“Queremos ter cada vez mais açorianos na Marinha e na Autoridade Marítima”

Correio dos Açores - Qual a grande mensagem o Dia Nacional da Marinha que hoje se assinala? Almirante Valentim Rodrigues (Comandante da Zona Marítima dos Açores) - O nosso propósito com o dia da Marinha é o de abrir a Marinha à sociedade e aos cidadãos. As instruções e as directivas superiores são para que a Marinha esteja cada vez mais próxima dos cidadãos, e é isso que temos feito ao longo do ano inteiro. Queremos estar cada vez mais próximos dos cidadãos açorianos, das pessoas que nos visitam, para que, realmente, percepcionem, não apenas quando vêem uma notícia a dizer que foram salvos sete pescadores por uma embarcação ou outros cenários. O que desejamos é que, diariamente, as pessoas percepcionem a importância que a Marinha tem, e nós queremos estar ligados umbilicalmente às pessoas. Temos o gosto e a satisfação de a Autoridade Marítima se ter associado também às comemorações porque, de facto, somos instituições irmãs, por isso o nosso propósito é o estar mais próximo das populações para que as pessoas sintam a Marinha como a sua Marinha, como uma instituição que está sempre presente, uma instituição plenamente presente na responsabilidade sobre os espaços marítimos nacionais e que contribuem para a segurança colectiva, humana e ambiental. Todas as oportunidades de valorização que temos para mostrar o trabalho junto da população são absolutamente fundamentais e queremos ter cada vez mais açorianos na Marinha e na Autoridade Marítima. Os açorianos são excelentes marinheiros, são pessoas que gostam do mar e pessoas que respeitam e conhecem o mar melhor do que muita gente. E ter açorianos na Marinha é um dos propósitos que queremos com esta acção. Damos muita atenção às escolas através das opções que os jovens querem ter no futuro para que se possam associar a uma instituição que respeita o mar e que trabalha diariamente no mar, porque o mar é a nossa próxima riqueza e a nossa próxima lavoura, como dizia Daniel de Sá. Marinha tem sido rigorosa na fiscalização de navios de investigação científica Como têm evoluído as missões da Marinha nos Açores? Este é sempre um momento importante para falar sobre aquilo que nós fazemos. É com grande satisfação que fazemos o nosso trabalho e continuamos a desenvolver a actividade de acompanhamento das missões de investigação científica dos navios que nos visitam e que não são nacionais. Temos também cá este ano o navio hidrográfico português ‘Gago Coutinho’, que chegou no dia 9 de Maio e vai embora a 24 (Quarta-feira). Nesses dias está a fazer um trabalho muito importante, utilizando sistemas robotizados de grande profundidade para fazer o levantamento na Crista Média Atlântica. Tem o apoio da Fundação Oceano Azul, do Governo Regional, da Estrutura de Missão para alargamento da plataforma continental e até da National Geographic. Vai ser uma missão muito interessante, muito valiosa em termos do conhecimento. Nós continuamos a acompanhar muito estas acções de investigação científica, não só as nacionais mas as estrangeiras também para verificar as conformidades das actividades e as datas em que os navios têm licença para operar no cumprimento rigoroso das datas em que elas ocorrem. De 2016 para 2017 tivemos um aumento de 21% da fiscalização. Percorremos todas as reservas naturais, e estamos a falar das Formigas, do banco D. João de Castro, do banco do Condor, do Banco dos Açores, e de todas as outras pequenas reservas, como a reserva marinha da Ribeira Quente, do Ilhéu, a área protegida da Costa Oeste de São Mateus, da Graciosa, entre outras. Todas as reservas da Região têm sido alvo da nossa atenção, agora cada vez mais com o apoio e coordenação da Autoridade Marítima através das novas lanchas rápidas que chegaram recentemente e que conseguem alcançar grandes distâncias com muita rapidez. Estamos satisfeitos com a forma como tudo se tem vindo a desenvolver, e é com gratidão e satisfação que apresentamos a todos este incremento de actividade, em termos daquilo que é a fiscalização, mas não só. Marinha chamada a 185 casos de busca e salvamento com 117 vidas salvas A Marinha tem-se envolvido em exercícios com a Protecção Civil...? Sim, o ano passado fizemos muitos exercícios com a Protecção Civil, como foi o ‘Açor’; participámos inclusive na preparação das Forças Nacionais em termos do exercício Lusitano, fizemos exercícios de busca e salvamento e dizer, nesses termos, tem havido um grande trabalho, porque a busca e salvamento incrementou bastante. Posso dizer que de 2016 para 2017 tivemos uma evolução de 37% em termos de busca e salvamento. Em 2016 tivemos 135 casos de busca e salvamento e 70 vidas salvas, e em 2017 tivemos 185 casos com 117 vidas salvas. Houve um crescimento que está associado não só ao fluxo crescente dos paquetes na Região. No ano passado foram cerca de 188 paquetes que vieram, e cada vez mais os Açores estão na crista do turismo. Há muitas pessoas a visitar esta terra e as pessoas estão também, incluindo velejadores, a descobrir os Açores, mas isso representa também um desafio para quem tem responsabilidades na área da protecção e da segurança no mar. Por isso, queremos estar próximos dos açorianos e das pessoas que nos visitam. Embarcações de pesca têm que ter todas as condições de segurança no mar Em termos de fiscalização da pesca… Penso que temos feito um bom trabalho. Houve um incremento de 21%. Posso dizer que em 2017 fizemos 103 fiscalizações a embarcações no mar, e dessas foram identificadas 77 legais e 26 em presumível infracção, dos quais somente uma era estrangeira. Nós não só fazemos a fiscalização como também temos acções pedagógicas junto dos pescadores. Fizemos uma, recentemente, em parceria com a Secretaria Regional do Mar, de sensibilização dos pescadores para o lançamento do lixo no mar, através do centro de comunicações nos Açores. Através das nossas acções de fiscalização, alertamos os pescadores que não se deve deitar o lixo para o mar e procurámos sensibilizá-los para isso e para os aspectos da segurança. Devem ter equipamentos de segurança e de apoio à navegação, coletes de salva-vidas e saber utilizá-los. Devem ter extintores e sinais pirotécnicos, as comunicações por rádio, radares de navegação e terem tudo a funcionar, porque essa responsabilidade tem que ser uma prioridade para todos os que andam no mar, porque estes equipamentos de segurança são essenciais a bordo. Estamos cada vez mais a alertar as pessoas para a questão do lixo e para o facto de não irmos apenas fazer a inspecção. Desenvolvemos uma acção pedagógica e construtiva junto das pessoas e junto dos nossos pescadores, pessoas que admiramos e estimamos, mas no sentido de garantir que eles fazem o seu trabalho e regressam sãos e salvos. A Marinha desenvolve acções de fiscalização não só nas 100 milhas como entre as 100 milhas e as 200 milhas… Sim, com bastante frequência. Mas, em termos gerais, esse trabalho tem revelado, pela minha perspectiva e pelos resultados, uma grande responsabilidade das pessoas que ali vão pescar. Entre as 100 e as 200 milhas é muito raro encontrar-se alguma coisa que não esteja correcta. Daquilo que são as nossas inspecções, em 2017 tivemos uma embarcação estrangeira com uma pequena infracção, mas as pessoas vêm bem preparadas para aquilo que são as regras, a legislação e de tudo o que é necessário para exercer uma acção responsável e devidamente autorizada. A Marinha tem os meios necessários para operar nos Açores? Sim. E com a vinda destas três lanchas novas, que são as mais avançadas que temos na Autoridade Marítima nacional com a coordenação que existe com a Marinha, a nossa capacidade ficou claramente reforçada. São lanchas que podem chegar às 200 milhas. Estou bastante satisfeito com o que nos tem sido proporcionado, e estou a contar, no futuro, recebermos aqui nos Açores mais um salva-vidas para o Grupo Central. Estou a contar que chegue até ao final do ano, o que será uma coisa muita positiva para todos nós. Salva-vidas ‘Vigilante’ O Secretário de Estado da Defesa Nacional, Marcos Perestrello, já anunciou que os Açores iriam passar a contar com três lanchas rápidas e um novo salva-vidas. “Tencionamos atribuir ao arquipélago dos Açores o primeiro salva-vidas de grande capacidade, ‘Vigilante 21’, que estará concluído na indústria nacional, no Arsenal do Alfeite, no final de 2018”, para operar nas ilhas do grupo Central do arquipélago (ilhas do Pico, São Jorge, Terceira, Graciosa e Faial). Entretanto, o sistema “Costa Segura” permite a montagem mais radares e câmaras”, que terminará nos Açores este ano, “permitindo a cobertura total das águas territoriais”. O “Costa Segura” é um sistema de fiscalização que vai permitir monitorizar, mesmo a partir de terra, todas as zonas costeiras do país. O sistema de fiscalização recorre a equipamentos de radar, câmaras ópticas térmicas e rádios VHF para monitorizar as embarcações ao largo da costa, em tempo real, com o objectivo de melhorar as acções de patrulhamento, busca e salvamento marítimo.
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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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