Os Açores têm exportado novilhas para o continente e Madeira e embriões para Espanha

Os concursos micaelenses de vacas da raça Holstein Frísia, organizados pela Associação Agrícola de São Miguel, são cada vez mais certames de promoção de novilhas de alto valor genético e de embriões de excelência, um negócio que oscilou com a crise no sector mas que se está a reerguer novamente. Os produtores micaelenses são incentivados a olhar o concurso com cada vez mais profissionalismo, até porque sabem que no continente português, na Madeira e em alguns países europeus, como Espanha, há colegas seus com os olhos na grande evolução genética dos seus animais. Toda esta dinâmica fortalece a agricultura açoriana como o grande pilar de sustentabilidade da economia açoriana. Correio dos Açores - O Concurso Holstein Frísia, na XVII edição, já tem história. O objectivo, no início, era escolher a melhor vaca. Hoje leva-se as vacas a concurso para promover a genética à procura de novos negócios. Pode descrever esta evolução? Jorge Rita (Presidente da Associação Agrícola de São Miguel) - A evolução dos concursos pecuários em São Miguel tem sido extraordinário nos últimos anos, e temos crescido muito nesta área, podendo mesmo referir que o concurso micaelense é o melhor que se realiza no país. Os produtores têm uma paixão e um entusiasmo muito grande nos concursos pecuários. Por isso, a Associação Agrícola de São Miguel tem disponibilizado a todos os associados, ao longo do tempo, muitos cursos de formação, que passa por cursos de juízes, de preparadores de animais e de emparelhamento, e que registam sempre boas aderências. Esta grande adesão, não é só dos mais velhos, como também, dos mais novos, o que nos permite avaliar do gosto e da motivação que existe junto da juventude. Também as infra-estruturas têm contribuído para o melhoramento dos concursos pecuárias, principalmente, o Parque de Exposições de São Miguel, que é um espaço magnífico, por ter as dimensões adequadas, permitindo organizar este tipo de certames nas devidas condições, tal como é usual, na Europa e em grande parte das regiões do continente. Como é evidente, estas condições permitem evidenciar ainda mais a qualidade dos animais e, assim, ser possível proporcionarem-se mais negócios nesta área, nomeadamente, promovendo as explorações que se encontram presentes. A genética já representa um negócio para algumas explorações agrícolas? O que falta para incrementar mais estes negócios? Há Agricultores que vendem novilhas de alto valor genético? E embriões? Estamos a falar de que percentagem de agricultores? A evolução genética em São Miguel tem sido uma aposta dos produtores e que vem contribuindo, decisivamente, para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da raça Holstein Frísia, através da especialização crescente que tem sido desenvolvida na agropecuária açoriana. A genética açoriana, nomeadamente a micaelense, já tem mercado internacional e os embriões já têm sido vendidos para Espanha, além de Portugal continental. No caso das novilhas, já ocorreram exportações para o continente e, mais recentemente, para a Madeira. No entanto, e nos últimos anos, este não tem sido o mercado que desejávamos, atendendo à crise que o sector do leite atravessou e devido a requisitos de exportação, que travou o desenvolvimento natural deste negócio que era expectável. Aos poucos, este é um mercado que se vai reerguendo e os produtores de leite estão prontos para responder quando solicitados, já que a qualidade dos animais existe e é reconhecida por todos os agentes nacionais e internacionais ligados a este sector. Nos últimos anos os diferentes juízes afirmam que a Região tem vacas que podem ombrear com outras em concursos na Europa e no Canadá? Os transportes são uma dificuldade inultrapassável? Como podem Agricultores micaelenses participarem em concursos internacionais fora da Região? Sem dúvida, temos animais que poderiam competir em qualquer concurso internacional, por possuírem as características fundamentais exigidas ao mais alto nível. No entanto, a nossa participação em concursos internacionais com animais dos Açores, será sempre muito difícil, devido aos transportes, já que era necessário transportar as vacas de avião, o que traria muitas esperas e mesmo alguns riscos, além dos custos elevados que isso acarretaria. O que temos de fazer, cada vez mais, é internacionalizar o nosso concurso, por via dos juízes que cá vêm e assim, projectar a nossa agropecuária no exterior. E todos os juízes que nos visitam ficam maravilhados não só com as nossas paisagens mas, fundamentalmente, com a excelência dos nossos animais. Por isso, esta reacção dos juízes internacionais à qualidade dos animais é única e é uma mais-valia, em termos de divulgação da genética dos animais açorianos. A divulgação dos concursos através das revistas e de sites internacionais da especialidade tem sido muito importante. E a vinda de agricultores de vários países a São Miguel, tem igualmente, ajudado a projectar a fileira no exterior. De qualquer forma, a realização dum concurso nacional da raça Holstein Frísia em São Miguel é sempre um objectivo futuro, pelo que, desde que estejam reunidas as condições, não só do ponto de vista logístico, mas também sanitário, estou certo que passaria a ser o melhor concurso de sempre realizado no país. Há uma maior selectividade dos animais para o concurso e um maior empenho dos produtores em mostrarem vacas com cada vez maior qualidade. A competitividade aumenta e cresce o valor genético dos animais. Uma rota em ascensão que ainda tem caminho a percorrer para chegar a níveis mais elevados? A exigência a todos os níveis, para quem está neste sector, é cada vez maior, e os produtores têm de saber acompanhar a evolução e a transformação que vai ocorrendo para que possam ser competitivos e estejam em condições de enfrentar os desafios que vão surgindo. Por isso, todos os serviços disponibilizados pelas associações aos agricultores devem ser aproveitados e, por exemplo, a Associação Agrícola de São Miguel tem apostado no melhoramento das condições do contraste leiteiro e na adesão ao livro genealógico, transferência embrionária, disponibilização de sémen dos melhores reprodutores a nível mundial, por serem vertentes de valorização das explorações agropecuárias. A nossa evolução é constante e permanente, mas temos sempre de continuar a produzir com qualidade, aproveitando as nossas pastagens e o nosso maneio natural, para que possamos ter um desenvolvimento sustentável. Enquanto umas explorações agrícolas investem em melhoria genética, outras, devido aos seus condicionalismos, estão a atravessar sérias dificuldades ao mesmo tempo que algumas indústrias somam lucros de milhões de euros. Falta um maior equilíbrio de rendimentos entre produtores e indústrias em São Miguel. Quer comentar? Esse é o problema principal da fileira do leite na Região, já que a indústria não repercute justamente nos produtores os ganhos que retira dos mercados dos produtos lácteos, e ao mínimo sinal de adversidade resultante das suas ineficiências, penaliza imediatamente a produção duma forma injustificável e incompreensível. Também o Governo dos Açores tem de ser proactivo e tem de contribuir para a regulação desta fileira, porque as indústrias são muito apoiadas pelo Governo Regional e pelos fundos comunitários, pelo que, deve-lhes ser exigido um comportamento adequado perante os produtores. O preço do leite praticado na Região é um dos mais baratos da Europa, e esta é uma realidade que temos de inverter, porque os produtores não podem ser sempre o parente pobre da fileira. Tem apelado ao Governo dos Açores, em várias intervenções, para cumprir, atempadamente, os compromissos financeiros que tem com os agricultores. O governo tem sido sensível a estes apelos? Temos exigido que o Governo Regional crie um calendário indicativo dos pagamentos das ajudas regionais aos agricultores, para que estes possam saber as datas em que recebem os apoios, tal como já acontece, com as ajudas comunitárias. Esta é uma revindicação justa e coerente porque aos agricultores é aplicado um regime fiscal e de pagamentos à segurança social, que têm de ser escrupulosamente cumpridos, porque se tal não acontecer, serão imediatamente aplicadas coimas. Creio que todos percebem que os agricultores necessitam de saber quando vão receber os apoios a que têm direito para que, assim, possam gerir da melhor forma as suas explorações, sendo esta uma medida que contribui para o aumento da transparência entre os agricultores e o Governo Regional. Até agora, não temos uma resposta conclusiva do Governo perante esta preocupação, mas acredito que acabarão por compreender esta situação e implementar as medidas capazes de satisfazer as nossas pretensões. Há uma questão à margem do concurso que gostaria de abordar. São Miguel não estaria numa melhor posição no comércio de carne de bovino, se o entreposto frigorífico da ilha já estivesse certificado? A certificação do matadouro industrial de São Miguel é fundamental face às solicitações que surgem no âmbito do mercado da carne. Sabemos que o Governo Regional também tem essa preocupação e aguardamos que esta vertente possa ser satisfeita proximamente, porque quando a certificação estiver assegurada, os operadores micaelenses e regionais poderão, mais facilmente, satisfazer as necessidades deste mercado que cada vez são mais exigentes e mais diversificadas, em função da evolução que o consumidor tem tido.
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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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