Anunciação Ventura, docente da UAc, no Dia Mundial do Turismo

“Se queremos manter o selo de ‘destino de turismo sustentável’ há que trabalhar para avaliar a capacidade de carga turística”

Correio dos Açores - Que relevância atribui ao Dia Mundial do Turismo?
Anunciação Ventura (Professora da Universidade dos Açores) - O Dia Mundial do Turismo é, como qualquer outro dia mundial, uma data que assinala algo considerado de elevado valor para os seres humanos ou de elevado valor intrínseco. Neste caso, o valor que se lhe atribui é essencialmente um valor económico, mas também de saúde e bem-estar.

Como descreve o turismo de natureza nos Açores?  E como analisa a forma como tem crescido?
O turismo de natureza é, talvez, aquele que mais se associa à recuperação de energias, alívio do stress, e ao bem-estar físico e psíquico. Existem inúmeros estudos que comprovam a necessidade que o ser humano tem de se conectar com a natureza, para aliviar os níveis de stress e adquirir paz de espírito, e a razão é simples: somos parte integrante dessa natureza. Os Açores, graças à existência de paisagens deslumbrantes e muitas zonas verdes, tornaram-se um símbolo no que respeita à possibilidade de praticar este tipo de turismo. Mas cuidado com a interpretação de “zona verde”, pois as pastagens são verdes, mas monótonas e não naturais, ainda que possam ter o seu valor paisagístico. No entanto, é o enquadramento e diversidade das paisagens naturais com árvores, cascatas e lagoas, que atrai quem nos visita. Por isso, é preciso ter atenção quando se fala do “verde” como elemento de atracção turística.
As razões anteriormente expostas, combinadas com intensas campanhas de divulgação dos Açores nos mercados nacional e internacional, resultaram numa procura alargada da Região como destino de férias, não só para relaxar, mas também para praticar inúmeras actividades ecoturísticas de aventura, como parapente, canyoning, mergulho, entre outras. O topo da procura reside na observação de cetáceos, dado que nos Açores é possível observar não só espécies residentes, mas também inúmeras espécies migratórias. Portanto, basta analisar os dados do Serviço Regional de Estatística dos Açores para nos apercebermos que a entrada de turistas no arquipélago tem registado uma subida significativa, estando já em valores superiores aos registados antes da pandemia. Assim, se queremos manter o selo de “destino de turismo sustentável”, há que trabalhar para avaliar capacidade de carga turística, pois o número de chegadas ao arquipélago, por ilha, não pode aumentar indefinidamente.

De que forma o turismo de natureza tem impacto no meio ambiente nos Açores?
Antes de falar no meio ambiente, gostaria de abordar a questão humana. Em conversa com um operador turístico, este manifestou a sua frustração pelo facto de, tendo tantos turistas para transportar para visitas e passeios, não conseguir agora, com estes elevados níveis de afluência, estabelecer conexões mais aprofundadas com esses turistas, que lhe permitam torná-los em ‘clientes frequentes’, até porque este boom de turistas não irá durar para sempre. Depois, conversando com habitantes locais, estes manifestaram a sua tristeza por já não poderem usufruir dos seus locais de eleição como faziam antes, dada a enorme afluência de turistas, como por exemplo Caldeira Velha, poças da Dona Beija, Lagoa do Fogo, entre outros locais icónicos.
Para além destes impactes societais, os impactes humanos existem na proporção da intensidade de utilização turística, pois qualquer utilização intensiva de um determinado local tem consequências na sua qualidade de fruição, e o mesmo se aplica à visitação de locais naturais. Nem preciso de mencionar os inúmeros estudos científicos, realizados em locais com grande afluência turística, que abordam esta matéria, e por cá também já se começa a notar a degradação paisagística de alguns locais (por exemplo, a abertura de trilhos secundários, a erosão dos solos, a introdução de espécies exóticas). Para além disso, há também que reflectir sobre o nível de adequabilidade dimensional e eficácia de infra-estruturas, para tratamento de resíduos e águas residuais, considerando o considerável aumento da população proveniente do elevado número de visitantes que tem que servir, para além da população residente.

Quais são os principais desafios enfrentados pelo turismo de natureza nos Açores? Existem preocupações relacionadas com o excesso de turismo em áreas sensíveis?
Eu diria que é manter uma qualidade da oferta que passa, necessariamente, por manter a qualidade, equilíbrio e resiliência dessa natureza. Para isso, são necessários mais estudos, e é preciso também diversificar a oferta criando pequenos nichos de mercado, sempre apostando em pequenos grupos e no envolvimento das comunidades locais, pois são esses os princípios básicos do ecoturismo. As áreas sensíveis são obviamente áreas que suscitam maiores preocupações, pois em geral são áreas com grande riqueza de biodiversidade, e sendo os Açores um hotspot de biodiversidade, há que dar especial atenção a estas áreas, proibindo o acesso ou limitando-o a pequenos grupos, sempre acompanhados de um guia credenciado. Abriu este ano na Universidade dos Açores a primeira pós-graduação em “ecoturismo e guias de natureza”, que poderá dar uma grande ajuda na formação de pessoal qualificado para este fim. De salientar que temos alunos locais, mas também nacionais e internacionais, o que demonstra bem a atenção dada a este segmento turístico.

Como o turismo de natureza contribui para a economia local nos Açores?
Sendo a natureza o principal atractivo da Região, e tendo o número de turistas crescido de tal forma que foi necessário aumentar o sector dos serviços, como por exemplo a restauração, a criação de novos empregos, como os operadores turísticos que actuam em áreas tão diversas, desde os trilhos pedestres à observação de cetáceos, bem como a dinamização de todas as actividades económicas conexas, são dados que falam por si.

Qual a sua opinião sobre a forma como a Região regula e gere o turismo de natureza para garantir uma experiência sustentável?
Quando foram criados os parques de ilha, a ideia era facilitar a gestão das várias tipologias de áreas protegidas existentes na Região. Mas a gestão destas áreas e da sua utilização está dividida entre duas secretarias, a do Ambiente e do Turismo, conforme a vertente de abordagem, dificultando a optimização do modelo de gestão. Portanto, torna-se um pouco complicado falar numa gestão da experiência “turismo de natureza”, a qual tem também uma componente económica envolvida. Terá de haver um compromisso sério dos vários sectores envolvidos, incluindo o sector privado e administrações municipais, para que a bandeira turística da natureza possa continuar a ser atractiva e funcione como promotor de riqueza. Se tal não for feito com alguma urgência, o principal produto turístico da Região poderá não persistir.

De que modo os visitantes podem praticar o turismo de natureza de forma responsável e ética nos Açores?
Cumprindo todos os códigos de ética/conduta já existentes para várias das actividades que se podem praticar na Região, observando os avisos plasmados nos painéis que sinalizam o início dos trilhos e tendo em atenção as recomendações dos guias de boas práticas existentes. Da nossa parte, já participámos activamente na criação de dois desses manuais. No entanto, todos os estudos realizados sobre o perfil do turista que visita o arquipélago apontam para pessoas maioritariamente com níveis elevados de educação, o que pressupõe à partida que se saibam comportar em contacto com a natureza, por forma a minimizar os seus impactes.

Que tipos de actividades de turismo de natureza são mais populares nos Açores? Há tendências emergentes?
A mais popular de todas é, sem dúvida, o whale watching (observação de cetáceos), seguida de perto pelo mergulho recreativo e a realização de trilhos. Como tendências emergentes podemos apontar turismo de aventura como o canyoning e o costeering, mas também o mergulho e o snorkeling (mergulho livre em apneia) têm ainda alguma possibilidade de crescer, criando mais nichos de observação, como é o caso da observação de grandes pelágicos que se realiza na ilha de Santa Maria.

Como se devia integrar as iniciativas de educação ambiental no turismo de natureza nos Açores? Qual é o papel da consciencialização ambiental?
A educação e consciencialização ambiental começam, desde logo, nas escolas e em casa, onde os pais têm um papel fundamental na educação dos seus filhos. A propósito deste aspecto, arrancou este ano um projecto que visa avaliar a literacia ambiental dos estudantes que chegam ao ensino superior, no qual a Universidade dos Açores é parceira. Daqui a um ano, já terei mais alguns dados sobre este indicador nos nossos estudantes. Para além disso, se as escolas organizarem saídas com os seus estudantes em actividades de ecoturismo, poderão não só ensinar-lhes muito sobre a biodiversidade e geodiversidade da sua Região, mas também consciencializá-los para a importância de manter este património e estes locais limpos e resguardados da recolha abusiva de qualquer tipo de elemento natural, ou de qualquer outro comportamento inaceitável no contacto com a natureza.

Como vê o futuro do turismo de natureza nos Açores? Que cuidados se deve ter hoje para não hipotecar o futuro?
O futuro do turismo de natureza nos Açores pode ser risonho desde que actuemos hoje para garanti-lo. Estudos de capacidade de carga turística, de avaliação de impactes ambientais, de planeamento turístico, entre outros, são necessários, por forma a tomar decisões informadas e fundamentadas em bases científicas.

Que mensagem quer deixar neste dia?
Que este dia seja vivido de forma holística e com uma profícua troca de experiências entre sectores turísticos, e as diversas disciplinas ligadas à investigação nesta área, para que no final a experiência turística possa ser agradável e duradoura.

Carlota Pimentel

 

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

x