“Estou optimista de que o próximo ano será ainda melhor do que este” para o sector do turismo nos Açores, afirma Vítor Câmara

Correio dos Açores: De que forma a evolução do turismo excedeu as suas expectativas em 2022?
Vitor Câmara (empresário turístico): De facto, excedeu as expectativas. Tivemos um princípio de ano um pouco complicado, com o início da guerra da Ucrânia e, em Fevereiro, estava quase em pânico com as consequências que a guerra poderia ter. Felizmente, tivemos um ano do melhor que eu me lembro, já que superámos 2019 em mais de 20%, e penso que isso não se aplica apenas à minha empresa mas também a outras. Excedeu em muito as expectativas. Nesta época baixa estamos dentro da normalidade, ou seja, continuamos um pouco acima de 2019, uma vez que a comparação é sempre feita com 2019, e vamos fechar o ano muito bem. Em termos de passagem de ano, iremos fazê-la no Hotel Vale do Navio e no Hotel Verde Mar & Spa, e estamos completamente cheios, o que mostra que está a correr bem. Temos boas perspectivas para o próximo ano apesar de tudo o que se está a passar no mundo.

Qual considera a maior dificuldade ao gerir hotéis de quatro e de cinco estrelas?
Nós temos, de facto, alguma dificuldade em encontrar mão-de-obra qualificada. Temos sido competitivos neste aspecto e temos conseguido ter boas relações com as escolas profissionais, o que nos permite chegar até bons profissionais. Mas, de facto, principalmente na área de mesa-bar e restauração, há alguma dificuldade em contratar pessoas. Sabemos que a nossa restauração precisa de evoluir mais um bocadinho e a empresa faz um esforço muito grande para ter produtos de qualidade e uma restauração de qualidade. Temos as nossas limitações, mas penso que podemos corresponder quer ao conceito de quatro estrelas, quer ao conceito de cinco estrelas. Em acréscimo, a Açorsonho, já com 15 anos, fez algumas remodelações, trocámos alguns equipamentos, mas, claro que a hotelaria precisa de algum investimentos, porque andámos muitos anos sem grandes rendimentos, e quando começámos a ter rendimentos veio a pandemia. Sei que, nos últimos anos, muitos investiram e remodelaram mas ainda precisam de remodelar mais.

Estes são problemas que continuarão a existir em 2023…
Sim. Em relação à mão-de-obra, temos que pensar bem em oferecer melhores condições porque estas são profissões muito exigentes do ponto de vista técnico e do ponto de vista de conhecimento. Na mesa-bar, por exemplo, é preciso falar pelo menos uma língua estrangeira e ter alguma capacidade para lidar com vários tipos de pessoas ao mesmo tempo e são pessoas qualificadas que ganham pouco e tem que haver uma política diferente em termos de compensação.
(…) Em relação ao investimento, a nossa oferta tem que aumentar preços em geral. Andámos muitos anos com preços muito baixos e a fazer um esforço enorme, mas não tínhamos também transportes aéreos em condições. A partir de 2015 aparecem as low cost e, de facto, os hotéis puderam compensar um bocadinho os seus preços, ganharam um bocadinho mas apenas o suficiente para que alguns avançassem com remodelações. Depois veio a pandemia e estamos outra vez a começar este processo de requalificar e de requalificar também em termos de preços porque, de facto, temos uma hotelaria com preços bastante baixos com os quais não se pode compensar bem as pessoas. Mas isto será sempre resultado da procura, porque se nós continuarmos com uma procura como tivemos este ano e se continuarmos a projectar bem a Região, o resto vem com as leis do mercado. Cada um se irá ajustar ao que consegue mas, comparando com outros países, não só os Açores, Portugal tem preços baixíssimos.

Que características têm os hotéis do Grupo Açorsonho em relação aos demais?
Os nossos hotéis, como são hotéis relativamente novos – entre todos, o Açorsonho Apartamentos é o mais antigo, com 17 anos e os últimos têm seis e três anos – são hotéis com grande qualidade, tanto em equipamentos como em serviços, e acho que estão muito bem. A questão é existir procura para que se possam posicionar em termos de preços.

Uma vez que desenvolve a sua actividade também nas Capelas, acha que deveriam ser criadas condições para observação de cetáceos e baleias nesta zona?
As Capelas não têm um porto que dê para essas actividades. Os portos onde há condições para isso na costa norte estão em Rabo de Peixe, mas já houve a tentativa de fazer saídas a partir das Capelas, até porque na costa norte seria possível ver cetáceos praticamente todos os dias. Por outro lado, há no morro das Capelas, umas grutas muito bonitas e poderia haver aqui mais alguma iniciativa, mas para isso têm que haver condições e na costa norte o mar dificulta um bocado. A costa é bonita, poderiam ser feitos passeios mas isso, provavelmente, virá com o aumento dos turistas e da procura.

Ter hotéis localizados a uma distância maior dos centros urbanos é uma qualidade ou uma desvantagem?
Encaro como uma qualidade. O Hotel Vale do Navio é seguro porque estamos a 10 quilómetros de Ponta Delgada, uma viagem pertíssima em que se pode desfrutar de paisagens e de vistas panorâmicas boas e, também, do ar puro e do sossego que o campo oferece. Quanto ao Pedras do Mar, este é um produto muito singular e especial. Está no meio do nada, digamos, por isso acho que é uma mais-valia com toda a pastagem e com todo o mar que o rodeia. Já tenho clientes que não vêm aos Açores, vêm ao Pedras do Mar. São clientes que vêm de Lisboa e que querem passar duas ou três noites no Pedras do Mar, são pessoas que querem sair das cidades e que procuram aquele tipo de produto.
Nos Açores não temos muitos produtos destes, que saiam um bocadinho de Ponta Delgada e ainda há alguma dificuldade em vender estes produtos porque os nossos operadores estão muito acostumados com Ponta Delgada, uma cidade relativamente pequena e pacata, mas há quem procure um produto mais específico para descansar durante duas ou três noites e o Pedras do Mar é o ideal. Na Ribeira Grande estamos também no centro da cidade, e oferecemos praticamente o mesmo no que diz respeito ao sossego, pois quem está no Verde Mar tem a praia em frente e nem se apercebe que está numa cidade.

Que expectativas tem para 2023 em relação ao turismo?
Todos temos a noção das dificuldades, nomeadamente a nível económico, pelas quais iremos passar no próximo ano com a inflação e com a instabilidade mundial, mas acho que os Açores são tão pequenos e precisam de tão pouco que podem passar bem por essa fase. Estou optimista de que o próximo ano seja ainda melhor do que este. Também em termos geográficos estamos bem, já que estamos um bocadinho fora da vizinhança da Ucrânia, e a tendência será que os turistas procurem mais por Portugal e pelos Açores. Como temos pouca oferta e não precisamos de muito, penso que podemos ultrapassar bem estas dificuldades.

Considera que o atraso na tomada de posse da Associação de Turismo dos Açores (ATA) tem sido prejudicial em relação à promoção da imagem dos Açores?
Tudo o que é publicidade e em prol do desenvolvimento do turismo tem que ser pensado e pensado com antecedência. Qualquer atraso acaba sempre por não ser o melhor, mas penso que estão a fazer um bom trabalho e que o continuarão a fazer. Estou confiante de que o próximo ano será um bom ano. Enquanto empresário, penso que os nossos mercados têm que ser repensados. Temos o mercado espanhol, por exemplo, que é um mercado muito grande que será ideal para os Açores, tal como temos França e os países mais vizinhos. Temos também os Estados Unidos da América e o Canadá, que toda a gente sabe que tem um grande potencial, e temos que apostar mais nesses mercados e continuar, obviamente com os que já temos mais distantes mas em que não somos tanto competitivos. Temos, se calhar, que procurar mercados de maior proximidade. O mercado nacional tem sido responsável por mais de 50% dos nossos turistas já há muitos anos e somos um país muito pequeno. Ao lado, temos Espanha, com muitíssima mais capacidade e temos poucos turistas vindos de Espanha. Por isso penso que Espanha tem um potencial enormíssimo.

No que diz respeito à reestruturação e privatização da SATA, em que medida podem estas ter um contributo positivo ou negativo na dimensão do turismo dos Açores?
A SATA, felizmente, nos últimos anos tem trabalhado bem, cumpre horários, não tem tido grandes greves. Penso que está bem melhor do que a TAP a servir a Região. Claro que tem preços um bocado elevados que são compensados. Não acho que esteja mal, tem é que continuar a trabalhar e a trabalhar bem. Acho que deve haver a privatização, acho que as empresas têm que ser privadas, aqui não estamos numa empresa que tenha uma função pública. Costumo dizer que a SATA é o Metro dos Açores, se pagamos o Metro em Lisboa, temos que pagar a SATA nos Açores, e a ligação inter-ilhas foi uma das melhores políticas dos últimos tempos, com as passagens até aos 60 euros. Apesar da privatização, ela continuará a ser pública e a ter os apoios que tem que ter para servir a Região porque tem as suas especificidades e as suas dificuldades.

Que projectos pretende iniciar nos próximos anos?
A empresa Açorsonho tem alguns projectos: o Hotel Basalto & Mar é um deles. É uma unidade que vai nascer na costa sul, perto da Praia do Pópulo, e temos a intenção de avançar com a sua construção, se for aprovado e se tudo correr bem, provavelmente no ano de 2024 ou de 2025. São 104 quartos, são cinco estrelas, ou seja, um projecto com bastante qualidade, do arquitecto Monteiro. Teremos um spa bastante completo, teremos ainda um centro de actividades náuticas com o aluguer de alguns equipamentos e com instrutor na área do surf e de mergulho, uma vez que estamos muito próximos da praia, e isto para além da piscina interior e exterior comum a muitos hotéis.
(…) Temos também a intenção de começar a construção de um hotel na Praia de Santa Bárbara, que se chamará Natura & Mar e que tem projecto aprovado. Estamos à espera do projecto económico para poder avançar. É também uma unidade de cinco estrelas, com muita qualidade, e a ideia é posicioná-lo acima dos outros dois hotéis cinco estrelas. É mais pequeno, terá 70 quartos, e apontará para um nicho de mercado bastante elevado.

Joana Medeiros

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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