Economista José Cabral Vieira e o crescimento da inflação em 2023

“Tudo vai funcionar como se fosse a criação de um imposto adicional sobre o rendimento das famílias afectando negativamente o seu poder de compra”


Correio dos Açores – Quais as perspectivas para 2023, em termos económicos e sociais? O que vai condicionar a evolução do próximo ano em termos económicos?
José Cabral Vieira (Economista, professor da Universidade dos Açores) - Não me parece difícil perspectivar que o ano de 2023 vai ser um ano difícil em termos económicos e sociais, sendo que estas duas realidades não estão dissociadas uma da outra. Este ano será, certamente, marcado por aspectos como taxas inflação e taxas de juro acima do que estávamos habituados e um pouco na continuidade do que já aconteceu em 2022. Mesmo que a inflação abrande ligeiramente, os preços da maioria dos bens estão num patamar elevado desde 2022, ou seja, a base sobre a qual farão os aumentos em 2023 já é elevada, e terá um efeito muito significativo nos orçamentos familiares. Acresce a isso, o facto de as taxas de juro continuarem elevadas e muitas das repercussões sobre os contratos de crédito realizados no passado, mais concretamente sobre as prestações, se fazerem sentir com maior acuidade ao longo de 2023. Tudo isto funciona como se fosse a criação de um imposto adicional sobre o rendimento das famílias, afectando negativamente o seu poder de compra. Para agravar tudo isto, prevê-se uma recessão na Alemanha o que terá um impacto significativo sobre toda a economia europeia, e não só, sendo de prever, entre outros aspectos, o aumento das taxas de desemprego. Claro que uma pequena economia como a dos Açores, altamente dependente do exterior, nomeadamente do turismo nos últimos anos, não ficará imune a todas estas alterações.     
 
A execução do PRR pode amortecer a crise? De que forma?
 É claro que a entrada de dinheiro em qualquer economia pode ajudar a amortecer, ou seja, tornar menos visíveis os efeitos da crise. Contudo, não podemos esquecer que o PRR surge na sequência da pandemia, sendo que, posteriormente, surgiu um outro fenómeno adicional e imprevisto que foi a guerra na Ucrânia.
Não sei até que ponto é que o PRR original é suficiente para abarcar e mitigar os problemas associados a estas duas dimensões. No entanto, importa executar e bem, mesmo que com algum atraso inicial. Tal não implica que a execução possa ser continuamente atrasada. Na verdade, a execução do PRR é, pelas regras que a regulam, uma corrida contra o tempo e deve ser entendida como tal.
Derramar dinheiro na economia pode ter, e normalmente tem, um efeito imediato sobre o aumento da procura dirigida às empresas e pode criar a ilusão de que tudo está bom caminho. Tal efeito pode ser, no entanto, como o fumo, somente transitório, caso não sejam atacados os problemas estruturais associados ao funcionamento das economias. Os países e as regiões mais ricas e competitivas olham desta forma para a utilização e aplicação de fundos sejam estes públicos ou privados (basta ver o caso da Irlanda). Pessoalmente, gostava que o PRR nos levasse para uma economia e uma sociedade mais competitiva, com mais inteligência artificial e automação ao serviço das empresas e dos cidadãos, reduzindo a burocracia e os tempos de espera, que nos ajude a perceber melhor para onde é que o mundo caminha em termos de necessidades e qual o nosso papel na satisfação das mesmas, nomeadamente através da exportação de bens e serviços de elevado valor acrescentado. Um modelo assente na baixa qualificação e numa economia de baixos salários não me parece que deva ser o modelo a seguir. Temo, no entanto, que aquela minha visão, não venha a acontecer.      

 É inevitável uma revisão do Orçamento Regional para 2023?
 Pessoalmente, e pela leitura que faço do documento, não considero que seja uma inevitabilidade. No entanto, para que tal revisão não se torne necessária, alguma austeridade terá de ser imposta ao longo da sua execução. Cabe ao poder executivo definir em que áreas e como, de forma a minorar o seu impacto na economia regional.  

 É urgente uma revisão da Lei de Finanças Regionais que enquadre o pagamento pelo Estado das despesas da Saúde e da Educação nos Açores. Acredita que a revisão da lei vá por diante com esta perspectiva?
 Esta foi, e ainda é, uma lei de grande importância e estruturante no relacionamento financeiro entre as Regiões Autónomas e a República. Ao contrário do que acontecia até então, acabou com o poder discricionário do Estado nas transferências para estas regiões, reduzindo, assim, a incerteza e garantindo uma maior previsibilidade das receitas a incluir nos orçamentos regionais. Como acontece em todas a leis, esta pode ser melhorada, mas acredito que nunca passarão de melhorias de pequena dimensão. Não acredito que uma revisão enquadre o pagamento pelo Estado das despesas de Saúde e Educação nos Açores. Também não sei até que ponto é que tal é desejável, na medida em que quem se sente como o financiador também pode ter a tentação de chamar a si uma parte da capacidade de gestão.  Contudo, confesso que esta é uma opinião muito ligeira e pouco fundamentada, na medida em que não sei o que foi - se é que foi - pensado até ao momento sobre esse tipo de matéria.  
      
 Estão criadas nos Açores condições para a dinamização do empreendedorismo jovem? O que falta?
Penso que, acima de tudo, ainda falta uma cultura empreendedora. Temos sistemas de incentivos e temos incubadoras suficientes nos Açores, incluindo dois parques e ciência e tecnologia. Empreender é criar e/ou colocar algo de novo no mercado.  Neste processo, a maior parte das tentativas falham e se as pessoas não forem resilientes, desistem pensando que não conseguem o tal sucesso.
Resiliência é um ingrediente fundamental da cultura empreendedora e que não é fácil de incutir em todas as áreas e dimensões da vivência humana. Veja-se o que se passa com disciplinas como a Matemática, onde a falta de resiliência é enorme, ou seja, muitos alunos facilmente desistem de tentar resolver um problema de matemática perante uma tentativa falhada, mas conseguem superar inúmeros falhanços na tentativa de montar um puzzle. Dois problemas a resolver e duas formas diferentes de enfrentar o insucesso.  Muitos deles ouviram e interiorizaram na infância expressões do tipo “a matemática é difícil”, “nunca gostei de matemática” ou “sempre fugi da matemática”. Pelo contrário, foram desafiados a montar puzzles, muitas vezes, oferecidos pelos progenitores ou outras pessoas chegadas. Tudo isto para dizer que a educação para o empreendedorismo deve começar muito cedo na escola e não só, como forma de incutir, ou cultivar, este tipo de ingrediente. Claro que outras dimensões são necessárias, tais como ser capaz de perceber para onde é que o mundo vai, o que é que eu posso criar e colocar no mercado para participar nessa mudança, entre outros elementos. Não basta ter infra-estruturas de apoio. É preciso investir em capital humano orientado para esse fim desde muito cedo.      
 
O ensino está vocacionado na Região para criar empreendedores?
Pelo que conheço, julgo que não. Não conheço educadores desde a infância até à adolescência formados para esse efeito. Mas atenção: o ensino formal contribui apenas com uma parcela para a formação da nossa personalidade, aspirações, orientação profissional, resiliência e posicionamento face ao risco e às dificuldades.
 
Acredita que os Açores podem ser uma Região aliciante para nómadas digitais?
Sim, tal como a Madeira já é. Esta nova forma de trabalho atrai pessoas talentosas, normalmente na vanguarda do conhecimento e férteis em ideias, que trabalham para clientes à escala global e para empresas de renome. Pessoas que podem partilhar conhecimento e ideias, que aliam o trabalho ao lazer e normalmente preocupam-se com aspectos ligados à conservação da natureza e ao ambiente. Os Açores podem, certamente, e devem, atrair estes profissionais. Temos boas comunicações, temos atractivos turísticos ligados à natureza e podemos, julgo eu, propiciar-lhes algum espaço nas incubadoras ou parques de ciência existentes na região. A nossa capacidade empreendedora poderia sair beneficiada.       
 
Carlota Pimentel

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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