Marta Guerreiro, Presidente do Conselho Executivo do novobanco dos Açores

“Existem muitos investidores nos Açores com planos de investimento bem definidos e prontos para arrancar ...”

 Correio dos Açores – O ano de 2022 foi, na generalidade, um ano favorável para o sector bancário. O novobanco dos Açores cresceu em clientes, em crédito e em lucros?
Marta Guerreiro (Presidente da Comissão Executiva do novobanco dos Açores) – Sim, embora os bancos não tenham ainda as suas demonstrações financeiras fechadas, através dos resultados intercalares é possível perceber que, em 2022, a generalidade das instituições financeiras apresenta desempenhos comerciais mais favoráveis. Naturalmente que a tal não é alheia a subida das taxas de mercado, depois de mais de 6 anos de taxas negativas, mas também um quadro económico favorável, em clara recuperação após a crise pandémica, ainda que, entretanto, num contexto que não deixa de estar ensombrado por expectativas novamente pessimistas.
O novobanco dos Açores irá apresentar em 2022 um melhor desempenho da sua actividade comercial, fruto da subida da Margem Financeira, mas também por via da dinâmica comercial verificada ao nível do Crédito, dos Recursos e, sim, também do aumento da carteira de clientes. Resultados estes que são o produto de um empenho forte da nossa rede comercial e muito importantes para a solidez da Instituição e para o reforço dos seus capitais.

Em que sectores cresceu mais o investimento?
No que respeita a investimento, ao longo de 2022 tivemos oportunidade de apoiar projectos em diversos sectores de actividade, de entre os quais continuam a sobressair o turismo, a agropecuária e a agroindústria, mais recentemente também a construção civil e, claro, o sector público empresarial da Região.

O ano de 2023 é tido como o ano de incertezas. Como analisa a situação sócio económica da Região e que medidas tem o novobanco dos Açores para fazer face às necessidades e às dificuldades das famílias para cumprirem as suas obrigações bancárias, sobretudo com o aumento das taxas de juro do crédito à habitação assim como dos spreads alocados aos respectivos contratos?
A economia açoriana faz, como habitualmente, eco da dinâmica da economia nacional e europeia, ainda que os seus efeitos sejam, muitas vezes, sentidos mais tardiamente e com algumas especificidades.
O novobanco dos Açores tem procurado, afincadamente, disponibilizar todo o apoio aos clientes para minimizar os impactos do aumento da inflação e das taxas de juro, que nos últimos tempos têm vindo a desafiar a gestão financeira das famílias açorianas. Estamos totalmente disponíveis para tentar encontrar a melhor solução possível e adequada a cada caso, através da revisão e eventual ajustamento das condições em vigor, sempre que se comprovem dificuldades financeiras. Para o efeito, respondemos aos pedidos que os clientes nos dirigem, mas também temos procurado ser pró-activos em contactos por nossa iniciativa.
E, como também importa olhar para dentro de casa, o novobanco dos Açores implementou, no final de 2022, alterações que impactam directamente na vida dos nossos colaboradores e, consequentemente, no seu agregado familiar, disponibilizando, por exemplo, para além de um apoio monetário excepcional, a possibilidade de extensão dos prazos do crédito habitação. Foi, ainda, decidido fixar o salário mínimo bruto mensal em vigor na nossa Instituição em 1.100€, não existindo, actualmente, nenhum colaborador do novo banco dos Açores a receber abaixo deste limiar.
 O novobanco dos Açores disponibilizou-se para ajudar os clientes em dificuldade. Essa disponibilidade estende-se ao sector empresarial e de que forma?
Felizmente, e até agora, não temos sentido, nem ao nível dos clientes particulares, nem ao nível das empresas, constrangimentos de maior, associados directamente ao agravamento do contexto financeiro. Mas claro que também as empresas têm sido alvo da nossa preocupação, sendo que os nossos gestores de empresas trabalham em grande proximidade com os nossos clientes, acompanhando-os nas suas necessidades permanentes, e procurando identificar as melhores soluções, quer através de produtos específicos, como a Linha de Crédito Sustentabilidade, que financia, entre outros, investimentos que têm em vista a transição energética, permitindo importantes desagravamentos de custos, quer através de apoios públicos que vão sendo disponibilizados.
Por exemplo, muito recentemente, iniciámos a comercialização de um instrumento nacional, a Linha de Apoio ao Aumento dos Custos de Produção, que tem como objectivo apoiar as empresas especialmente afectadas pelo aumento acentuado dos custos energéticos e das matérias-primas, bem como pelas perturbações nas cadeias de abastecimento.

O atraso na disponibilização das verbas do Programa Operacional 2030 tem levado o Governo dos Açores a disponibilizar o pagamento dos encargos financeiros do financiamento das escolas profissionais dos Açores até 25 milhões de euros. O novobanco dos Açores é parceiro nesta operação?
Sim, o novobanco dos Açores percebeu bem a natureza dos constrangimentos associados à mudança do Quadro Comunitário de Apoio que suporta grande parte da actividade das escolas profissionais da Região e disponibilizou-se para cooperar com as escolas e com o Governo Regional, no sentido de se encontrarem soluções para responder às necessidades que este período dita. Disponibilidade esta que temos procurado manter e consubstanciar através de uma postura colaborativa também em outras situações, com foco em soluções que, conjuntamente com o Governo Regional, possam responder a oportunidades de impulsionar o desenvolvimento económico da nossa Região.

Como perspectiva a evolução da economia açoriana em 2023?
No actual contexto, o exercício prospectivo torna-se especialmente desafiante. Para os Açores, talvez mais ainda. Não obstante as sombras que pairam sobre esta temática, importa não desvalorizar o facto de muitas previsões continuarem a referir para Portugal crescimento económico positivo em 2023 e superior à média europeia. Muitas vezes, confunde-se desaceleração de crescimento com decréscimo. São substancialmente diferentes e isso pode fazer toda a diferença.
Para a Região, e do lado das empresas, ainda que com a mudança de Quadro Comunitário de Apoio possa existir alguma hesitação no arranque de alguns projectos, também é verdade que existem muitos investidores com planos de investimento bem definidos e prontos para arrancar assim que sentirem ter condições para tal. Muitos deles virados para os mercados externos, como é o caso do sector turístico e do imobiliário.
Relativamente à componente das famílias, se por um lado temos o crescimento das prestações dos créditos habitação e a inflação a pressionar o seu rendimento disponível, temos também, felizmente, uma taxa de desemprego reduzida, com muitas oportunidades de emprego. Sejamos capazes de reconverter e qualificar!
Será a preponderância e a dinâmica de todos estes factores juntos que ditará a nossa capacidade de crescer. Estamos totalmente empenhados em contribuir para essa mesma capacidade.
Que impactos poderá ter esta evolução na acção do novobanco dos Açores?
Neste contexto de incerteza, estamos focados em fazer o melhor na conjuntura que se tornar realidade de cada momento. Ou seja, mantendo uma análise permanente sobre o contexto global, por nós não controlável, ter a capacidade de rápido ajustamento interno de todas as variáveis que controlamos.

Enquanto economista e como ex-governante, acha que é possível o Governo dos Açores manter um Orçamento de endividamento zero para 2023 face à conjuntura que temos pela frente?
O princípio de um Orçamento que procure conter o endividamento será sempre um princípio salutar, uma vez que procurará não onerar as gerações futuras com compromissos dos tempos presentes. Todavia, este princípio só será válido caso não se comprometam as oportunidades de investimento no desenvolvimento dos Açores, que têm de ser, obrigatoriamente, perseguidas, bem como as responsabilidades de carácter social, que nunca devem ser postas em causa.
Aqui, não podemos também deixar de olhar para a importante, e premente, necessidade de revisão da Lei das Finanças Regionais, onde fiquem claramente assentes as responsabilidades de financiamento do Estado, nomeadamente as relativas a áreas tão importantes como a saúde e a educação, essenciais para qualquer sociedade, e que representam, como é sabido, pesos consideráveis no Orçamento Regional. Que não haja qualquer dúvida, nem hesitações quanto ao facto dos Açores engrandecerem o país pela extensão e diversidade que conferem ao mesmo, mas que tal também acarreta custos, cujo cumprimento não pode ser menorizado, nem adiado.

  Que mensagem pode deixar aos clientes do novobanco dos Açores para ajudar a amortecer a inflação e o aumento desmesurado dos custos de produção e dos preços dos bens de primeira necessidade?
A inflação é, de facto, um imposto silencioso, mas que, neste momento,  grita no orçamento de famílias mais carenciadas, podendo comprometer o poder de compra de bens de primeira necessidade. As agressivas medidas de política monetária tomadas relativamente às taxas de referência por parte do Banco Central Europeu têm como grande propósito o seu controlo, esperando-se que, ao longo deste ano, surtam efeito significativo. Até lá, enquanto consumidores, impõe-se uma gestão especialmente rigorosa das nossas opções de compra.
Neste contexto, e como temos vindo a referir, os colaboradores do novobanco dos Açores estão totalmente disponíveis para tentar ajudar os nossos clientes, analisando, caso a caso, a melhor solução possível.   

 Num contexto de uma economia cada vez mais universal, que papel vê para um banco regional, como o novobanco dos Açores, no futuro da economia açoriana?
Nos últimos anos aprendemos todos que cada vez mais é difícil fazer previsões. As expectativas criadas são muitas e, tantas vezes, são, essencialmente, elas que condicionam os desempenhos futuros. Mas, sobre esta matéria, bem cientes da história que nos trouxe aos dias de hoje, estamos convictos, e empenhados, em sermos capazes de continuar a ter um papel distintivo de entre a banca que actua na Região, servindo os interesses de um desenvolvimento integrado e responsável da comunidade onde estamos inseridos, com enfoque nos nossos colaboradores, com os quais temos responsabilidades acrescidas, e que são o centro da nossa atividade.
Para o efeito, temos vários projectos a decorrer… alguns deles com faces muito visíveis que irão sendo partilhadas ao longo deste ano.
                                                 

João Paz

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Autor: CA

Categorias: Regional

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