Filomeno Gouveia esteve numa ‘espera’ a António Spínola com ordens para disparar sobre qualquer viatura que não parasse

Filomeno Gouveia não esquece que a sua “segunda freguesia” é Rabo de Peixe, onde começou a ajudar o pai na salsicharia e onde já se lhe denotava o espírito “organizador”, pelo menos dos campeonatos de futebol. Foi esse espírito que o levou a liderar grupos de piquete na tropa logo depois do 25 de Abril, que viveu em Paço D’Arcos. E foi também com esse espírito que na EDA foi subindo de posto, até chefiar um gabinete de apoio da eléctrica a nível Açores. Foi aí que entrou no PSD. Foi Vice-presidente da Câmara da Ribeira Grande, liderou a Concelhia, e o contacto com os eleitores leva-o a dizer que “não auguro muitos êxitos para o PSD/Açores actualmente”. De onde é natural e como foi o seu crescimento? Sou natural da Matriz da Ribeira Grande mas aos 4 anos mudei-me para Rabo de Peixe porque o meu pai tinha umas salsicharias e padarias na Ribeira Grande e quis montar uma salsicharia em Rabo de Peixe, que não havia na altura. Fiz a primária em Rabo de Peixe, que considero que é a minha segunda freguesia, mas nunca perdi a ligação à Matriz da Ribeira Grande. Fiz a primária e os exames de admissão em Rabo de Peixe, com uma professora, a Dona Silvina, que muito lhe agradeço que me preparou muito bem, e regressámos à Ribeira Grande. Tive sempre uma educação, muito promovida pela minha mãe no sentido de estar sempre ligado ao serviço dos outros. Principiou com uma formação muito ligada à Igreja, que continua pela vida inteira, e desde muito novo participei em vários movimentos da Igreja que de alguma forma me ajudou a crescer e a tomar algumas decisões na vida. Que recordações tem da infância em Rabo de Peixe? Recordações muito bonitas porque brincávamos na rua, a rua do Rosário ainda era terreira, organizávamos ali equipas de futebol, não havia cal para riscar os campos e organizávamos alguns campeonatos. Já era um bocadinho organizador na altura. É uma infância que recordo com alguma saudade. Também ajudava no negócio da família? Aos 7 anos de idade o meu pai fez-me um caixotinho e já pesava os chouriços e vendia. Desde muito tenra idade fui sempre ajudando o meu pai quer na vida da salsicharia, quer indo ao mercado da Ribeira Grande ao Domingo. E aos 10 anos o meu pai fez-me uma partida. Antigamente quando se comprava os porcos, não era com hoje. Íamos a casa das pessoas, avaliávamos o porco a olho e oferecia-se o preço de acordo com o preço da arroba. O meu pai mandou-me ir a casa do Senhor Vargas, que tinha dois porcos para vender, que já tinha falado com ele e eu é que ia fazer o negócio. Lembro-me que bati à porta, meio envergonhado, ele era um homem forte e quando abriu a porta perguntou-me de quem eu era filho e eu respondi que era filho do “Xico” Gouveia. Disse-lhe que o meu pai tinha pedido para ir fazer o negócio com ele dos porcos. Fomos para o quintal onde ele tinha os porcos e perguntei se ele não podia tirar os porcos para o quintal para ver melhor. Lá fiz o negócio, o meu pai pagou ao homem mas nunca me disse se tinha perdido ou ganho dinheiro. Falando com o meu irmão, disse-me que o meu pai também já tinha feito o mesmo com ele. O meu pai era assim e ensinou-me muita coisa. Quando comecei a trabalhar na EDA, o primeiro ordenado que recebi entreguei-lho e ele foi comigo à Caixa Económica Açoriana, onde ele trabalhava, e fomos abrir uma conta. Foi um homem que me foi formando para a vida, apesar da instrução dele ser muito pouca, tinha a 4ª classe antiga. Era um homem bom. O meu pai desde o princípio que me estava a preparar para ficar com o negócio dele e ficou desapontado quando isso não aconteceu. No dia em que saí para ir para a tropa, ele já estava um pouco doente, e disse-me que ia esperar por mim para dar continuidade àquela vida. Mas eu já trabalhava na EDA na altura. Já trabalhava antes de ir para a tropa… Eu fiz os exames de admissão à Escola Industrial e ao Liceu e acabei por ir para a Escola Industrial. E estava mais ou menos entendido, com algumas pessoas com o engenheiro Jaime que ia para o Porto porque quando se acabava a secção preparatória na escola, tínhamos um professor de electricidade que orientava os alunos para irem estudar para o Porto. Tinha uma boa nota de curso e um dia passo na Calheta e vi o engenheiro Pacheco Vieira que me disse que estava a precisar de alguém para a sala de comandos. Eu disse que estava a pensar ir para o Porto e ele respondeu que se eu fosse, depois havia de sair da Federação dos Municípios, que ainda se chamava assim. Estive lá três anos antes de ir para a tropa, depois passou para Empresa Insular de Electricidade. Entretanto fui para a tropa, estive lá quase dois anos e meio, e quando saí voltei para a empresa que já se chamava EDA – Electricidade dos Açores. Como foram os tempos de tropa? Estive sempre em Tavira a tirar o curso de sargentos milicianos e depois como era da área técnica e tinha experiência profissional adquirida, fui para a Escola Militar Electromecânica de Paço D’Arcos, que foi para mim uma universidade. Era a melhor escola técnica do país e só ia para aquela escola ou quem tinha muitas cunhas ou tinha alguma qualidade. Estive lá quase dois anos e meio, fui lá formador. Entretanto começaram as coisas do 25 de Abril, com o 11 de Março, e depois em Maio de 1975 regressei aos Açores porque havia um comandante do Batalhão de Infantaria 18, nos Arrifes, que estava há imenso tempo a pedir um sargento técnico mas o comandante de Paço D’Arcos, era um coronel da Força Aérea, nunca me deixou sair porque eu estava a dar formação, porque tinha ido muita gente para a Guiné e eu, já com dois anos de tropa cheguei a estar mobilizado mas não cheguei a ir. Ele só me deixou sair a meu pedido e autorizou, mas estive só um mês no “18”. O comandante disse que tinha um gerador há muitos anos para ser montado e que ninguém tinha montado, e apesar de não ter ficado comprometi-me com ele que mesmo na EDA ia lá montar o gerador. E fui. Como viu o 25 de Abril lá fora? Desde 1973 que já começavam a acontecer algumas coisas, como ataques aos tanques de combustível das unidades, a nossa unidade foi atacada várias vezes, já tínhamos sentinelas nos telhados dos quartéis todos, tivemos noites com tiros. Quando fui para Paço D’Arcos, ainda em 1973, já tinha feito a minha especialidade técnica que era de quase um ano, vim cá de férias e quando regressei em Fevereiro, aconteceu logo o 16 de Março. Já era furriel quase, era muito amigo de um major, engenheiro electrotécnico, que era capitão na altura, que estava muito ligado ao Movimento e já me perguntava qual era a minha opinião, e tivemos algumas reuniões com os milicianos. A conversa era sempre sobre o Ultramar, se devia acabar a guerra. Nunca se falou noutra coisa se não no Ultramar e em acabar com a guerra no Ultramar. Encostado ao 16 de Março houve duas ou três reuniões em que todos foram chamados, mas nunca disseram que ia acontecer alguma coisa, perguntavam qual seria a nossa posição se acontecesse, mas tudo muito subjectivo. Mas naquela altura era interessante a vida em Lisboa e Paço D’Arcos, as pessoas faziam vida nos cafés porque não havia televisão em casa. Os cafés estavam cheios e todos passávamos o serão nos cafés a conviver e começou-se a sentir uma presença da PIDE nesses cafés todos. Até houve um PIDE que se infiltrou no nosso grupo, que era um grupo de furriéis que íamos jantar todos os dias fora, e ele infiltrou-se com uns esquemas. Afinal era PIDE. Antes do 25 de Abril esse capitão meu amigo estava de serviço vários dias seguidos e estranhei. Já tinha acontecido o 16 de Março e só se falava que ia rebentar qualquer coisa. Em todas as unidades e nos cafés se ouvia isso. Naquela noite já estava deitado e ele foi ter comigo ao quarto a dizer que “está a acontecer” e levantámo-nos todos. Como éramos uma unidade técnica tínhamos radares de comunicações e tivemos de pôr tudo operacional para fazer as comunicações, ao lado das Forças Armadas. No dia a seguir ao 25 de Abril entrei de sargento ao piquete. A partir dali cortaram as comunicações, começámos a andar com piquetes a ir buscar mensagens para um lado e para o outro. O nosso comandante era um bom homem, vivia numa vivenda dentro do quartel como todos os oficiais superiores, e ele levantava-se pelas 9h30 que era quando vinha para a unidade. Mas aconteceu o 25 de Abril e os oficiais superiores viviam em vivendas dentro do quartel, e tudo aquilo, e ele não deu conta. Estávamos todos no gabinete do oficial de dia, o capitão Francisco tinha vindo de Tancos nessa noite, e ele chegou e o capitão Francisco disse que tinha de lhe dar ordem de prisão e tinha de ficar fechado no seu gabinete. A partir daí, a tropa começou a fazer tudo. A PSP deixou de ter autoridade, os piquetes que estavam de serviço é que saiam. Lembro-me que logo a seguir ao 25 de Abril, o Partido Comunista começou a organizar greves e houve uma greve de pão e os correios também fecharam. Alguns de nós foram para os correios trabalhar. Eu estava de sargento de piquete e disseram-me que as pessoas estavam a roubar os supermercados e mandaram-me ir lá fora mas sem estar armado. Eu disse que não me arriscava naquele barulho sem estar armado. Quando nos viram todos armados, ficaram logo todos em fila. Mas não se podia andar à civil. Depois, o 28 de Setembro foi muito mau. Eu estava também de sargento de piquete e tínhamos uma lista de 40 viaturas para aprisionar. Havia murmúrios de que António de Spínola estava em Cascais e ia fazer um ataque a Lisboa e fui comandar esta força na zona de Paço D’Arcos, na auto-estrada que liga Cascais a Lisboa. Tínhamos um soldado de cada extremo da estrada que estavam com uma Dreiser e uma arma anti-aérea, e ao meio homens para mandar parar os carros. A ordem era que o carro que não parasse era para atirar a matar. Já tínhamos parado uns quantos, já tínhamos prendido muitas armas, e há um carro que não pára e tive de dar ordem de fogo. O rapaz que estava com a Dreiser abriu fogo e foi uma sorte não ter feito estragos porque era um rapaz de 16 anos que tinha roubado o carro ao pai. A sorte é que o tiro foi junto à base do carro e ninguém se feriu. Foi o caso mais grave que tive. De resto eram pessoas que nos chamavam porque lhes tinham feito pinturas nas paredes de casa. Outras coisas eram os comícios, e a malta do MRPP quando era um comício do CDS estava lá toda, havia facadas e tudo. Prendíamos camiões cheios de raparigas e rapazes do MRPP só pela simples razão de eles não se quererem identificar. Ia tudo para o quartel e ficava tudo preso. Quando regressa, volta à EDA? O engenheiro Jaime Medeiros regressou comigo da tropa e fomos criar um serviço novo para a EDA. Ele como engenheiro e eu como técnico. No primeiro ano o serviço tinha 5 ou 6 pessoas, fomos reformulando e ao fim de uns anos éramos o maior serviço da EDA, já tínhamos mais de 200 trabalhadores connosco. Comecei com uma pequena equipa, depois passei a chefe de secção, depois a chefe de sector, e mais tarde fui chefiar um gabinete de apoio a nível Açores. A seguir começaram a chatear-me para ir para a Câmara. É aí que entra a política na sua vida? Sempre tive alguma capacidade de liderança, tinha ali cerca de 300 homens à minha responsabilidade, tinha de organizar equipas, e era um papel de muita responsabilidade. Na altura era uma vida difícil, porque havia muitas avarias, passei muitas noites a andar nas ruas de São Miguel. Mas nunca me liguei a partido nenhum. Sempre estive ligado a movimentos da igreja, na EDA andavam sempre a chatear-me mas fui-me sempre desviando com alguma diplomacia. Era tão absorvido no trabalho que não tinha tempo disponível para mais nada. Na altura que o Dr. Hermano Mota esteve na Câmara da Ribeira Grande ainda me sondaram mas não aceitei. Depois quando o Dr. António Pedro Costa me convida, disse-lhe que ia ajudar mas não podia ser a tempo inteiro. Ganhámos as eleições, em Dezembro, e em Abril achei que não podia continuar assim porque a minha secretária era metade com papéis da EDA e metade com papéis da Câmara. Foi quando fui para a Câmara a tempo inteiro e estive 12 anos como Vice-Presidente. A seguir estive 4 anos de repouso, foram-me chatear que a Ribeira Grande não estava bem e fui a uma reunião do partido. Critiquei a forma como estavam a pensar criar candidatos à Câmara e puseram-me a Concelhia na mão. Organizei tudo, fui buscar quase 300 jovens que foram depois para as listas das Juntas e para a Câmara, e embora não quisesse ser candidato fui, mas perdemos as eleições. Já sabia que era para perder, mas preparou-se o terreno. Nessa altura concorri à Comissão Política e ganhei, e o Alexandre Gaudêncio estava na outra lista, mas disse que éramos todos do mesmo partido e íamos todos trabalhar para a Ribeira Grande. Disse ao Alexandre Gaudêncio para ficar na Comissão Política comigo e na Juventude e ficou 6 anos comigo. Quando chegou a altura, fui falando com algumas pessoas e começámos a preparar o nome de Alexandre Gaudêncio. Comecei a fazer um discurso de freguesia a freguesia e comecei a explicar os valores e qualidades dele. No fundo procurei, na normalidade do dia-a-dia, servir os outros. É o que me realiza, de alguma maneira, de uma forma normal. Desde miúdo que fui habituado e educado assim e ainda hoje continuo a fazer um pouco isso. Ainda se mantém activo na política? Não. Estive em Presidente da Assembleia Municipal da Ribeira Grande no mandato anterior mas agora saí. Não tenho exercido actividade política actualmente. Como vê este PSD actualmente? Muito mal. Vivemos uma altura em que o PSD está ainda a fazer uma travessia no deserto, desde que saiu o Dr. Mota Amaral. O PSD tem um defeito, não tem conseguido criar os substitutos nem a nível autárquico nem a nível regional. Foi o nosso caso na Câmara da Ribeira Grande. Vejamos que uma pessoa que não passa pelas Comissões Políticas, pelo mundo autárquico, não sabe lidar com o povo, com os eleitores. Por isso não auguro muitos êxitos para o PSD actualmente. Como ocupa agora os seus dias? Reformei-me em 2005, já tinha 36 anos de serviço, ainda antes de acabar o mandato na Câmara Municipal da Ribeira Grande. Andei envolvido na política e em coisas da Igreja, estive à frente do Centro de Bem Estar Jacinto Ferreira Cabido, fui Presidente durante 16 anos e depois estive mais quatro anos como Presidente da Assembleia. Fui um dos sócios fundadores do Lions Clube da Ribeira Grande. Fui Presidente e fui o primeiro Lion a criar o Leo Clube, que foi fundado na Ribeira Grande. Actualmente sou o Provedor da Confraria do Santíssimo Sacramento, onde temos promovido algumas conferências. E tenho os netos. Quantos netos tem? Nasceu agora a minha oitava neta. Tenho quatro rapazes e quatro raparigas. Envolve-se na vida dos netos? Tenho cinco netos cá. Quando os pais não podem os avós é que vão buscar à escola. À Sexta-feira vai tudo para a Ribeira Grande, jantam e dormem lá. Procuro estar sempre ocupado. Além disso, apesar de já não estar na Câmara, ainda vão muitas pessoas a minha casa e sempre vou ajudando no que é possível. Sempre fui uma pessoa que nunca gostei de dizer “talvez”, “vamos ver”. Quando via que não se podia, era logo “não”, e algumas pessoas não gostavam, mas quando era “sim”, no dia a seguir era resolvido. E a ligação à Igreja? Ultimamente, para além da Confraria do Santíssimo Sacramento já não estou ligado a mais nada. Mas o senhor padre da Matriz da Ribeira Grande, como se está a fazer um processo de obras, já me pediu ajuda e eu tenho estado a assessorar para a obra poder seguir em frente. Gosto de ir fazendo uns trabalhinhos, às vezes inscrevo-me na Universidade Católica e tiro um curso on-line. Mantenho-me ocupado.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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