26 de maio de 2018

A vida tal como eu a vivo, sinto e penso

A França tem sido ao longo dos séculos um verdadeiro viveiro de ideias da humanidade. Desde logo a Revolução Francesa, com ideal de igualdade, liberdade, fraternidade que, com os anos, foi esmorecendo. Depois, no século dezoito, veio o iluminismo com Voltaire, Diderot e os enciclopedistas; a França está para o mundo das ideias da cultura e da arte, para a idade moderna e mesmo contemporânea, como a cultura grega e a sua filosofia estão para a antiguidade clássica. O Maio de 1968 foi em França que teve a sua génese e suscitou a esperança de ser o início de uma idade de oiro para a humanidade. O filósofo Régis Debray, que conheceu pessoalmente Che Guevara e apoiou publicamente a sua luta contra o imperialismo na América Latina no livro que publicou, agora denunciou a degenerescência da cultura francesa, da sociedade e a sua rendição ao capitalismo e a sociedade da imagem e do espectáculo. No fundo, os estudantes do Maio de 68 que vieram para as ruas de Paris em massa lutavam não pelo poder, mas pela liberdade, por um novo tipo de sociedade e por um novo tipo de relações humanas. Foram esses ideias que suscitaram a simpatia e o apoio activo de intelectuais e grandes inteligências em todo o mundo, a começar pelo genial pai do existencialismo, Jean Paul Sartre (que segundo Édgar Morim era que político nulo, um filósofo mediano e um grande eleitor). Os estudantes rejeitavam o mundo e a sociedade ocidental nos seus princípios estruturantes e queriam, no fundo, mudar o mundo. Em Portugal, quanto a mim, o 25 de Abril de 1974, na sua essência, constitui uma replica tardia do Maio de 68,em França. Mas o país que hoje é Portugal nem sequer reflete uma pálida imagem dos ideias que o animaram no 25 de Abril. Houve pessoas heróicas que morreram e lutaram pela liberdade; e o único regime político que tem no seu ADN liberdade é a democracia. Só que a democracia esta rodeada de inimigos e de perigos por todos os lados, à cabeça dos quais está a corrupção. Grupos de bandidos tomaram conta dos partidos políticos e a partir daí tomaram de assalto o aparelho de estado e subverteram a democracia. Todas as semanas surgem nos jornais novos casos de corrupção; políticos banqueiros, reitores de universidades, não escapa nada. Democracia e capitalismo selvagem dá este resultado absolutamente perverso e confrangedor. Se me perguntam se podia ter sido diferente, digo que podia, mas e manifestamente improvável. Confúcio, o sábio Confúcio, na Antifuidade já dizia que se queres conhecer o futuro estuda bem o passado. Ora analisando o passado remoto e recente o que se pode dizer? Vê-se que houve um Tolstoi que na Rússia antecipou a revolução bolchevique, dando parte das suas terras aos camponeses e que defendia que os ricos partilhassem os seus bens com os nobres. A mulher de Tolstoi, Sofia, verificou que no fundo, a vida e inimiga de todas as ideologias. Para mim, para mudar a vida (isto é a ordem económica e social) é preciso primeiro que o homem interior se converta num santo. Mas já lá vamos ao homem interior. Até agora, as religiões e as filosofias tentaram mudar a sociedade para depois mudarem o homem. Não dá, porque Rousseau tinha razão: a sociedade corrompe o homem. Ora a vida é igual em todo o lado: é um turbilhão em que cada um é lançado, e cheia de necessidades, de exigências de desgostos às suas preocupações, as suas questões sem resposta ou solução. Até hoje têm sido feitas inúmeras tentativas para curar os males sociais, procurando que as pessoas se afastassem da corrente normal da vida humana e a salvarem as suas almas seguindo um curso independente. No entanto fora da estrada comum, trilhada pelo homem comum todas as tentativas de aperfeiçoamento pessoal se tornaram becos sem saída. O atrás citado Régis Debray na obra referida, acaba por dizer isso mesmo: “os ideais do Maio de 68, uma sociedade mais idealista, mais livre, mais justa, foram capturados pelos interesses da sociedade de consumo”. Um homem simples na sua grandeza e grande na sua simplicidade, um homem do povo sem estudos mas extremamente talentoso inteligente e sábio o nosso poeta de Loulé, António Aleixo escreveu Duvido dos que me falam de uma sociedade sã isto e o que foi ontem e o que há-de ser amanhã. A vida corrente, a quotidianidade, dá cabo de tudo; isto é verdade na revolução, é verdade no amor, é verdade na ideologia. Tudo o que se demora e que se repete na nossa vida gasta-se. As coisas só são puras e elevada nos começos; a juventude que está a começar a vida acha-a bela, depois tudo se vai corrompendo e esmorecendo, mostrando uma realidade dolorosa. Lá na lusa Atenas, no Penendo da Saudade em Coimbra, o antigo estudante gravou na pedra este poema Ai se esta velha pedra ouvisse o riso que temos aos vinte anos ais de amoor, sonhos enganos talvez que a rir se partisse mas tivesse olhos e olhasse o espectro que hoje somos tão mudados do que fomos talvez a pedra chorasse. O Papa Francisco, que muito admiro em todos os sentidos, há dias, aconselhou os cristãos a afastarem-se da política dos negócios e das mundanidades. A mensagem de Francisco para mim é clara: Para salvar a sua alma o cristão, como cristão só pode salvar a sua alma purificando-a quer através do sofrimento quer através da renuncia ao mundo. Ou seja cada cristão tem que fazer uma revolução interior, a chamada conversão moral e religiosa. O ideal da vida do cristão deve ser a santidade. Ora, a política é quase sempre feita por aqueles que tem ganância de poder; os grandes negócios são quase sempre feitos pelos que tem ganância de dinheiro; e as mundanidades são vividas por aqueles que buscam todo o tipo de prazeres do mundo, como o sexo, o álcool, as vaidades, os grandes luxos. Ora, o homem comum sem a tal conversão não chega lá; é impossível; até porque muitos daqueles que pregam a renúncia são os primeiros a abastecer ser farta e lautamente dos bens e prazeres deste mundo. O mundo não é um lugar melhor porque é preciso ser santo ou seguir a via sacra dos santos, para renunciar radicalmente ao mundo para despender-se dele. A política vive do poder em detrimento do ser] o capitalismo privilegia o ter e despreza o ser ao ponto de se tornar desumano, como denunciou Emilio Zola. Sem uma dimensão religiosa da vida, sem uma fé e uma religiosidade profundas é impossível sair puro e imaculado da corrupção e das tentações do mundo. Mas para ser santo não se pode ter riqueza, bens materiais acumulados? A riqueza é um precedo, uma coisa má? Penso que não. O que é mau é estar agarrado às coisas ser escravo das riquezas e dos prazeres, da fama. O que é bom é ter liberdade, mas para ter liberdade não se pode ter muitas coisas, porque as coisas exigem tempos, despesa, vigilância para não se deteriorarem ou serem roubados. Pelo que se um homem tem muitas coisas a preocupação e o cuidado para com elas exigem, consume todo o seu tempo e todo a sua energia, não lhe restando nem tempo nem força para amar, para contemplar, para crescer alimentando o seu espírito de ideais nobres e elevadas, das coisa da vida que são realmente dignas de serem amadas. A comunicação espiritual com os outros homens deixa de existir; as relações humanas passam a ser relações comerciais ditadas apenas por interesses materiais; tornam-se superficiais e acabam quando o interesse que lhe deu origem acaba. O que resulta das inúmeras relações da sociedade actual é um imenso vazio, uma terrível solidão. Os corações estão vazios e cheios de tantos nomes, de tantas coisas cuja completa inabilidade o tempo se encarrega de demonstrar. Eu, no meu canto, vou escrevendo, falando, amando, tentando comunicar com o ser profundo de cada um.
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Categorias: Opinião

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