“Os reclusos dos EUA e Canadá ficam ansiosos quando chega o momento da liberdade porque não sabem como viver na ilha”

Fernando Augusto Lachado Felgueiras, de 46 anos de idade, veio para São Miguel em 1992 para estudar na Universidade dos Açores, onde três anos mais tarde, em 1995, termina o curso de Enfermagem na Escola Superior de Ponta Delgada. Pelo meio conhece e apaixona-se por Sandra Rita Felgueiras, com quem casa e tem três filhos. Quer isto também dizer que a sua cara-metade é também enfermeira. Em São Miguel há 26 anos, mesmo antes de conhecer a mulher já dizia que queria ficar cá a residir na ilha porque foi muito bem recebido por todos, mesmo pelos colegas do curso. “Foi o meu segundo amor à primeira vista”, confessou. De tal forma que, quando regressa ao continente chamam-lhe açoriano e cá há quem o apelida de “portuga”. “A minha terra é esta que é onde estou e tenho a minha família, mas sempre que posso arranjo tempo para visitar os meus pais”. Enfermeiro por influência familiar O gosto pela enfermagem também surge porque tem membros da família que são profissionais da saúde, entre eles, uma irmã. Contudo, e quando chegou à altura de decidir a influência do padrinho, que é médico, também ajudou a optar pela enfermagem. Terminado o curso, e porque havia uma grande falta de enfermeiros na Região, o número de vagas por preencher correspondeu ao número de enfermeiros que terminaram o curso em 1995. Entretanto, uma vaga foi preenchida no Hospital de Ponta Delgada e porque “sabia que não tinha tido a melhor nota da turma, apesar de ter sido uma das melhores foi-lhe proposto, por um colega, que começasse a trabalhar no Nordeste. Assim aconteceu, foi administrativamente contratado, mas seis meses depois já estava no quadro. O tempo foi passando, as responsabilidades foram aumentando, chegando inclusive a ser o coordenador dos enfermeiros e dos auxiliares no Centro de Saúde de Nordeste durante 12 anos. Adjunto de comando nos Bombeiros do Nordeste Naquele Concelho é depois convidado para fazer parte da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Nordeste, onde passa a ser adjunto de comando do quadro de especialistas durante 16 anos. “Foi uma experiência enriquecedora em todos os aspectos porque achava que também podia fazer algo por uma terra que tão bem me acolhia. Fazia piquetes e quando éramos accionados, em casos mais graves, entrava em contacto com os médicos no Nordeste quando era mais necessário”. Recordando esses tempos, o nosso interlocutor fala de algum isolamento que na altura as pessoas do Concelho sentiam, muito, antes das scuts. “Sentia-se, de facto, um isolamento porque havia pessoas que só vinham a Ponta Delgada por alturas das Festas do Senhor Santo Cristo. Chegar lá ou sair de lá andava-se mais de uma hora e meia de viagem e andei nisto 16 anos. Às vezes trocava de turno e dormia em casa de amigos porque a minha mulher trabalhava no Hospital de Ponta Delgada. Contudo, acabamos por comprar casa em Rabo de Peixe, andava de um lado para o outro, mas gostava do serviço que fazia lá. Cheguei a concorrer para o Hospital de Ponta Delgada e fui aceite, mas na hora de decidir, o Nordeste falou mais alto porque trabalhávamos muito bem”. “O maior problema de então eram as urgências graves, muitas vezes em situações gravíssimas, quer fossem partos, enfartes, acidentes de viação com politraumatizados, isso então era muito complicado”, acrescentou. Apesar de já não trabalhar no Concelho do Nordeste, não raras as vezes regressa. Inclusivamente não foi há muito tempo que Fernando Felgueiras realizou o sonho de ir ao Pico da Vara, em conjunto com um grupo de amigos, muitos deles, bombeiros no Nordeste, da recém-criada equipa de busca e salvamento em grande ângulo. “Foi então criado um evento de cariz social em que todos contribuíram com um valor simbólico que começava nos 3 euros. Houve pessoas que deram mais, mas mesmo assim foram lá 58 pessoas, algumas delas de outras partes da ilha, em que a receita contribuirá para a compra de equipamento para a equipa de busca e salvamento em grande ângulo do Nordeste”. Três anos no Clube Desportivo de Rabo de Peixe Entretanto, o tempo passa e para melhor acompanhar o crescimento dos filhos concorre a uma vaga no Estabelecimento Prisional de Ponta Delgada adaptando-se facilmente à sua nova realidade laboral. Enquanto isto, o amigo Yá Yá, jogador do Clube Desportivo Rabo de Peixe dá a conhecer ao Presidente da Direcção, Jaime Vieira, que o enfermeiro Fernando Felgueiras por ali mora. Apesar de nunca ter tido a oportunidade de trabalhar para um clube desportivo, aceitou o desafio e por lá andou três anos. “Gostei bastante, mas infelizmente a minha vida profissional não me permitia ficar mais tempo porque também trabalho aos fins-de-semana e às vezes coincidia com os jogos, e não podia estar sempre a trocar de turnos com os meus colegas”. A amizade com a Bastonária: Visões em comum Vogal da Comissão de Atribuição de Títulos, afecta à Ordem dos Enfermeiros, a nível nacional, que tem como Bastonária Ana Rita Cavaco, esta é uma ligação que já perdura no tempo. “Conhecemo-nos há 12 anos atrás ficamos amigos e ela já na primeira vez que tinha concorrido, levantaram muitas questões que se vieram a revelar que houve má-fé, não sei de quem, mas disseram que ela não podia concorrer como Bastonária e nessa altura fui o mandatário aqui na Região na candidatura dela. A nossa amizade perdura no tempo porque temos visões para a enfermagem em comum. Entretanto, há três anos atrás, ela convidou-me para ser o candidato aqui na Região, mas infelizmente não ganhei as eleições. Contudo, o Conselho Directivo da Ordem achou que eu era uma mais-valia e convidaram-me para o cargo de vogal da Comissão de Atribuição de Títulos. Ou seja, analiso os processos dos enfermeiros que terminam os seus cursos e vejo se está tudo dentro das habilitações que são exigidas por lei, onde, por exemplo, têm de ser cumpridos os parâmetros relativamente aos estágios, que muitos não apresentam”. Sobre o desempenho da Bastonária na Ordem dos Enfermeiros, Fernando Felgueiras sublinha que “desde que foi eleita que está arrumar a casa e a fazer um excelente trabalho, lutando sempre pela valorização dos enfermeiros, nomeadamente a chamar a atenção para a restruturação da carreira dos enfermeiros, bem como o pagamento em consonância com as suas competências profissionais porque a classe não é paga como deve ser e sobre os enfermeiros o Governo nunca tem tempo para falar. Espero que ela se candidate porque estamos no bom caminho”, sublinhou. Sobre o Estabelecimento Prisional Fernando Felgueiras faz parte dos quadros do Centro de Saúde de Ponta Delgada, só que devido a um protocolo entre o Governo Regional dos Açores e o Ministério da Justiça, três enfermeiros estão destacados para exercer funções no Estabelecimento Prisional de Ponta Delgada. Sobre o Estabelecimento Prisional de Ponta Delgada, Fernando Felgueiras diz que “não é preciso ser um super enfermeiro para trabalhar no Estabelecimento Prisional de Ponta Delgada. No entanto, as pessoas têm de ter, minimamente, a noção que vão estar num local fechado, que vão estar com pessoas que, infelizmente para eles, não cumpriram as regras da sociedade por isso é que estão castigados. Mas, acima de tudo, tratamos os reclusos com respeito e eles com respeito nos tratam. Claro, que é um meio fechado e apanhamos com todos os estratos sociais, ninguém está ali de livre vontade, mas a maior parte lidamos com pessoas que não tiveram a educação que deveriam ter tido. A nível pessoal, impressiona-me o analfabetismo de alguns jovens que mal sabem assinar o seu nome, nem sabem ler e assinam de cruz. E depois, também vemos famílias inteiras lá dentro e uma grande família de reclusos que sai, entra, sai e entra. Trabalhar lá no dia-a-dia, a segurança é apertada, mas também há aquela sensação das chaves e abrir e a fechar as portas por onde quer que agente se desloque. Temos um guarda que nos faz companhia, que é uma medida de segurança, mas nunca tivemos problema nenhum com reclusos porque eles percebem o que nós estamos lá a fazer que é para os ajudar e foi estabelecida esta fronteira, mas falamos de futebol, disto e daquilo, quando eles querem falar. Às vezes, eles vêm falar de assuntos pessoais connosco, desabafam porque alguns têm situações familiares muito complicadas, principalmente os reclusos que chegam dos Estados Unidos da América e do Canadá, muitos deles não têm cá família e às vezes nem português, muito bem, sabem falar, e não têm ninguém a quem recorrer. Quando começa a aproximar-se a altura da libertação deles, eles começam a entrar em ansiedade porque cá fora não sabem muito bem como lidar com a nova realidade. Por outro lado, mesmo lá fora eles têm a tendência a juntarem-se. Alguns arranjam emprego, mas muitos deles acabam por regressar”. No Estabelecimento Prisional de Ponta Delgada são organizadas partidas de futebol com alguma regularidade e quando isso acontece “acaba sempre por ser um dia de festa para os reclusos”. Do pouco tempo que lhe resta, Fernando Felgueiras caminha e queima algumas calorias a andar de bicicleta. Aprecia muito a leitura e gosta de participar em causas solidárias e estar com a família. “É uma mais-valia sempre fez parte da equipa e tem sido excepcional e incansável” Trabalhar para que volte a existir a categoria de enfermeiro especialista é uma das bandeiras da Bastonária da Ordem dos Enfermeiros Ana Rita Cavaco. Sob a bandeira “Orgulhosamente Enfermeiros”, recorde-se que em entrevista ao nosso jornal, antes da sua eleição em 2016, explicava então que se recandidatava motivada pelo apelo de milhares de colegas de profissão que de todo o país lhe manifestavam a necessidade de uma mudança profunda do actual papel e relacionamento da Ordem com os Enfermeiros.E porque na altura falamos de igual modo com Fernando Felgueiras que era o mandatário de Ana Rita Cavaco às eleições, quisemos desta vez falar com a Bastonária acerca do papel que Fernando Felgueiras tem vindo a desempenhar na Ordem como Vogal da Comissão de Atribuição de Títulos. “Enfermeiro especialista é um dos elementos mais importantes da Ordem que, conjuntamente com outros colegas do país faz a avaliação dos processos para saber se estão em condições de lhes serem atribuídos títulos a enfermeiros portugueses ou estrangeiros, que vêm para Portugal e que pedem certificação da Ordem. E para nós torna-se mais interessante porque habitualmente é mais difícil aos colegas das ilhas, não só dos Açores, mas também da Madeira, participarem e portanto é um esforço maior para eles próprios porque não estão aqui ao virar da esquina e não podem pegar no carro para virem ter connosco, ou seja, têm mais dificuldade na sua deslocação para virem às reuniões, mas há muita coisa que eles fazem, não só por telefone mas também por videoconferência. Sinteticamente, estamos muitos satisfeitos com o seu trabalho, é uma mais-valia, sempre fez parte da equipa e tem sido excepcional e incansável”. A Bastonária releva de igual modo que já se conhecem há muitos anos, reforçando que a “Ordem procura sempre aqueles elementos que entendemos que estão em melhores condições para concluir aquilo que nós confiamos aos enfermeiros e, portanto está em total sintonia com o aspecto da proximidade que nós queremos, com os enfermeiros e com o facto, da Ordem ser a casa deles porque eles são eles que a pagam com as suas quotas, e portanto está em total sintonia connosco”. Acresce apenas referir, que relativamente à eleição para os órgãos regionais, o Conselho Regional dos Açores foi então conquistado pela Lista B, encabeçada por Luís Rego Furtado, que apenas se candidatou àquele órgão regional. Na segunda posição, com 194 votos, ficou o candidato da Lista E, Fernando Felgueiras.
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