Arquitectos açorianos vestem arquitectura através da bijuteria contemporânea

Correio dos Açores – Como começou a história da SUBTIL Azores?
Rodrigo Ourique e Carolina Medeiros – A história da SUBTIL começou com uma experiência quase pessoal, sem termos pensado ainda que nome lhe íamos dar ou se seriam artigos para vender, foi começando espontaneamente.  A ideia em si, surgiu  através de uma oferta de Natal (do Rodrigo à Carolina) de um colar de borracha de forma geométrica, o que nos levou a questionar “porque não experimentarmos desenhar os nossos acessórios, utilizando o processo de usávamos para elaboração de maquetas finais de arquitectura cortadas a laser?” E assim, fizemos alguns protótipos em acrílico e aglomerado de madeira e de seguida pintámos à mão. Posteriormente, sempre que utilizávamos os acessórios, eram alvo de “cobiça”, o que nos levou a ponderar se não poderiam ser comercializados. Assim, nasceu em 2016 a SUBTIL – Wearable Architecture.

Existem várias áreas de estudo que se inspiram na arquitectura, como no caso da filosofia ou - como no vosso caso - a moda. O que vos serviu de inspiração para criarem as peças da SUBTIL e que traços há em comum entre os vossos acessórios e a arquitectura?
Torna-se difícil responder a esta pergunta, porque no fundo esta influência que a arquitectura tem nas nossas peças é inconsciente e tem muito a ver com um gosto/ estética que apreciamos e que já nos é intrínseco, que de certa forma acaba por ser transposto para os acessórios. O que nos influência e nos inspira certamente é o minimalismo na conjugação das cores com os materiais, linhas, formas e padrões geométricos. Por exemplo, os acessórios que produzimos com padrões geométricos através de relevo/textura só os costumamos fazer em preto e branco, exactamente por ficarem com um aspecto gráfico, minimalista e intemporal. Já nos de contraplacado de madeira, aplicamos cores para além do preto e branco mas somente mancha, pois a madeira já lhes confere um “padrão natural”. Nesse sentido, esta procura de equilíbrio entre a forma, a textura e a cor tem tudo a ver com a concepção de arquitectura.

Como pode ser definido o estilo das peças que criam?
Bijuteria contemporânea, que esperamos intemporal. Não seguimos propriamente um estilo ou tendências de moda, tentamos sim, por vezes,  através das cores que utilizamos, ir ao encontro com as cores que se estão a usar. Isto aconteceu, por exemplo, em parcerias com a Sara França e Lus (Carolina Moreira), em que pintámos as nossas peças com as cores das colecções das mesmas.

Que tipo de acessórios fazem e que materiais são utilizados?
Até ao momento produzimos brincos, anéis, colares, botões de punho, carteiras, pentes e árvores de Natal. Também fazemos, em parceria com a Dinina Design (Cláudia Borges), acessórios para aplicar em malas, carteiras e chapéus.
Os materiais utilizados são o acrílico (preto, branco ou transparente) de 3mm de espessura e o contraplacado de bétula de 5mm de espessura, sendo ambos pintados à mão com tinta acrílica. Temos ainda a particularidade de aplicar nos brincos acessórios em plástico hipoalergênico de modo a alcançar o público que gosta dos acessórios mas tem receio de usar por ter alergia a metais que são tradicionalmente utilizados. Num registo diferente, fazemos suportes para cartões/fotografias, bases de secretária para canetas, telemóvel e cartões, bem como bases de copos em cimento.

Incluem já materiais característicos dos Açores nas vossas peças?
Infelizmente, não. Gostávamos muito de utilizar madeira de criptoméria, mas é difícil encontra-la nas espessuras que necessitamos.

Onde produzem as vossas peças?
Como encaramos inicialmente a SUBTIL – Wearable Architecture como um part-time, fizemos sempre tudo desde casa, fora do horário laboral. Recentemente, passamos a ter mais autonomia para cortar novas peças ou fazer novos protótipos, uma vez que adquirimos um pequeno laser.

Ao longo dos anos, consideram que a procura pela vossa marca tem aumentado? Se sim, de que forma?
Temos vindo a notar que a procura pela marca é proporcional à exposição, isto é, quanto mais frequente for a nossa divulgação, principalmente através das redes sociais como o Instagram, maior é a procura. Como o nosso trabalho diário nem sempre nos permitiu disponibilizar tempo à SUBTIL – Wearable Architecture, a procura oscila muito. Também existem certos períodos do ano onde temos maior número de contactos, como por exemplo no Natal, onde muitas pessoas que já conhecem a marca, compram novamente para oferecer, ou simplesmente para ter alguma peça nova.

Uma vez que enviam os acessórios de moda que criam para todo o mundo, onde vivem os vossos principais clientes?
Diríamos que 95% dos clientes que nos contactam directamente são de Portugal (continente e ilhas) e os restantes 5% da Europa. Contudo, nas lojas como o Louvre Michaelense ou a Apaixonarte, que têm um público-alvo variado e que inclui muitos estrangeiros, provavelmente a percentagem será outra.

E em termos de “estilo”, quem são os vossos principais clientes?
Apenas conseguimos dar feedback sobre quem nos contacta directamente, mas diríamos que não há um “estilo” único de cliente. Certamente que muitos partilham os nossos interesses pela arquitectura, design ou pela moda, mas como as nossas peças são, tal como o nome da marca indica, “subtis”, achamos que são transversais a todos os gostos.

Onde podem ser encontrados os vossos acessórios neste momento?
Podem ser encontrados no Louvre Michaelense -  Rua António José d’Almeida n.º 8, Ponta Delgada, na Casa & Objectos - Largo 5 de Outubro n.º 7, na Ribeira Grande, e ainda na Apaixonarte - Rua Poiais de São Bento n.º 57, em Lisboa.

Quais as vantagens de expor o vosso trabalho através das redes sociais?
É uma ferramenta essencial. No mundo actual e talvez potenciado pela pandemia, muitas marcas se deram a conhecer através do mundo digital. É a forma que temos de melhor expor o nosso trabalho e relembrar constantemente da nossa existência. Como referimos anteriormente, quanto mais publicamos, maior é o alcance. Permite também dar a conhecer “experiências” que fazemos e mais rapidamente obter feedback do que poderá ou não funcionar.

Uma vez que este pode também ser considerado um trabalho de artesanato num registo mais contemporâneo, de que forma consideram que a SUBTIL está a deixar a sua marca no artesanato dos Açores?
A nossa presença no artesanato, e inscrição da Carolina como artesã é muito recente, é difícil perceber se a SUBTIL deixa de alguma forma a sua marca no artesanato dos Açores, o que fomos percebendo do feedback das pessoas na feira “Expo Açores Artesanato”, evento promovido pelo Centro de Artesanato e Design dos Açores (CADA), onde estivemos pela primeira vez e onde foi possível  ter um contacto mais  directo com o público, é que as pessoas encaram as nossas peças como sendo diferentes do artesanato tradicional e achavam interessante o conceito. Algumas pessoas inclusive, referiram que lhes faziam lembrar os acessórios que usavam no anos 70 e 80. O que achamos que podemos vir a influenciar de alguma forma o artesanato, é demonstrando que hoje em dia, é possível aliar o artesanato à tecnologia.

Tendo em conta o crescimento da SUBTIL, 2023 será um ano de algumas mudanças e de crescimento, com o lançamento da SUBTIL arquitectura. Em que consiste este projecto?
A SUBTIL – arquitectura é como o próprio nome indica, um ateliê de arquitectura, que irá surgir em meados deste mês de Janeiro e será composto apenas por nós os dois (Carolina Gonçalves Medeiros e Rodrigo Furtado Ourique), onde vamos ter oportunidade de trabalhar exclusivamente para a SUBTIL nas suas vertentes de Arquitectura (projectos de arquitectura) e Wearable Architecture (acessórios de moda) e ter um contacto mais próximo e personalizado com os nossos clientes e projectos.

De que forma era um sonho vosso que é agora concretizado?
Ter ateliê próprio nunca foi propriamente um sonho nosso. Desde que concluímos a universidade, estivemos sempre a trabalhar na área, a fazer o que gostamos - arquitectura para as pessoas, ainda que através de uma entidade patronal. Contudo, ao longo dos anos, foi surgindo uma vontade de nos “montarmos” por conta própria para nos dedicarmos por inteiro aos nossos projectos de arquitectura em paralelo com os acessórios de moda  e talvez, quem sabe, outras áreas com as quais nos identificamos. Foi, definitivamente, um desafio a que nos propusemos e que agora só o tempo e o trabalho ditará o futuro.

Terão agora mais tempo para dedicar à criação de novos acessórios ou, pelo contrário, este é um projecto profissional mais exigente?
Uma vez que o espaço físico onde se irão desenvolver os dois projectos (SUBTIL – Arquitectura e SUBTIL – Wearable Architecture) é o mesmo, acreditamos que o tempo que podemos dedicar à marca será um pouco maior, no entanto, o foco principal será a arquitectura.


Joana Medeiros

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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