João Miranda, Director do Colégio do Castanheiro, no Dia do Professor

“… É o próprio Estado que contraria aquele que é o reconhecimento social do professor” nos Açores

Como é que foi o seu percurso até chegar ao Colégio do Castanheiro?
João Miranda (Director do Colégio do Castanheiro) – É um longo percurso. Comecei a leccionar enquanto tirava a licenciatura de Matemática de Ensino. Tal como muitos professores, percorri muitas escolas da nossa ilha. Após a licenciatura, fui convidado para leccionar na Universidade onde estive muitos anos como assistente convidado. Por fim, acabei por vir aqui para o Colégio do Castanheiro leccionar e ser Director.

Quais são as principais diferenças que encontra entre o Ensino de hoje e de quando começou a leccionar?
JM – São muitas diferenças. Se antigamente os desafios eram grandes, também havia por parte da população um reconhecimento social da profissão e do estatuto de professor. Esse reconhecimento foi-se perdendo.
Há grandes diferenças porque os professores têm um conjunto diversificado de competências, que adquirem durante a sua formação académica que não são suficientes mas têm que ser sólidas (pedagógicas e cientificas). Vejamos algumas das diferenças: hoje em dia, o professor tem que lidar com uma geração Z, que é da era da digitalização, dos telemóveis e dos tablets e lidar com os problemas que surgem associados ao uso da tecnologia. Têm que ensinar através de tablets e painéis interactivos, têm de gerir aprendizagens que não são as mesmas, visto que os alunos, hoje em dia, têm acesso a muita informação através dos dispositivos mencionados.
Também têm que lidar com a neurodiversidade, porque se antigamente era uma realidade, hoje existem meios de diagnóstico e sabemos, por exemplo, se um determinado aluno é autista e outro é asperger e saber lidar com essa diversidade, tem que ter competências para saber lidar com ele.
A questão da interculturalidade é cada vez mais presente numa sala de aula. Cada vez mais estão presentes alunos estrangeiros que vão ter para além de uma língua diferente, hábitos diferentes.
Saber lidar com a questão do complemento da família. Hoje em dia muitas famílias socorrem-se da escola e esta substitui a família, quando não deveria de ser isto. Deveria ser uma articulação e um complemento.
Questões como o bullying, que já existia noutros tempos, mas agora existe o cyber-bullying, que já é outro meio sofisticado de lidar.
O professor tem que promover as competências sociais dos alunos, tem que promover o exercício da cidadania e ainda lida com muitos processos burocráticos.
Durante a pandemia viu-se a resposta que os professores deram. Nunca abandonaram as famílias e os alunos, sendo que em muitos casos tiveram que adquirir equipamentos para tal. Os professores também foram heróis nessa altura.
Com estas competências todas é muito diferente de quando comecei a leccionar. Temos mais meios e mais recursos, mas também temos que ter uma diversidade de competências para as múltiplas respostas.
Acha que a tecnologia tem vindo a apoiar a evolução da Educação?
JM – Qualquer recurso no ensino tem que ser ponderado e leva o seu tempo de maturidade. Lembro as calculadoras que foram introduzidas no ensino, mas não foi bem introduzida por todos os professores. Aquele que seria um meio eficaz para se fazer investigação passou a ser um meio redutor visto que passou a substituir o cálculo mental e a destreza de cálculo.
O mesmo se passa com estas tecnologias. Existem inúmeras tecnologias que servem bem o ensino só que a formação, que é um campo muito importante para os professores, não tem sido sólida. O professor é confrontado com a necessidade de usar uma tecnologia sem ter formação.
Quando se introduz qualquer coisa em sala de aula tem que haver um trabalho cooperativo, formação e, ao mesmo tempo, tem que ser um trabalho faseado. Sou defensor que a tecnologia é irreversível, estamos numa fase muito importante disso, e deveria de haver mais formação, mais informação e gradualmente nós fazermos essa digitalização.

Na sua opinião, acha que o professor tem vindo a perder poder na sala de aula?
JM – Ainda bem que tocou neste aspecto. Acho que há dois aspectos. A primeira questão é que, depois do que eu disse que são as competências que os professores hoje têm, é o próprio Estado que contraria, e era o dever dele não contrariar, aquele que é o reconhecimento social do professor.
Quando o Estado, de uma forma que se pensou que era útil para a nação, congela as carreiras dos professores e as questões salariais e esse descongelamento não está a ser feito. Quando é o próprio Estado que, muitas vezes, não incentiva o professor e cria muita instabilidade. Eu estou há quase 40 anos no ensino e continuam professores a andar de escola em escola. Isso não deveria de ser possível tantos anos depois.
Depois, é o reconhecimento social que antigamente existia e agora não. A autoridade do professor, como é um gestor de conflitos, não havendo esse reconhecimento e essa motivação torna-se depois mais difícil em sala de aula. Dou-lhe um exemplo muito simples do que eu acho que é o reconhecimento: se houver um médico cirurgião que falte a uma operação, eu não me sinto capaz de o substituir, mas o contrário já se aplica. Chegar aqui um médico e substituir um professor. E nós sabemos que não é bem assim. Um professor tem competências pedagógicas e científicas para além da conexão com os alunos, mas a sociedade pensa que ‘qualquer um’ pode dar aulas. Não pode ser qualquer pessoa e o próprio Estado promove um pouco isso.
Neste momento, estamos a formar professores e, se calhar, a formação não está a ser a mais sólida. Em boa verdade, o Governo Regional fez uma alteração positiva: o aluno passa a estágio e tem um estágio reconhecido, uma das coisas pelas quais eu sempre lutei, remunerado e com estatuto na escola. Mas há muito mais a fazer.

Asha que a falta de reconhecimento contribui para a falta de professores que se verifica todos os anos?
JM – Isso era o que acontecia quando eu comecei a dar aulas. Eu próprio comecei a dar aulas sem ter habilitação própria porque havia uma necessidade de professores. Para mim, era impensável que 30 e tal anos depois isto voltasse a acontecer. A nossa Universidade teve um papel preponderante na formação dos professores. Tínhamos cursos de ensino que eram dos melhores e fecharam-se cursos de ensino, quando não se deviam de ter fechado mas sim reduzido o número de entradas. Neste momento, não temos professores e formar professores leva o seu tempo. Estamos a recorrer ao que era antes, não temos professores com habilitação então, vamos buscar outros e não há uma filtragem. Isto faz com que se descredibilize a profissão.
Outro facto é que muitos alunos não foram para o ensino por falta de motivação. Se ouvem que não há estabilidade e que há congelamento salarial não podem ter motivação para irem para o ensino. Penso que este ano já houve uma pequena mudança, houve mais alunos a procurarem o ensino, e tenho esperanças que, no futuro, vamos ter bons professores mas vamos passar um período que não será fácil.
Legislações que são criadas às vezes também absorvem muito tempo dos professores e depois não há professores. Também temos que pensar nos professores que, tal como eu, estão perto da reforma.

A classe dos professores é conhecida por ser uma classe reivindicativa. Acha que as regalias que os professores têm nos Açores não são suficientes?
JM – As reivindicações dos professores têm particularidades que não podemos esquecer. Vou dar um exemplo: o Governo fez, e muito bem, uma tentativa de estabilização de quadros de ilha e quadros docentes mas ao criar essa legislação não permite que um professor do ensino privado ou do ensino profissional esteja em igualdade de circunstâncias no concurso. Isto é de uma injustiça gritante. O professor do ensino profissional que consegue recuperar alunos e os leva a ter saídas profissionais e o professor do ensino particular que também tem um trabalho digno e depois não têm o mesmo reconhecimento. As pessoas, legitimamente, têm que estar descontentes. Depois há outras questões que tem a ver com o estatuto da carreira de docente, com o reconhecimento. Julgo que nos Açores estamos melhor que no Continente, mas no Continente estamos a léguas do que é o reconhecimento do papel do professor, do seu estatuto e da sua compensação salarial.


A sociedade ainda considera a classe dos professores como sendo uma classe privilegiada. Como mudaria esta opinião?
JM – Em primeiro lugar, considero que somos privilegiados só num ponto, que é o de lidar com a formação de jovens e de crianças. Ser professor é uma missão. A nossa missão é esta, isso dignifica-nos e aí somos privilegiados. No resto não somos privilegiados.
Como referi, com esta panóplia de competências e de problemas que temos que gerir diariamente, esta profissão não e fácil. Emocionalmente não é fácil. Há muitas pessoas em que a sua saúde mental de professores não é a melhor precisamente por um conjunto de problemas onde eles não têm uma retaguarda. A forma melhor que eu considero de uma escola e um conjunto de professores ter uma qualidade de ensino e de dia-a-dia é um ensino onde haja sempre diálogo com os pais. Os pais têm que fazer parte da solução. Trazer os pais para a escola não é fácil porque eles também têm as suas carreiras profissionais. Na pandemia isso verificou-se, muitos pais conseguiram ver através das câmaras que os professores têm um papel preponderante. Por exemplo, aqui temos o Espaço Histórias onde convidamos os pais a partilhar uma experiência. Isso tem um impacto muito positivo quer para o aluno, quer para o pai. É um reconhecimento da parte do pai para qual é o papel do professor e da parte dos alunos relativamente ao papel do pai na escola.

Quais são as principais diferenças entre o ensino público e o privado?
JM – As diferenças são as comunidades com que lidamos. Temos os mesmos problemas que as outras escolas, simplesmente somos um ‘mundo’ um pouco diferente. Somos nós que escolhemos a classe docente, que escolhemos o pessoal não docente e a equipa inter-disciplinar. Isto permite-nos ajustar o perfil das pessoas ao nosso modelo.
Já na Escola Pública os professores são escolhidos por concurso, são excelentes professores, mas podem não se reconhecer na instituição.
Para mim, não há maiores diferenças, porque não há autonomia pedagógica. Todas as escolas têm exactamente o mesmo modelo pedagógico, a mesma matriz curricular e são comunidades totalmente distintas. Enquanto isso acontecer, nunca haverá grandes diferenças entre o público e o privado. Existe também no privado uma maior segurança, nós temos um conjunto de requisitos de segurança que muitas escolas não têm porque não conseguem ter.

Que mensagem quer deixar neste dia do Professor?
JM – Estamos todos em mudança, esta mudança será lenta e progressiva. Os professores precisam de estabilidade emocional, salarial e laboratorial. Terá que haver paciência e articulação com os encarregados de educação e com a sociedade. As escolas cada vez estão mais viradas para a sociedade, cada vez mais fazem trabalhos fora do seu meio e queremos que a sociedade nos ajude neste desígnio que é educar. Estabilidade é a palavra de ordem. Porque quando tivermos estabilidade salarial, emocional e laboratorial, tenho a certeza absoluta que vamos dar mais conta do recado.


Frederico Figueiredo

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Autor: CA

Categorias: Regional

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