Joana Micael, doutorada em Biologia

Bióloga açoriana está na Islândia a estudar as espécies marinhas invasoras

Correio dos Açores - Pode fazer uma breve descrição dos seus percursos académico e profissional?  
Joana Micael (Bióloga) - Licenciei-me em Biologia, com especialização em Biologia Marinha, na Universidade dos Açores e tirei o mestrado em Ciências Marinhas - Recursos marinhos, com especialização em Ecologia Marinha na Universidade do Porto. O doutoramento em Ciências do Mar, na Universidade dos Açores, centrou-se em estudos sobre equinodermes costeiros. Este grupo de invertebrados inclui espécies carismáticas consideradas símbolo da vida marinha. No entanto, a sua utilização como recurso marinho, tanto no âmbito das pescas como em aquariofilia, para souvenir ou extracção de produtos biomédicos, colocaram algumas destas espécies sob ameaça, havendo uma clara necessidade de desenvolver uma estratégia global de conservação.
A nível profissional, o tema central do meu trabalho tem sido questionar como as espécies marinhas se adaptam ao seu ambiente. A minha investigação concentra-se na caracterização e gestão da biodiversidade, tendo um foco inicial nas consequências fisiológicas da exposição directa de invertebrados na poluição marinha. Uma extensão natural do trabalho foi dirigida para a genética molecular, uma vez que diversos processos evolutivos podem ser responsáveis pela geração e manutenção da biodiversidade. Enquanto novas espécies estão ainda a ser formalmente descritas, espécies nativas enfrentam uma ameaça crescente por destruição de habitat e competição com espécies introduzidas. Actualmente, tenho focado a minha investigação na tentativa de compreender os efeitos directos e indirectos das actividades antropogénicas nas espécies e habitats marinhos.

Por que motivo decidiu sair dos Açores?
Saí dos Açores à procura de novos desafios, associados a melhores condições de trabalho.

Como foi a sua passagem pelo Chile e que trabalho desenvolveu lá?
Foi bastante interessante. Sem dúvida, foi uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional. Durante quatro anos dediquei-me à identificação de invertebrados intertidais de fundos móveis que constituem a fonte de energia para as aves migradoras de longa distância, e que estabelecem a ligação da biodiversidade entre áreas distantes. Apesar de o trabalho incidir na ilha de Chiloé, no âmbito de outros projectos, tive a possibilidade de viajar de norte a sul do Chile, desde o deserto, passando pelas verdejantes regiões da Araucanía e de Los Lagos, até ao sul da Patagónia, onde o gelo e a neve moldam a paisagem.

De momento, encontra-se na Islândia a estudar as espécies marinhas invasoras que já se instalaram em, praticamente, todos os portos do país. Já chegou a alguma conclusão pertinente de referir?  
As principais funções do Centro de Investigação da Natureza do Sudoeste da Islândia são desenvolver investigação com foco na natureza, recolher dados e referências sobre a história natural da Islândia e promover o uso sustentável da terra, conservação da natureza e educação ambiental. O Centro está envolvido em vários projectos, mas o foco principal é a biologia e ecologia marinha.
Desde que comecei a trabalhar no Centro, fazemos a monitorização das espécies presentes nos principais portos da Islândia, tendo vindo a ser reportada a chegada e o estabelecimento de novas espécies. Estas espécies não são novas para a ciência, bem pelo contrário, são espécies que têm sido reportadas não só no Oceano Atlântico temperado, mas também no Noroeste do Pacífico e na Australásia temperada, revelando o emergir de uma homogeneização global da biodiversidade em áreas costeiras antropizadas. Os nossos estudos têm evidenciado a adaptação de espécies de zonas temperadas às actuais condições do subártico.
O que distingue o ambiente da Islândia dos demais ecossistemas?  
Por ser uma ilha remota de origem vulcânica, existem semelhanças entre o ambiente marinho costeiro da Islândia e o arquipélago dos Açores, nomeadamente em relação ao isolamento demográfico das populações e à simplicidade das cadeias tróficas.
Contudo, a temperatura da água é bastante distinta, geralmente apresentando uma temperatura que varia entre os 2 e os 11 °C, o que determina o tipo de espécies que proliferam na região.
Por outro lado, enquanto o Sul e o Oeste da Islândia são influenciados, à semelhança dos Açores, pela corrente Norte-Atlântica, o Norte e o Este são influenciados por águas polares.  

O trabalho que desenvolve seria útil nos Açores?  
O trabalho de investigação sobre a biodiversidade é muito importante para qualquer região. Fala-se muito em exploração de recursos marinhos e de como a economia de uma região pode desenvolver-se com base nos recursos, mas é preciso fazê-lo de forma sustentável, e para tal é preciso conhecer, investigar, tentando perceber como funciona.

Como descreveria a experiência de adaptar-se a um país novo?
Sinto que a adaptação a um novo país foi bastante natural. Embora o funcionamento do país, a estrutura social, as regras sociais sejam bastante distintas, são países muito amigáveis, de muito fácil trato entre as pessoas. O dia-a-dia é muito diferente, mas nem por isso menos interessante, tanto num lado como no outro.

Gostaria de voltar a trabalhar nos Açores um dia?  
Neste momento, penso em continuar pela Islândia. Sinto que tenho ainda muito a apreender e com que posso contribuir, o que não que não exclui a ideia de, mais tarde, voltar aos Açores.

Quais são os planos para o futuro?
Nos próximos anos pretendo dar continuidade à investigação que desenvolvo. A Universidade dos Açores estabeleceu recentemente um protocolo com a UNESCO (UNESCO CHAIR - Land within sea: Biodiversity & Sustainability in Atlantic Islands), que consiste no estabelecimento de uma network temática relativa ao estudo da biodiversidade em ilhas do Atlântico. O Centro de Investigação da Natureza do Sudoeste da Islândia faz parte desta parceria e a ideia é reforçar o intercâmbio de ideias, projectos e alunos entre as duas instituições.
                                 

Carlota Pimentel

 

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker