Luísa Cavalleri, psicóloga e mentora em Saúde Mental

“Noto que a auto-estima das pessoas dos Açores está um pouco mais fragilizada do que as de Portugal continental”

Correio dos Açores - O que a trouxe a São Miguel?
Luísa Cavalleri (Psicóloga e mentora em Saúde Mental) - Eu morava nos arredores de Lisboa e já há muito tempo que procurava um local mais calmo, com uma boa vida comunitária e que estivesse perto da natureza. Procurava mudar-me para um local com estas características. Fui viajando por Portugal até que, um ano, vim de férias a São Miguel e decidi escolher a ilha para viver. No fundo, foi um encontro. Quando vim a São Miguel pela primeira vez senti-me bem, além de que tem precisamente as características que eu procurava, nomeadamente ligação à natureza, boa vida comunitária, boa vida cultural e movimento. Ponta Delgada é uma cidade com movimento mas não tem demasiado stress, violência ou poluição. Sinto que São Miguel está alinhado com o meu ritmo.

Qual é a sua área de formação e como o coaching em Saúde Mental entrou na sua vida?      
Formei-me em Psicologia Clínica, em 2007, pela Universidade de Lisboa e adoro a área cognitivo comportamental, que está muito relacionada com o autoconhecimento, de a pessoa conhecer os seus comportamentos, pensamentos e sentimentos. Em Psicologia Clínica existem outras abordagens, cada uma com a sua especialidade, e eu gosto muito desta por ser uma abordagem muito pragmática, de a pessoa olhar para o seu presente e para o seu futuro, tomar decisões, ver os seus padrões do passado e ter poder na sua mudança.
Mais recentemente, em 2019, conheci o coaching, uma abordagem que me deu inúmeras ferramentas, muito práticas, que permitem as pessoas a tomarem consciência e implementarem mudanças de uma forma mais simples e gráfica. O coaching tem muitos esquemas e imagens, e vem com uma linguagem menos clínica e mais ligada ao dia-a-dia, aos hábitos e comportamentos.
Decidi aliar as duas vertentes e criei esta metodologia que junta o coaching, com Psicologia Clínica e Ayurveda (medicina tradicional indiana), uma área em que também me formei.
As minhas sessões presenciais, para além de terem uma parte de conversa, têm também uma massagem terapêutica, em que a pessoa, através dos óleos medicados com plantas, vai receber os benefícios dessas plantas e da massagem, o que vai promover o relaxamento, a harmonia no funcionamento fisiológico e, consequentemente, beneficiar a saúde mental. No fundo, utilizo estas três abordagens integradas.
Faço sessões online e tenho também sessões presenciais, em Lisboa, onde me desloco uma vez por mês e, nessa altura, agendo as várias sessões. Em São Miguel, durante algum tempo, fiz as sessões presenciais num espaço em minha casa e agora estou a preparar-me para abrir um espaço, a partir de Janeiro, em Ponta Delgada.

Quando percebeu que era este o seu caminho?
O que me fascina é o comportamento humano e a forma como as pessoas pensam. Desde criança que me lembro, quando as pessoas tinham uma reacção estranha, de pensar e questionar-me por que motivo tinham feito aquilo. Tentava mesmo compreender o outro e quanto mais estranho fosse o comportamento, mais me questionava sobre isso. Nunca me assustou muito lidar com pessoas diferentes da norma. Creio que essa foi uma facilidade de entrar no mundo da psicologia.
Recordo-me também de ter cerca de 12 anos e de estar a estudar com a minha irmã, que estava a estudar para a disciplina de Psicologia no secundário. Quando estudávamos, tínhamos o hábito de falar alto, a dar palestras uma à outra, para nos prepararmos para o teste. Ela estava a estudar Psicologia e quando falava naquele assunto eu ficava fascinada. (...) Lembro-me de, ao ouvir, ser logo um assunto que me gerava muita curiosidade e interesse.
Além disso, em criança, a minha família brincava comigo e dizia-me que eu era a defensora dos oprimidos. Embora muito pequena, tinha um discurso em casa muito fervoroso quando havia alguma vítima ou situação de alguém em desigualdade de poder. Esse sempre foi um assunto em que eu tinha muita rapidez em intervir e ainda hoje em dia sou assim.

Da sua experiência, o que mais tem contribuído para a depressão?
O stress tem sido um grande factor, bem como a sobrecarga mental de pressão social, de hiperestimulação, de as pessoas terem o designado Fear of Missing Out (FOMO). Muitas pessoas que eu acompanho são muito produtivas e empáticas, são pessoas que estão muito disponíveis para a família, que têm altos desempenhos e, mesmo assim, continuam a sentir-se aquém das suas próprias expectativas. Sentem-se esgotadas e, por vezes, até vêm com a queixa de que não se conseguem divertir ou sentir a mesma satisfação pela vida que sentiam antes. Na maior parte dos casos, vejo uma sobrecarga enorme de as pessoas não tirarem tempo para descansar ou para terem momentos de lazer e convívio. Essa situação, com o passar do tempo, vai gerando doenças como a depressão, a ansiedade ou o burnout, e pode transformar-se em doença. (...)
No que diz respeito à questão profissional, vivemos actualmente numa fase de grandes mudanças laborais e sociais. Muitas das pessoas que eu acompanho estão descontentes com a sua situação profissional e este é um grande factor de perigo para a saúde mental. A questão laboral tem sido um factor muito comum que tenho encontrado.

Quais são as estratégias para utentes com problemas de saúde mental?
A estratégia de reduzir factores de stress e aumentar factores protectores, em que a pessoa consiga reconectar-se com as suas virtudes e entrar em acção para alcançar os seus sonhos ou fazer o que gosta, é o mecanismo de base do início do trabalho que se faz em coaching terapêutico.
Pelo caminho, vamo-nos deparando com os traumas que a pessoa traz, com alguma gestão emocional que seja preciso aprender a fazer, bem como com alguma crença de si próprio, ou de algum episódio da sua vida, que a pessoa possa ver de outro ângulo que lhe seja mais favorável. Ou seja, que a pessoa saia de uma situação de fragilidade para uma situação de mais força.
Este mecanismo é o mesmo para pessoas que estejam saudáveis. Há pessoas saudáveis que procuram ajuda psicológica ou o coaching terapêutico por uma questão de desenvolvimento pessoal, de superar algum objectivo ou de resolver problemas, desafios, conflitos, mudança de vida, entre outros.
Por outro lado, também acompanho pessoas com um diagnóstico clínico, com doenças crónicas como por exemplo a doença bipolar ou a perturbação obsessivo-compulsiva. Nesses casos, a pessoa também tem os seus sonhos, objectivos e relacionamentos interpessoais. Há doenças que não têm cura e essa expectativa tem de ser clarificada em contexto de sessão, em acompanhamento. Mas é possível que essas pessoas tenham uma boa qualidade de vida, bons relacionamentos, uma vida profissional activa, funcional e de sucesso. (...)

Tem muitos utentes jovens?  
Trabalhei durante muito tempo a coordenar um ATL. Conciliava a psicologia clínica com a parte de trabalhar numa instituição e de fazer acompanhamento aos adultos animadores que acompanhavam as crianças. Fazia, também, programas de inteligência emocional com crianças e jovens. Estou à vontade para trabalhar com todas as idades e adoro fazer actividades intergeracionais.
Actualmente, em contexto clínico, neste atendimento individual, trabalho apenas com adultos pelas características do programa que criei, que assenta em promover o poder pessoal. Por isso, é importante que seja um adulto, que seja responsável e tenha autonomia na implementação das suas mudanças de vida.
A partir dos 18 anos, acompanho pessoas de todas as idades. Tenho tido procura de pessoas relativamente jovens, abaixo dos 30 anos, já mesmo com sintomatologia clínica, com questões de ansiedade, de depressão, com tentativas de suicídio, com níveis de angústia muito grandes na inserção no mercado de trabalho, ou com dificuldades em concluir os seus estudos. A queixa com que chegam é que têm preguiça para continuar, no entanto, quando vamos desconstruir, percebemos que não é preguiça, mas sim medo, não saber como fazer, ou sentirem-se confusos no meio de um sistema que está em mudança e que exige muita pressão.
Tem sido muito bom desconstruir as crenças que as pessoas têm sobre si e ajudar os mais jovens a reduzir estes factores de stress, aumentando a sua força, nomeadamente na relação com as outras pessoas. Neste aspecto, noto uma diferença geracional. Os mais jovens trazem mais vezes a queixa de terem dificuldade em conseguirem relacionar-se com as outras pessoas, de uma forma realmente satisfatória. Queixam-se que têm dificuldade em confiar nas pessoas, vêem-se envolvidos em relacionamentos tóxicos, e de lhes ser bastante difícil serem mais assertivos ao colocar limites e exprimir as suas vontades. (...)

Que queixas são mais recorrentes?
Se falarmos em nomes clínicos, as queixas mais frequentes são a nível de ansiedade, depressão e burnout. No que toca ao que as pessoas trazem como vontade de melhorar, apontaria os seus relacionamentos familiares. Por exemplo, alguém que diz que quer parar de discutir com os filhos e que quer ter uma relação pedagogicamente mais positiva com a família dentro de casa. Noutros casos, pessoas que querem mudar de emprego, ou alguém que vai de férias mas que não consegue desfrutar plenamente do momento e que quer voltar a sentir-se bem.
Em São Miguel, em específico, nas pessoas que tenho vindo a acompanhar, noto que existe um padrão que está muito relacionado com a auto-estima. Fazendo o paralelismo entre as pessoas que acompanho no continente e as pessoas que  acompanho nos Açores, noto que a auto-estima das pessoas aqui está um pouco mais fragilizada. Porém, não posso garantir que seja uma questão geral.
 
A que se deve esta falta de auto-estima dos açorianos?     
Não sei o motivo mas identifico esse sintoma. Vejo muitas pessoas que têm características incríveis, acima da média, e não têm mesmo esta percepção. Tal como uma pessoa que tem um distúrbio alimentar, que olha para o espelho e vê a sua visão distorcida, isto também acontece com a personalidade.
Por exemplo, uma pessoa que se considera preguiçosa mas que, na realidade, não é. Há factos que demonstram que a pessoa tem uma capacidade e disponibilidade enormes, todavia a pessoa continua a ter um grau de exigência e de perfeccionismo para consigo própria que, por vezes, é contraproducente. É bom a pessoa ser exigente consigo até certo ponto, no sentido de promover o seu crescimento e de responder aos desafios. Desenvolver essa resiliência e capacidade de lidar com os problemas é bom para o ser humano. Mas quando a visão de si mesmo é mais negativa, tendencialmente, todos os dias, a satisfação não é tanta como poderia ser e a própria capacidade de implementação também fica afectada.
Utilizo a imagem da vida em movimento, porque quando damos um passo para construir algo que é importante para nós, deparamo-nos com coisas que não correm bem mas também com aquilo que conseguimos resolver.
Estimulo as pessoas a entrarem em movimento, que se proponham a fazer algo de bom para si. Noto que as pessoas que tenho encontrado em São Miguel têm um pouco menos de confiança em si para dar o passo de experimentar algo novo e de arriscar um pouco mais. Têm uma visão de si aquém do que é a realidade.

Que mecanismos de defesa as pessoas devem ter para se esquivarem aos problemas mentais?
Algo que ajuda muito é o que chamamos em Psicologia a Locus de Controlo Interno. É natural que haja factores do ambiente que influenciam o nosso bem-estar e é importante que nós saibamos proteger deles, escolhendo os ambientes onde estamos. Mas, há um trabalho interno de posicionamento perante a realidade e é muito este o trabalho que faço nos meus acompanhamentos. Perante a situação, a pessoa pode escolher como se posicionar, como se comportar, como decidir em relação à situação, o que alterar, que novas abordagens tentar e, eventualmente, escolher mudar para poder promover a sua saúde.
Se alguma situação está a comprometer o bem-estar e a saúde da pessoa, é um preço demasiado caro a pagar. Não quer dizer que a pessoa deva desistir à primeira, mas se há um trabalho, relacionamento, ou qualquer outra situação que está a ser prejudicial a tal ponto, que a pessoa já tentou várias abordagens e mobilizou ajuda e continua a ser nocivo, é importante a pessoa ponderar mudar, não no sentido de fuga mas de uma mudança estratégica para garantir a sua saúde.          
Por vezes, o locus de controlo interno não é fácil fazer, porque as pessoas têm a percepção de que não têm qualquer influência sobre o que lhes acontece. Esta situação deixa as pessoas desamparadas, sem saberem o que podem fazer e à mercê de situações desfavoráveis. Quando têm a percepção de que podem fazer algo, nem que seja um pequeno passo todos os dias, o jogo vira e a sua saúde começa a aumentar. O factor de saber que pode mudar o seu futuro é um factor chave.

Toma-se cada vez mais antidepressivos e ansiolíticos para resolver esse tipo de problemas. Este é o caminho certo ou deve ser o último recurso?   
Há situações em que é muito importante tomar medicação. Tal como outro órgão do corpo, o cérebro tem um funcionamento fisiológico e também adoece. Há um desequilíbrio químico e fisiológico que é preciso regular através da medicação. Para isso, temos os psiquiatras que fazem esse acompanhamento. De toda a forma, e a comunidade científica assim o recomenda, é muito importante que a pessoa faça também um acompanhamento psicológico para alterar os factores que possam ter provocado esta doença.
 Mesmo que seja uma doença orgânica que surgiu, pois há doenças que são desencadeadas por factores genéticos, convém ter um acompanhamento psicológico, para que a pessoa ganhe qualidade de vida, conheça a sua condição e consiga saber lidar com ela da melhor forma. As duas abordagens devem ser sempre tratadas em conjunto, uma vez que a medicação vai regular a parte fisiológica mas não vai tratar o trauma nem fazer com que a pessoa ganhe uma nova perspectiva da sua vida.

Carlota Pimental/João Paz

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Autor: CA

Categorias: Regional

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