“O aumento da vinda de turistas nos últimos anos é muito benéfica para o sector agrícola açoriano”

César Pacheco foi Presidente da Junta de Freguesia do Cabouco e saiu para se candidatar à Associação dos Jovens Agricultores Micaelenses, onde é acarinhado pelos seus pares pelo trabalho árduo e persistente que vem desenvolvendo em prol dos jovens agricultores. No seu entender, o sector está cada vez mais especializado, pois produz-se mais e melhor em todas as áreas de produção, está bem mecanizado e os agricultores estão cada vez mais empenhados em melhorar a eficiência das suas explorações e em aumentar os rendimentos. César Pacheco entende que os açorianos deveriam privilegiar em primeiro lugar produtos locais e muitas vezes isso não acontece, porque o factor preço sobrepõe-se à qualidade ou origem e alerta para que as pessoas percebam a importância de consumir os produtos dos Açores. Correio dos Açores: De Presidente da Junta de Freguesia para Presidente dos Jovens Agricultores Micaelenses. Qual a função mais difícil? César Pacheco: São cargos parecidos porque em ambos é necessário reivindicar! Na Junta de Freguesia o Presidente tem de estar atento às necessidades locais de um lugar ou um espaço, na Associação tem de estar atento às definições das políticas ou estratégias para o sector e acompanhar as dificuldades. Quanto à dificuldade, fácil é não fazer nada! Agora o certo é que a Associação ocupa-me muito mais tempo do que o que tinha de dispensar para a Junta de Freguesia. Arrepende-se de ter enveredado pela lavoura ou acha que foi uma boa decisão? Não, não me arrependo. Só tenho pena de não ter tirado formação superior na área. Gosto muito do que faço. Em traços gerais como está o sector? O sector está cada vez mais especializado, produz se mais e melhor em todas as áreas de produção, está bem mecanizado. Os agricultores estão cada vez mais empenhados em melhorar a eficiência das suas explorações, em aumentar os rendimentos; houve uma grande melhoria nas condições de trabalho nos últimos anos. Julgo que tornou-se atractivo ser agricultor e isso nota se pela quantidade de jovens que trabalham no campo e que estão a diversificar a agricultura nos Açores. Contudo existem algumas dificuldades com as quais temos de lidar, mas felizmente temos a capacidade para ir ultrapassando. Acha que a agricultura é um aliado do turismo? Sim. Agora eu acho que o turismo é que tem que se aliar à agricultura. A agricultura faz parte das nossas raízes, e aquilo que somos é resultado da aposta que tem sido feita na agricultura, por isso temos as condições necessárias para desenvolver o turismo nos Açores. Essa questão tem sido muito debatida, e para nós agricultores, o aumento da vinda de turistas nos últimos anos é muito benéfica para o sector, estamos a falar de uma promoção da nossa produção de uma forma gratuita passando por uma maior valorização dos nossos produtos! Agora, se vamos ter explorações com complemento do turismo o “agroturismo”? Sim, poderão surgir algumas, agora o que é preciso, é que todos nós tenhamos em mente que temos uma beleza natural fantástica, mas não podemos perder a nossa identidade, porque quem nos visita o fará pelo que temos e pelo que somos! Cada vez mais, jovens licenciados enveredem pela agricultura. Porquê? Em primeiro lugar, porque o acesso ao ensino está mais facilitado e acessível a todos, e depois, porque vão herdando um negócio de família ou para aqueles mais convictos que se formaram na área instalam se como agricultores, beneficiando dos conhecimentos adquiridos nas universidades. A União Europeia tem continuado a contribuir para promover a coesão social dos agricultores? Sim, e é muito importante que se mantenha, para que se possa continuar a produzir e a desenvolver a agricultura e a fixar as pessoas nos meios rurais. Acha que com a saída do Reino Unido, as Regiões Ultraperiféricas poderão ter uma redução no apoio à agricultura? Espero que não, estão a começar agora as negociações para o próximo orçamento plurianual da PAC e já é conhecida a proposta da Comissão europeia de reduzir em 5% a verba afecta à agricultura, e que Portugal está num grupo de três países que não irão sofrer cortes nos pagamentos directos aos agricultores. Vamos a ver a capacidade negocial dos nossos dirigentes políticos para que as verbas destinadas para as regiões ultraperiféricas não sejam reduzidas e até conseguir um aumento para garantir a competitividade da agricultura. Acredito que se chegue a um bom acordo, até porque existem mais países com muito peso na Comunidade Europeia que têm o mesmo interesse que Portugal, e penso que se juntarem conseguirão aumentar o apoio para as Regiões Ultraperiféricas. O que acha que poderá ser feito pela promoção dos nossos produtos agrícolas? Acho que aqui nessa questão temos um problema cultural que tem que se resolver, falta um pouco de “bairrismo” aos açorianos. Devia-se privilegiar em primeiro lugar produtos locais e muitas vezes isso não acontece, o factor preço sobrepõe-se à qualidade ou origem, e, enquanto as pessoas não perceberem a importância de consumir Açores na economia local ou da nossa Região, vai ser difícil, porque a melhor promoção é a que é feita boca a boca. Posteriormente, devemos apostar em feiras, restauração, hotelaria que são grandes canais de divulgação e promoção, e garantir uma boa apresentação dos produtos nas grandes superfícies comerciais evidenciando a diferenciação da Marca Açores. Um problema dos jovens agricultores é que passaram a pagar quantias exorbitantes de Segurança Social. O que poderá ser feito para minimizar o impacto desta medida? Essa situação é pior na produção leiteira porque um jovem agricultor atinge um valor de facturarão que não corresponde ao seu rendimento liquido. Uma das soluções passava por um regime especial aos produtores de leite numa redução da taxa social única para trabalhadores independentes. O aumento do preço do leite é uma miragem? Não. O preço do leite não é estático, tem muito a ver com as necessidades do mercado e neste momento os mercados dão sinais favoráveis. No entanto, estamos no auge da produção leiteira em São Miguel, o que torna difícil conseguirmos um aumento do preço nessa altura. Esperemos que quando a produção começar a baixar haja uma actualização do preço de uma forma favorável à produção. Qual a sua opinião sobre a liberação do mercado na produção leiteira na Europa? A liberalização do mercado leiteiro na Europa vem perigosamente por em causa a produção leiteira em países com custos de produção mais elevados e de Regiões como os Açores que têm especificidades como a insularidade e a distancia dos mercados. Julgo que, se a Comunidade Europeia tivesse optado por um aumento gradual do volume das quotas leiteiras, consoante as necessidades dos mercados colocavam uma maior justiça na produção leiteira europeia. Liberalizar o mercado à lei da oferta e da procura, quando somos excedentários nessa produção, julgo que não foi uma boa decisão por parte da Comissão Europeia. Qual a opção mais fácil para um lavrador: optar pela produção de carne ou pela produção de leite? Isso depende de muitos factores. Conheço produtores que converteram a produção de leite para produção de carne e vice versa e quem tenha os dois modos de produção, isso tudo tem a ver com a aptidão de cada lavrador com as circunstâncias do momento, qualquer uma das duas exigem muito investimento e trabalho. Qual o impacto no sector relativamente ao corte do apoio de 45 euros por vaca? Não há um corte de quarenta e cinco euros, houve foi um apoio Regional desse montante para os anos de dois mil e quinze e dezasseis, o que nós pretendíamos era que fosse prolongado mais um ano uma vez que em dois mil dezassete o aumento do preço do leite não foi tão exponencial como esperávamos, sendo que esse apoio era compensar a perca de rendimento pela baixa do preço do leite ao produtor, contribuindo assim para a melhoria da tesouraria das explorações. Acha que apesar das dificuldades, os jovens agricultores têm mantido o seu entusiasmo e perseverança numa resposta positiva quanto à qualidade e quantidade do leite produzido em São Miguel? Sim, até porque o maior desafio dos jovens agricultores é ultrapassar todas essas barreiras, melhorando a quantidade e qualidade do leite em S. Miguel, e é o que se tem feito. No ano transacto, a produção aumentou 2.26 por cento, o que totalizou quatrocentos e dois milhões de litros, cerca de vinte por cento da produção nacional. Qual a mais valia para um jovem se inscrever na Associação dos Jovens Agricultores Micaelenses? A mais valia é ter uma entidade que os representam em vários organismos, poder dar o contributo para definir as estratégias do sector que ele está a desenvolver e ter voz activa. Assim sendo, deixo aqui o desafio aos jovens agricultores de se associar à Associação dos Jovens Agricultores Micaelenses porque se o sector é o que é hoje, muito deve às suas associações.
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