Cuida de quatro colmeias de abelhas para descontrair e combater o stress

Antes de seguir caminho para a mata que tem mesmo atrás de casa e onde tem quatro colmeias em produção, há todo um ritual que é preciso cumprir. António Silveira diz mesmo que o ritual ajuda a descontrair e a deixar o stress de lado, que também não é conveniente para as abelhas. Ainda no quintal de casa, veste o fato branco, “que não deve ser lavado com detergente”, e coloca as caneleiras para evitar picadas nas pernas e pés. De chapéu com rede e luvas na mão, segura também um fumigador de fole e um saco com aparas, que transporta até perto das colmeias mas a uma distância segura. É aí que retira de um dos bolsos um pedaço de cartão canelado que incendeia e coloca no fundo do fumigador. As pequenas aparas de madeira ajudam a fazer a combustão e dali começa a surgir o fumo que vai ajudar na cresta (recolha do mel). Mas acender o fumigador requer técnica que António Silveira diz já ter adquirido pois “antigamente quando vinha ao apiário, demorava 1 horas e 20 minutos. Uma hora para fazer o fumo e 20 minutos nas abelhas”. António Silveira coloca então as grossas luvas, o chapéu e segue caminho de fumigador na mão e com duas alças (quadrados de madeira colocados em cima do ninho onde se inserem os quadros com as placas de cera para que as abelhas comecem a produzir o mel) vazias. Para ajudar e aproximar-se pela primeira vez das abelhas está também o pequeno João Silveira, de oito anos, que faz questão de acompanhar o pai nesta ansiada aventura, juntamente com o cão Óscar que é o único dos vários cães da família que se aventura na mata de todas as vezes que António Silveira vai ver as colmeias. Antes de entrarmos no apiário, António Silveira explica que há cerca de 15 dias atrás esteve junto das colmeias para verificar a produção de mel e que deverão as quatro colmeias ter quadros bem operculados, ou seja, placas de cera onde as abelhas foram produzindo o mel e cujos orifícios estarão selados e prontos a ser colhidos. O apicultor afirma que aquele ritual que faz a alguns metros de distância ajuda a acalmar “para não transmitir às abelhas a nossa ansiedade” e aconselha a que junto às colmeias o ambiente seja o mais tranquilo possível, sem gritos e sem movimentos bruscos. O primeiro aviso é que a parte da frente das colmeias não deve ser obstruída já que é quase como “uma pista de aviação” e se alguém ou algum objecto obstruir essa rampa de voo, o mais certo é ser picado. Ali, o apicultor número 134477 informa que a placa informativa dos serviços oficiais obriga a que tudo fique registado pelos próprios serviços, que ali vão de tempos a tempos recolher amostras da cera, do mel e ver as colmeias. Tudo para verificar que os largos milhares de abelhas, “cada colmeia pode ter até 80 mil abelhas e eu tenho quatro colmeias, mas não sei ao certo quantas tenho”, estão bem de saúde. É que as abelhas andam normalmente num raio de três quilómetros das colmeias, mas pode haver vários apicultores naquele raio de acção e as circunferências dos três quilómetros de cada colmeia “vão abrangendo umas às outras”. O que significa que, teoricamente, um apicultor que tenha as suas abelhas doentes em colmeias a 8 quilómetros das de António Silveira, devido às várias circunferências de três quilómetros de cada apicultor, pode impedir António Silveira de colher o seu mel. Algo que já aconteceu há uns anos atrás, “em que fiquei quase dois anos sem poder apanhar o mel. As minhas abelhas não apanharam a doença, mas por segurança os apicultores abrangidos nas tais circunferências ficaram impedidos de fazer a cresta”. Explicações dadas enquanto se segue caminho, à chegada ao apiário o vai-e-vem das pequenas abelhas é bem visível e António Silveira começa por dizer que nas colmeias, a alça de baixo é que alberga o ninho e consequentemente a rainha. Aponta para as duas primeiras colmeias que vemos, onde a cresta será feita por último, e explica que aquelas abelhas lhe chegaram de Ponta Garça e que são “as que têm mais abelhas e produzem mais”. Entretanto já se posicionou junto à primeira colmeia e vai “dando fumo” por cima logo depois de ter usado um raspador levanta quadros para levantar a tampa. “Tem de ser com ajuda porque as abelhas produzem própolis que é quase uma cola, que usam para isolar as colmeias” e as tampas e as próprias alças ficam bem coladas. O fumo, geralmente serve para dar às abelhas a indicação de perigo, “que as vão roubar, o que faz com que elas vão à colmeia e tirem o máximo de mel possível para si, nas patas. Como estão muito cheias de mel, não conseguem dobrar o abdómen para ferrar e para nós é melhor”, mas também serve para as fazer descer para o ninho, principalmente a rainha, “para que no manuseamento da colmeia não seja morta”. Com o raspador levanta quadros, António Silveira vai levantando cada um do dez quadros de cera que encaixam em cada alça. “Esta foi uma alça que pus há 15 dias, as abelhas já estão a trabalhar e já estão a encher de mel”, afirma António Silveira enquanto vai mostrando os quadros que vai retirando. “Estes quadros são feitos com cera mas se deixasse a colmeia assim elas vão fazer exactamente a mesma coisa, com a mesma medida e até mais bem feito. Nós só aceleramos o processo”, avança António Silveira que acrescenta que as abelhas vão construindo a partir daquelas placas de cera para depois encherem de mel aqueles pequenos hexágonos, os alvéolos, que vão construindo com cera. “Quando os quadros estão puxados, estão abertos de maneira a que já consigam depositar o mel e depois fecham e não sai, fica bem selado”, explica. Quando um dos quadros está todo fechado, António Silveira retira-o da alça e vai separando as abelhas do mel com a ajuda de um pequeno galho de louro, de uma árvore ali perto, e coloca o quadro numa das alças vazias que transportou inicialmente e tapa para “não levar mais abelhas do que mel” para o sítio onde posteriormente vai decantar o mel. “Mais fumo”, vai pedindo à medida que vai avançando de alça em alça e quando o zumbido das abelhas se sobrepõe quase à sua voz. “Este está puxado mas ainda não tem mel”, mostra e acrescenta que “só tem mel quando está fechado. Este tem mel mas não está fechado”. Entretanto vai verificando os restantes quadros e os que se situam mais ao centro “estão pesados, bem pesados, estão cheios de mel”. Esses são então retirados e colocados na alça e substituídos por outros apenas com a placa de cera. “Elas não querem fumo quente, não gostam. O bom para elas é o fumo espesso e frio”, diz enquanto vai dando ar no fumigador para sair o tal fumo espesso, evitando que a rainha fique por ali. “As rainhas são identificadas, pegamos nelas com os dedos, e já não pode ser com luvas, e marca-se a rainha”, cada uma com a cor respectiva do ano em que nasceu. “Quando vejo a cor da minha rainha vejo o ano a que corresponde, mas uma rainha com quatro anos já não faz nada aqui” pois já se torna demasiado “velha” para coordenar o trabalho na colmeia. Desta forma quando a rainha desaparece as abelhas acabam por eleger uma nova rainha, de acordo com os ovos que estão no ninho. Num processo demorado e intrincado, a primeira cria a nascer espera que nasça a segunda para lutar com ela pelo “poder”, quem dali vencer volta a esperar que nasça mais uma nova abelha e vão lutando até que só fique uma abelha. Mas esta só se torna rainha depois de sair, a primeira e única vez, da colmeia para a fecundação e começar a fazer a criação. Entre fumo, zumbidos e um calor quase insuportável dentro dos fatos brancos “que não devem ser lavados com detergentes” para evitar que as abelhas fiquem demasiado agressivas, António Silveira chega à última colmeia, das tais que “são das mais fortes”, e mostra que efectivamente assim é já que os quadros, mesmos os colocados há pouco mais de 15 dias, estão praticamente todos cheios. “Também não se pode deixar muito tempo senão podemos ter um enxaminhamento que é a colmeia estar lotada de mel, e a rainha abandona a colmeia e todas as abelhas vão com ela. Por isso por vezes encontramos enxames em buracos de paredes ou galhos de árvores. Pode acontecer, mas é chato”, refere António Silveira. Vai retirando os quadros selados, que coloca na segunda alça que levou vazia, e vai tapando, repetindo o processo de afastamento das abelhas com o galho de louro e tapando logo de seguida para não levar demasiadas abelhas para o local onde vai extrair o mel. Ao fim de quase três horas, está feita a cresta e António Silveira está satisfeito com o resultado, embora o zumbido das abelhas seja cada vez mais ensurdecedor. São então encaminhadas as alças para o local a poucos metros da colmeia onde foi cumprido o ritual inicial. “Não se retira as luvas nem os chapéus com rede até ordem em contrário”, adverte António Silveira sabendo que algumas abelhas vão perseguindo as alças cheias de mel. Dali são transportadas para um pequeno anexo ao fundo do quintal do apicultor que fica de porta fechada para não atrair mais abelhas. Só no dia seguinte é que António Silveira completa o resto do circuito, ou seja, a colheita efectiva do mel dos favos que trouxe nos quadros. É aí que “tira uma fatia fininha daquelas placas, para abrir os alvéolos”, ou seja, desopercular. Depois os quadros são colocados num centrifugador manual, “que dá para seis quadros de cada vez”, que vai centrifugando e vai espremendo o mel contido nos favos. Aí abre-se uma pequena guilhotina para que o néctar escorra através de um filtro para um bidão de inox com capacidade para 40 litros. Ali fica durante “dois ou três dias, a decantar” em mais um filtro onde repousam todas as possíveis impurezas ou bocadinhos de cera dos favos. “Então abro a torneira e vou enchendo os frascos com mais um filtro” e isso dá-lhe cerca de 40 quilos de mel. No entanto, os desperdícios resultantes da raspagem para abertura dos alvéolos, também poderão ser aproveitados “e ainda me dá uns quilos de mel. Da última vez consegui três quilos”, explica. Já o resto da cera, “pode ser entregue nos serviços agrários onde é pesada enquanto cera suja e depois de a classificarem, derretem-na. Daquela cera fazem depois as placas e o apicultor pode ir lá buscar as placas consoante o quilo de cera que entregou”, explica. António Silveira opta por recorrer a um colega apicultor para ter as placas de cera, já que reforça que “o meu objectivo não é vender o mel. Apenas gosto das abelhas, gosto de ir ao pé delas e de estar no apiário, é um passatempo”, que começou há mais de 15 anos. Um amigo do pai tinha abelhas e sentiu curiosidade em saber mais sobre estes animais e sobre a forma de produção de mel. “Queria saber como funcionava e o que era preciso para ter um apiário” e indicaram-lhe um grande apicultor “que só no Nordeste tinha 200 abelhas”. Foi ao seu encontro e a resposta não o podia deixar mais esmorecido: “disse-me que eu não tinha perfil para ter abelhas” e António Silveira foi-se embora “mas desconsolado”. Recorreu aos serviços de desenvolvimento agrário que o aconselharam a falar com um apicultor para que lhe vendesse algumas abelhas e foi o tal amigo do pai que lhe despertou o interesse, que acabou por ajudá-lo “e vendeu-me as minhas primeiras abelhas”. Tinha inicialmente duas mas depois fez mais duas: “coloquei uma existente ao lado de outra vazia. Pus dois quadros com criação do dia na colmeia nova, pus mais dois quadros com criação, dois com mel e quadros vazios ao lado”. Passados alguns dias “a colmeia nova já tinha alvéolos fechados” porque “tinham puxado uma nova rainha” que começou a fazer criação. Em breve António Silveira espera fazer uma nova formação para saber “como criar rainhas”, para acelerar o processo da escolha da rainha e consequentemente acelerar a produção de mel. Mas tudo sempre na base do passatempo, uma vez que não pretende dedicar-se ao mel enquanto fonte de rendimento “mas sim dedicar-me às abelhas como um passatempo, que gosto muito”. E por isso garante que de 15 em 15 dias vai continuar a visitar as suas colmeias, sempre com o mínimo de stress para que também possa descontrair.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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