estudar para Ponta Delgada. Ele ingressou no serviço de Finanças e aí fez a sua carreira. Actualmente, vive no continente.  
O meu pai era comerciante. Ele exportava alguns produtos, tais como favas, feijão e outros, através de uns familiares, designadamente da família Pacheco de Medeiros. O meu pai também trabalhava para eles, angariando pessoas para cultivar beterraba. Além disso, vendia produtos para as terras, salitre, adubos, entre outros, e tinha um café. A minha mãe, apesar de não trabalhar fora, ajudava muito o meu pai. Ela é que fazia a contabilidade daquilo que ele vendia. Aliás, esta é uma maneira moderna de se dizer, visto que na altura se dizia “fazer as contas”. O meu pai era quase analfabeto, só sabia escrever o seu nome. Ele conhecia as letras e fazia contas. O meu pai andou na escola, mas, como o meu avô era lavrador, ele queria era ir para as terras e para as vacas. Importa referir, que ele morava quase ao lado da escola, ao contrário da minha mãe, que morava distante. A minha avó, mãe da minha mãe, era uma pessoa fora de série para a época, não parecia pertencer àquele tempo. Ela tinha um sentido muito diferente da vida e do saber, e todos os seus filhos foram para a escola. Por isso, a minha mãe tinha muito mais facilidade na escrita, na leitura e a fazer contas do que o meu pai.
Os meus pais, com as suas lutas, conseguiram com que nós estudássemos.

Quando vai estudar para Ponta Delgada, ficou hospedada em casa de família?
Tinha família em Ponta Delgada, nomeadamente tias-avós e primos, que me davam o apoio se necessitasse. Mas fiquei hospedada, primeiro, numa casa ao pé do Museu Carlos Machado, depois, na Rua Pedro Homem e, finalmente, em São Pedro, onde permaneci até terminar os estudos.

Como foi abandonar a sua casa e os seus pais tão cedo?
Não foi fácil, aliás, foi muito difícil. Até há bem pouco tempo, ainda sonhava com a minha vinda para Ponta Delgada. Foi algo que me marcou bastante. Andava sempre a contar os dias para ir de férias. Quem era da Povoação e do Nordeste, por exemplo, só regressava a casa nas férias. Não podíamos ir passar o fim-de-semana.

Não havia transportes que se adequassem à ida e vinda a horas, porque o liceu abria às 08h30. Na altura, o bilhete de autocarro para a Povoação custava 23 escudos e, mesmo assim, não era fácil, pois estava tudo muito contado. Recordo-me que a minha mãe me mandava a comida. Era tudo diferente, quando comparado com os dias de hoje. A vida era mais difícil e complicada.
A minha mãe veio trazer-me a Ponta Delgada e quando se preparava para regressar à Povoação, na camioneta, eu comecei a chorar. Recordo-me de ela dizer-me que não me queria ver chorar, para eu voltar para casa com ela. Eu, que tinha uma força de vontade enorme, disse-lhe que não, porque tinha de ser. Imagine-se como se deve ter sentido a minha mãe, ao ir naquele autocarro para casa. Quando chegou a casa, contou o sucedido ao meu pai, que lhe perguntou porque não me tinha trazido de volta, ao que ela respondeu, porque tinha de ser. E assim foi. Correu bem, nunca perdi nenhum ano e depois fui-me habituando a ir apenas a casa nas férias.

Como foi o seu restante percurso académico?
Após completar o quinto ano, fiz o exame de admissão na Escola do Magistério Primário, que funcionava no liceu. Fiz o curso do magistério e fui professora do 1º ciclo, durante 34 anos. Terminei este curso do magistério com 17 anos, pelo que não tinha idade para leccionar. Regressei à Povoação, à minha terra, para dar aulas no Externato Maria Isabel do Carmo Medeiros, enquanto não completava os 18 anos. Neste estabelecimento de ensino, leccionava francês e inglês de iniciação. Quando fiz 18 anos, fui para o Faial da Terra completar aquele ano lectivo e trabalhei na Lomba do Alcaide e na Lomba do Louçã.
Depois, casei-me. O meu marido, que também é da Povoação, na altura, trabalhava na Nestlé, pelo que fixámos residência na Lagoa, há 50 anos. Este ano comemorámos as nossas bodas de ouro. Do nosso casamento resultaram quatro filhos. Infelizmente, o meu primeiro filho faleceu ainda pequenino. Tenho dois filhos e uma filha, que faz diferença de 9 anos do irmão mais novo e 12 anos do irmão mais velho.  
Entretanto, a universidade abriu um curso de formação científico-pedagógica para professores do 1º ciclo. Eu, que tinha aquele bichinho do saber e era a minha vontade continuar os estudos, agarrei logo a oportunidade. Entrei na universidade com facilidade, pois tinha um bom currículo e fiz a minha licenciatura na parte cientifico-pedagógica do primeiro ciclo, terminando em 2002.

Quando foi para a universidade os seus filhos eram pequenos...?
Nesta altura, o meu filho mais velho já estava na universidade. Fui colega dele, embora estando em outro curso.
Lembro-me de ir para a universidade com tanto gosto e vontade. A par disso, continuei a dar aulas, pois o curso era pós-laboral. Foram dois anos sem férias. Se não tivesse a ajuda do meu marido, que me ajudou muito a passar trabalhos, teria sido muito complicado.  

Qual foi o seu percurso profissional?
Na década de 80, pós-25 de Abril, a Secretaria da Educação convidou-me para fazer parte de um projecto que se chamava Educação Permanente, do qual fui coordenadora, na Lagoa e em Vila Franca. Estive a desenvolver esse trabalho durante seis anos e foi um labor muito rico. Nesta altura, havia muitas pessoas sem a quarta classe ou o sexto ano, pelo que o nosso objectivo era elevar o nível das pessoas, além de que alguns precisavam da quarta classe, por causa dos seus empregos.
Em cada freguesia do concelho, havia um curso de alfabetização, de modo a que quem precisasse pudesse completar o quarto ano. Depois, a lei mudou e começou a surgir a necessidade do sexto ano.
Nesta altura, comecei a abrir cursos. Houve um em Água de Pau e outro na Escola Padre João José do Amaral. Nesta escola, tive duas turmas, cada uma com 20 a 22 alunos. Uma turma destinava-se a pessoas que tinham vontade de frequentar o curso e outra a pescadores que, para conseguirem cédula marítima, precisavam do sexto ano. Inclusive, fui várias vezes a casa deles, para trazê-los para o curso.
Houve cursos de inglês, dactilografia, dinamização de bibliotecas, música (viola), artesanato (vimes), costura, malhas, bordados e culinária. A par disso, precisávamos de ter uma componente pedagógica. Então, cada participante elaborava um dossiê, onde era registado todos os trabalhos elaborados. Dávamos cultura geral, ensinávamos a preencher cheques, que era um meio de pagamento muito utilizado na altura; ensinávamos a preencher um documento para enviar uma carta registada, pois algumas pessoas não sabiam ir ao correio; trabalhámos sobre os romeiros e sobre os Açores. Enfim, muito se fez para as pessoas melhorarem o seu nível de conhecimento.
Ainda hoje, encontro algumas dessas pessoas e muitas dizem-me, com tanto agrado, que aquele foi um belo tempo.
Além disso, fiz um curso de alfabetização com os assalariados da Câmara Municipal, no qual foram certificados 10 participantes. Recordo-me que até fizeram uma peça de teatro, com a ajuda da animadora. Todos esses cursos tinham uma animadora e eu era a coordenadora. A mim, cabia-me coordenar, dar as ideias e ver como as coisas estavam a decorrer. Na altura, recebi muita formação para conseguir desenvolver este trabalho.
Este foi dos trabalhos mais bonitos que fiz e gostei imenso. Gosto muito de interagir com as pessoas, pois além de darmos, também recebemos.

E o Ano Internacional da Alfabetização?
1990 foi o ano internacional da alfabetização. Então, no mês de Março, levei a efeito, no concelho de Lagoa, uma semana cultural popular que movimentou toda a minha zona de coordenação. Todos os dias, havia actividades durante aquela semana. Foi uma oportunidade para a descoberta de novos valores e para reforçar, uma vez mais, a nossa presença como Educação Permanente. Fui agraciada pela Câmara Municipal de Lagoa com um voto de louvor pelo trabalho desempenhado. Após seis anos dedicados inteiramente às populações da área da minha coordenação, julgo ter sido um desafio constante e uma experiência única que me valorizou muito profissionalmente, quer através da formação que nos era facultada, quer através dos contactos humanos a que o meu serviço obrigava. Tinha que contactar muitas câmaras municipais e juntas de freguesia, pois estas é que nos apoiavam.

Quando terminou o projecto, regressou à sua escola?
Ao fim dos seis anos, quando terminou, voltei para a Escola dos Frades em Santa Cruz, nomeadamente a Escola D. Manuel Medeiros Guerreiro, no ano lectivo de 1990/91.
Tendo assistido às festas de Santo António naquele ano, achei que faltava qualquer coisa para dar mais vida. Estava tudo iluminado, havia umas barraquinhas, mas estava um pouco morto. Em conversa com o meu marido, chegámos à conclusão que fazia falta umas marchas. Então, levei a ideia às minhas colegas da escola, que concordaram e disseram para eu fazer a proposta às juntas de freguesia e câmaras municipais, uma vez que já estava habituada a falar com estas entidades devido ao projecto de Educação Permanente. Dirigi-me à junta de freguesia de Santa Cruz, que acolheu a ideia e a nossa escola saiu toda, naquele ano, com coisas diferentes: a pré-primária e o primeiro ano fizeram uma coreografia intitulada “Caixinha de Cores”; a do segundo ano foi “Pedir a Santo António”; o terceiro ano, “Raminho de Salsa”; e a turma leccionada por mim, que abrangia terceiro e quarto anos, actuou com uma marcha de Santo António. E assim se deu o pontapé de saída. Foi uma alegria imensa, os pais colaboraram todos, a fazer as roupas e os adereços, tudo muito simples, pois não tínhamos grande orçamento.
Todos colaboraram, a escola toda participou e ninguém ficou excluído. Houve uma missa campal e o ofertório foi preparado pelas próprias crianças dessa escola. Fez-se festa: houve bazar e barraquinhas com diversas iguarias. Os professores prepararam coisas para levar, para angariar fundos a favor da escola. Tínhamos falta de muito material, nomeadamente uma fotocopiadora, que conseguimos comprar com o dinheiro proveniente de actividades desta natureza. No ano seguinte, fui falar com as colegas e as outras escolas aderiram. O centro sociocultural de São Pedro, onde estive durante 25 anos, assim como associações culturais e outras, começaram igualmente a participar, dando grande relevo a estas festas em honra de Santo António. Durante a pandemia, estas festas foram suspensas, mas creio que este ano serão retomadas, pois são as maiores festas do concelho.

O que fazia no Centro Sociocultural de São Pedro?
A dada altura, fui convidada para fazer parte da Comissão Instaladora do Centro Sociocultural de São Pedro, uma IPSS. Na altura, pedi para não me arranjarem cargos com muita responsabilidade, na medida em que já estava assoberbada de trabalho. Fiquei com o cargo de vogal, a fazer parte deste grupo de trabalho.
O Centro Sociocultural de São Pedro foi inaugurado no dia 11 de Abril de 1991, dando-se início às seguintes valências: actividades de tempos livres, e formação familiar e social. A actividade de tempos livres para crianças estava a cargo de uma professora e estava bem orientada. No âmbito da formação familiar e social, foram desenvolvidos diversos cursos, dirigidos a senhoras e jovens, com o intuito de melhorar a qualidade de vida das formandas e das suas famílias, de modo particular, às beneficiárias do rendimento social de inserção, através de um projecto de luta contra a pobreza, criado na altura, denominado “Salto de Nível”. As pessoas nem sabiam a necessidade que tinham de aprender. Como estavam num patamar tão baixo, não sentiam a necessidade, daí o nome do projecto. Muitas das pessoas que foram para estas formações foram aproveitadas, conforme as suas qualidades e apetências, para trabalhar no centro, em outras actividades que foram criadas.
Nestes cursos, fizemos costura, culinária, música (órgão e viola) e informática. As festas de Natal eram enriquecidas com a participação das crianças e dos cursos de música. No final do ano lectivo, fazíamos exposições dos trabalhos realizados e exposições fotográficas, para mostrar à comunidade o que se fazia e para chamar as pessoas a participar.      
Lutámos sempre em prol da população carenciada. Primeiro, no bairro de São Pedro e, depois, tivemos de ampliar o edifício, visto que o primeiro era diminuto e tinha que se adequar às necessidades. Em 1995, na Praça do Rosário, no edifício polivalente da banda filarmónica, alargámos as valências e criámos o centro de dia para idosos e apoio domiciliário, porque não havia, ainda, a Santa Casa da Misericórdia. Repare-se que somos mais antigos que a Santa Casa da Misericórdia. Com o aumento de pedidos e alteração da legislação, tivemos que arranjar um espaço novo, pois o anterior era exíguo. Assim, prosseguimos com a construção de um novo edifício na Rua Padre João Furtado Pacheco. Devido à nossa persistência, o terreno foi cedido pela Câmara Municipal e o apoio financeiro veio do Governo Regional dos Açores. Em 31 de Agosto de 2011, foi inaugurado o novo edifício para Centro de Dia e Serviço de Apoio Domiciliário para o concelho de Lagoa.  

Que outras iniciativas foram realizadas em prol da comunidade?
Foram várias as iniciativas realizadas. Além das já referidas, gostaria de salientar as celebrações litúrgicas, no bairro, exposições, a realização de uma dominga do Divino Espírito Santo e um festival de sopas. Este foi o primeiro festival de sopas realizado na Lagoa e teve o intuito de ajudar a instituição, com a colaboração de vários restaurantes, da comunidade, instituições, casas do povo, juntas de freguesia. Depois, a Santa casa da Misericórdia começou a colaborar no festival das sopas.
E assim, após 25 anos a colaborar nesta instituição, no início como vogal, passando a vice-presidente e depois a presidente, dediquei grande parte da minha vida, com muito trabalho e dedicação, a esta causa tão nobre de ajudar os mais desfavorecidos, os que mais precisam, com muita satisfação e empenho. No ano que deixei a instituição, por motivos familiares, recebi um diploma de reconhecimento.

Além do Centro Sociocultural de São Pedro, em que projectos esteve envolvida?
Participei, durante dois mandatos, nos órgãos sociais da Santa Casa da Misericórdia da Lagoa, dando o meu contributo no engrandecimento da mesma. Ainda como professora, fui animadora pedagógica no concelho de Lagoa, pelo que fazia reuniões com todos os professores do concelho.
Além disso, fiz formação, a nível nacional, para as provas aferidas de Língua Portuguesa, sendo supervisora das mesmas, a nível regional. Prestei consultoria ao Governo Regional dos Açores, elaborando e corrigindo provas de Língua Portuguesa e Matemática, para admissão do pessoal. Fazia as provas, corrigia-as e, posteriormente, fazia a lista das pessoas, por classificações.
Fui contactada pela universidade, atendendo a que tinha feito o curso para as provas aferidas, a nível nacional, para colaborar com um projecto que a Universidade dos Açores fez com os Estados Unidos da América, sendo a responsável pela correcção das provas dos alunos dos Estados Unidos. Fiz, ainda, parte da comissão de avaliação dos docentes do primeiro ciclo.

Além da família e do trabalho, que actividades a preenchem?
Gosto muito de fazer trabalhos manuais. Adorava fazer crochê, bordar, fazer quadros e presépios de lapinha. Gosto muito de estar ocupada, tal como a minha mãe e a minha avó. De momento, tenho feito colchas para aproveitamento de lãs. Já não faço crochê, porque não vejo; a lã, como é mais grossa, é mais fácil.
Tenho uma doença degenerativa na vista, pelo já sinto certas limitações. O médico que me acompanha diz-me para prosseguir com os meus trabalhos, todavia, creio que o diz, pois sabe que não sou pessoa de estar sossegada.

Depois de tudo o que tem feito ao longo da sua vida, que sonhos ainda tem por realizar?
Tenho o sonho de escrever um livro, mas não sei se o concretizarei por causa da vista. Este livro podia debruçar-se sobre as marchas, pois tenho imensas fotografias.
                                        
Carlota Pimentel

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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