Projecto criado há dois anos para internados e do exterior

‘Mãos que Criam’ é a oficina da Casa de Saúde de São Miguel onde os utentes transformam barro, tecido e papel em peças que são vendidas no mercado a locais e a turistas

Correio dos Açores – Qual a história do projecto Mãos que Criam?
Equipa Mãos que Criam – O projecto ‘Mãos que Criam’ já existe há alguns anos no Centro Ocupacional Irmão Brás, sendo o resultado da actividade produtiva que se realiza nos ateliês do tecido, do papel e na olaria.
Antes da pandemia, muitos dos produtos resultantes desta actividade já estavam disponíveis em algum comércio local. Eram peças elaboradas, principalmente, para os turistas que nos visitavam.
Com a pandemia, todo este trabalho perdeu-se. De um momento para o outro, ficamos sem possibilidade de escoar os produtos resultantes desta actividade ocupacional. Isto obrigou-nos a repensar e reorganizar o nosso trabalho, pois havia a necessidade de manter a actividade ocupacional e, acima de tudo, mantê-la numa vertente produtiva, pois é essa a principal fonte de auto-motivação, criatividade e auto-estima dos nossos utentes/artistas.
Foi assim que começaram a surgir as novas peças, agora já não só a pensar naqueles que nos visitavam vindos de outros locais, mas também a pensar na nossa comunidade.
Em finais de Outubro de 2020 começámos, então, a divulgar o nosso trabalho, nomeadamente através da rede social Facebook. É nesta altura que damos a conhecer o projecto ‘Mãos que Criam’. Nunca associamos o ‘Mãos que Criam’ ao Instituto São João de Deus - Casa de Saúde São Miguel, pois o nosso objectivo era perceber se as pessoas apreciavam as nossas peças pela sua qualidade e design.
A verdade é que a procura começou a aumentar e, hoje, passados dois anos, é com grande alegria e satisfação que percebemos que as pessoas nos continuam a procurar, porque admiram o nosso trabalho, a sua qualidade, o tipo de peças que desenvolvemos e não por terem sido realizados por pessoas com doença mental. Acreditamos que, assim, os utentes sentem o seu trabalho mais valorizado e reconhecido.

Qual o principal objectivo do ‘Mãos que Criam’?
O principal objectivo é o de realizar um trabalho de manutenção e aquisição de competências com os utentes que ainda não as demonstram para se reintegrarem na comunidade. No Centro Ocupacional Irmão Brás queremos proporcionar aos utentes um espaço securizante, que lhes permita a realização de diferentes actividades gratificantes. Além disso, também desenvolvemos um conjunto de actividades produtivas com o objectivo de promover a prática pré-laboral que visam facilitar o percurso ocupacional/laboral de pessoas que não reúnam, a curto prazo, as competências necessárias para integrar o mercado de trabalho.

Passados dois anos desde a criação do projecto, que balanço fazem?  
O balanço é, sem dúvida, muito positivo. Em primeiro lugar, e o mais importante para nós, é a importância deste projecto para a vida das pessoas que beneficiam directamente dele. O facto de termos conseguido manter, aumentar e inovar a actividade ocupacional produtiva, por si só, já é um factor de grande satisfação e orgulho para nós.
Em segundo lugar e, intimamente ligado ao que dizíamos anteriormente, está o facto de termos conseguido a aprovação do nosso trabalho pelo público em geral. É muito gratificante, para nós, perceber que as pessoas nos procuram pela qualidade do nosso trabalho, pelo facto de apresentarmos peças com um design diferente ou até mesmo por termos peças relacionadas com as nossas tradições, como é o caso dos famosos cálices do “Menino Mija”.

Actualmente, o centro ocupacional tem capacidade para quantos utentes? Uma parte dos utentes encontra-se internada na Casa de Saúde e outra parte vem do exterior?
O Centro Ocupacional Irmão Brás tem capacidade para 55 utentes. Este número de vagas está distribuído por diversas áreas de ocupação, nomeadamente ateliê do tecido, atelier do barro, atelier do papel, lavandaria, manutenção, serviços administrativos e jardinagem.
Afectos ao projecto ‘Mãos que Criam’, que engloba os ateliês do tecido, do barro e do papel, temos cerca de 30 pessoas. A maioria encontra-se internada na Casa de Saúde São Miguel, mas temos também pessoas externas que apenas frequentam a nossa valência ocupacional.
A nossa valência está vocacionada para integrar pessoas com patologia mental e/ou problemas de adições (álcool ou outras drogas). Quem desejar integrar a nossa valência deverá entrar em contacto connosco, para que possamos agendar uma entrevista e perceber se estão reunidos os critérios para a sua entrada.

De que forma a criação destas peças ajuda os utentes?
Todas as nossas peças são pensadas e criadas por nós, utentes e colaboradores. Todo este processo está dividido por fases/tarefas, de modo a que todos possam ser incluídos de acordo com as suas competências/habilidades e motivação.

Em que tipo de peças estão a trabalhar actualmente?
Como já referimos anteriormente, o Projecto ‘Mãos que Criam’ é um projecto que engloba três atelieês: papel, barro e tecido. Temos vindo a desenvolver trabalhos em cerâmica, mas também em tecido. A área do papel é uma outra área de suporte ao projecto, na medida em que é esta a área responsável pela elaboração das etiquetas, das embalagens e dos sacos.

Qual o processo de criação? Como trabalham as peças desde o primeiro toque ao produto final?  
Todo este processo começa com recolha de ideias, discussão e análise pelo grupo. Posteriormente, é elaborada a maqueta do produto e, a partir daí, partimos para a elaboração da peça. Os processos são distintos, de acordo com a matéria-prima que estamos a utilizar, pois tecido, papel e barro são materiais completamente distintos e obrigam, necessariamente, a uma abordagem diferente.
Em cada uma dessas áreas, a primeira preocupação é a análise e divisão das tarefas, de modo a que estejam adequadas a todos os seus intervenientes. O principal objectivo é a aquisição e/ou manutenção de competências e nunca promover a frustração ou desmotivação. Aqui cada um aprende ao seu ritmo, sem pressões.

O dinheiro da venda das peças reverte a favor da instituição? Este rendimento é utilizado como?
Todo o valor que auferimos com a venda das nossas peças é para podermos investir na actividade ocupacional, designadamente na aquisição de novos equipamentos, de novos materiais e ferramentas, e para o desenvolvimento de actividades lúdicas e de lazer, que também são muito importantes para a manutenção da motivação, funcionando como reforço positivo pelo desempenho ocupacional.

Já fizeram uma exposição apenas com obras dos utentes?
Em 2019 participamos no Projecto Arte Bruta, desenvolvido pela Associação de Desenvolvimento Criativo e Artístico P28. Nesse ano elaboraram uma peça em cerâmica, com cerca de 4 metros, que esteve em exposição no Museu São João de Deus, na Casa de Saúde do Telhal, em Sintra. Foi um projecto muito interessante e desafiante para todos nós, uma experiência única!

Cada criativo é utente da instituição. Quais as suas histórias?
Todas as pessoas que frequentam a nossa valência trazem consigo a sua história. São pessoas, na sua maioria, marcadas por uma longa história de doença ou de consumos que, durante muito tempo, foram o foco central da sua vida.
Aos poucos e poucos, após estabilização da sua doença e integração na valência ocupacional, foram descobrindo outras áreas de interesse, outras competências que desconheciam ter ou serem capazes de adquirir. No nosso projecto temos pessoas com percursos profissionais muito diferentes. Temos pessoas que estiveram ligadas à construção civil, outras à agricultura, outras à pesca, à lavoura, ou seja, áreas em nada semelhantes a esta onde estão inseridas actualmente.

Acreditam na reabilitação dos utentes através da arte?  
Felizmente, longe vão os tempos em que reabilitar através da arte era uma questão de acreditar ou não. Hoje, a ciência, a investigação  e a evolução terapêutica demonstram inequivocamente que as diferentes expressões artísticas são recursos de excelência colocados à nossa disposição e podem ajudar a alcançar resultados bastante positivos na intervenção individual e colectiva, nas diferentes faixas etárias e nas mais variadas necessidades terapêuticas e de inclusão social. Dramaterapia, musicoterapia, dançaterapia, arteterapia (artes plásticas) são exemplos de intervenção terapêutica e de inclusão com provas dadas e validadas cientificamente. Assim sendo, mais do que uma questão de crer, é uma questão querer, de apostar e investir nas pessoas.  

Como é que tais actividades podem funcionar como instrumento terapêutico e um elemento de integração social?
A intervenção, seja terapêutica, seja social, através das diferentes expressões artísticas exige, logo à partida, que se faça uma distinção clara entre o produto/resultado artístico e o processo que se utiliza para chegar, ou não, a um produto/resultado artístico. Para nós, o que mais importa é o processo associado à expressão que se utiliza como forma de intervenção. É através do processo (dinâmicas, metodologias e técnicas) que desenvolvemos estratégias que conduzem ao (re)conhecimento individual, à relação com os outros e com o mundo, à manutenção de competências, à descoberta de potencialidades, à aquisição de novas competências pessoais, sociais e profissionais e, consequentemente, à melhoria de vida das pessoas.
No caso do projecto ‘Mãos que Criam’, conseguimos alcançar não só aqueles objectivos, como também criar um produto artístico que, pelo reconhecimento positivo que obtém junto do público em geral, tem contribuído em muito para o empoderamento e plena inclusão e integração dos utentes.

Quais são os planos para o futuro?
Neste momento, estamos em fase de análise e avaliação do projecto. O projecto cresceu muito e rapidamente. Precisamos perceber como é que desejamos continuar a crescer e a evoluir, e sobretudo que mais-valias podemos tirar deste crescimento para o nosso público-alvo.
Queremos dar oportunidade para que mais pessoas possam usufruir deste trabalho que realizamos todos os dias. Estamos empenhados em divulgar mais este projecto, para que outros possam também beneficiar dele e experimentar os benefícios da nossa intervenção.

Há algo mais que queiram acrescentar?
Gostaríamos de agradecer ao Correio dos Açores o interesse demonstrado pelo nosso projecto e a oportunidade de o darmos a conhecer ao público em geral.
Queríamos, também, agradecer a todos quantos acompanham, apreciam e valorizam o nosso trabalho, pois sem eles não teríamos chegado até aqui.
                                         

Carlota Pimentel

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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