“Falta uma aposta continuada na formação das crianças e dos jovens no ensino de linguagens de programação”

Correio dos Açores - Enquanto responsável por uma empresa que assenta os seus serviços na internet, pode-se dizer que sem internet a Cybermap não existiria? Quais as maiores potencialidades que vê nesta plataforma? Luís Melo (Director-executivo Cybermap) - A Cybermap nasceu em 2000, numa época em que a internet teve o seu primeiro grande boom a nível mundial. Nesta altura, a maioria das empresas não possuíam websites, a capacidade da rede de comunicações era ainda bastante reduzida, o que apresentava grandes desafios no desenvolvimento de projectos baseados em conectividade através da internet. Como em todas as empresas focadas no desenvolvimento de soluções de software, a equipa da Cybermap desta altura possuía conhecimentos técnicos que lhes permitia desenvolver projectos usando as infra-estruturas locais das organizações e não era usual desenvolver de raiz projectos baseados na web. O que se passou nos últimos anos foi que com a melhoria das comunicações e da oferta na cloud (nuvem), passou a ser possível desenvolver soluções totalmente baseadas em web, com uma performance semelhante àquela que era oferecida pelas soluções que estavam instaladas dentro das organizações. Realço que neste momento, assiste-se a uma nova tendência que é a utilização de aplicações instaladas nos dispositivos móveis, que substituem parte das funcionalidades oferecidas por estes sistemas, que as complementam e nalgumas situações particulares que as substituem. Pode dizer-se que apesar de tanto se falar nos “malefícios” da internet, também há virtudes? A principal virtude da internet é a velocidade de acesso à informação e a capacidade de interacção que oferece, quer entre pessoas e ou equipamentos, em qualquer momento e local. Este é o novo paradigma da era que vivemos, onde iremos estar cada vez mais conectados a tudo e a todos. Os malefícios de que se fala têm a ver com a sua utilização, não com as suas capacidades, pelo que é normal que os Estados se sintam tentados a interferir e a tentar regular a internet. Nalguns países o acesso a alguns sites é totalmente regulado e restringido, havendo uma verdadeira censura no acesso à informação. Outra importante questão que surgiu recentemente nos Estados Unidos, tem a ver com a regulamentação recentemente aprovada que permite aos operadores de comunicações alterar as velocidades de acesso à internet consoante o cliente, levando a que por esta forma, seja privilegiado o acesso a determinados sites em detrimento de outros, beneficiando aqueles que podem pagar mais por uma maior largura de banda. Atendendo que a maioria das pessoas não quer esperar mais do que cinco segundos para abrir um site, não deixa de ser uma forma encapotada de limitar o acesso à informação e em última instância um meio de controlá-la. No seu entender, como se pode incentivar os mais novos a ver a internet como “uma ferramenta” e não apenas como uma forma de chegar às redes sociais e afins? Embora a maioria das crianças saiba interagir melhor do que os pais com os computadores e com a internet, muitos não se apercebem da complexidade daquilo que está por detrás, vendo-a apenas como uma ferramenta útil para comunicar e produzir conteúdos. No entanto, a tendência actual do mercado é na utilização de plataformas de rápido desenvolvimento e de fácil utilização, o que permite sem grandes conhecimentos técnicos a produção de sites e de pequenas aplicações. Neste sentido, os jovens de hoje têm maior capacidade de que os seus pais na utilização destas ferramentas, pelo que estão mais habilitados aos novos desafios tecnológicos, em que quem não sabe interagir com a tecnologia é um info-excluído. Tal como já acontece noutros países, a programação (de computadores) deveria ser uma aposta no ensino? Sim de facto, embora existam alguns exemplos de sucesso, falta uma aposta continuada na formação das crianças e dos jovens no ensino de linguagens de programação, o que tem levado a uma falta de recursos humanos com formação, mas principalmente, com pouca apetência por esta área técnica. Deste modo, esta é uma profissão com bastante oferta, pois quer em Portugal, como no resto da Europa, existem enormes necessidades de mão-de-obra qualificada. Daí que tenham surgido algumas iniciativas no sentido de requalificar jovens com competências noutras áreas, mas que estejam disponíveis a participar em programas de formação intensivos. Um bom exemplo deste tipo de iniciativas, é a que está a decorrer, no âmbito do Terceira Tech Island, com a formação de programadores de software que visa precisamente este objectivo. A Cybermap é pioneira nos Açores no desenvolvimento de ferramentas em termos tecnológicos. Que desafios se colocam actualmente a essas novas tecnologias na vida dos cidadãos? Os principais desafios prendem-se essencialmente com a segurança e com a literacia. A segurança está na maioria das vezes dependente dos conhecimentos dos utilizadores, pelo que é importante o estabelecimento de programas abrangentes de formação, principalmente entre as pessoas mais idosas, que são alvos fáceis para os hackers [piratas informáticos]. Mas existem também outros factores a ter em conta, como a complexidade dos sistemas operativos, utilizados nos computadores e em diversos equipamentos, mas principalmente nos sistemas tradicionais, é de tal ordem que a sua qualidade deixa muito a desejar, o que é aproveitado pelos hackers [piratas informáticos] nas suas acções para capturar, aceder ou destruir a informação das pessoas e das organizações, causando inúmeros prejuízos. Pelo que neste momento, a melhor solução é a adopção de soluções baseadas, por exemplo na Google Cloud, porque têm sem dúvida os melhores engenheiros do mundo a cuidar da sua segurança e podemos aceder de forma segura à nossa informação a qualquer hora e em qualquer lugar. Mas para termos sucesso na sua utilização, não basta transferir aquilo que temos dentro de portas para a Cloud, é necessário efectuar a transformação digital das organizações e modificar a forma de trabalhar dos seus colaboradores, o que representa um desafio acrescido, atendendo à resistência à mudança por parte dos intervenientes. Pelo que este processo de transformação obtém melhores resultados quando envolve a sua liderança. Pode dar exemplos de aplicações/serviços desenvolvidos pela Cybermap, para os leitores melhor entenderem o real impacto que as novas tecnologias podem ter nas suas vidas e que por vezes nem se dão conta? Ao longo dos últimos 17 anos de vida da Cybermap, desenvolvemos mais de 200 projectos para os nossos clientes, a maioria com soluções específicas e inovadoras para as suas áreas de actuação. Especificamente para a administração pública, desenvolvemos inúmeros projectos que permitem aproximar e facilitar a vida das pessoas e das organizações no seu contacto com a administração pública e no acesso à informação por ela disponibilizada, nomeadamente nas áreas do Turismo, Energia, Indústria, Ambiente, Florestas, Pescas, Agricultura, Cartografia, Gestão de Redes de Águas e de Saneamento. No entanto, os projectos que têm tido maior divulgação junto do público em geral, são aqueles de natureza mais informativa, como por exemplo as Aplicações para dispositivos móveis das Eleições, Correio dos Açores, Bailinhos de Carnaval, Whimzr para divulgação de informação turística e Azores Rallye, onde no total já se contam dezenas de milhar de utilizadores.
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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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