O combate de um herói que deu a vida ao largo de Ponta Delgada “em benefício de gerações” de muitos açorianos

Em memória do centenário do nascimento do Comandante Carvalho Araújo, será inaugurada ao final do dia de hoje, no Centro Natália Correia, na Fajã de Baixo, a exposição intitulada “Comando Carvalho Araújo – A vida pela Pátria”, uma iniciativa que surge também no decorrer do Dia Nacional da Marinha, celebrado no próximo dia 20 de Maio. De acordo com a informação disponibilizada, esta exposição que estará também a decorrer em Lisboa, ficará patente até ao final do mês de Dezembro, e será composta por um total de dez painéis subordinados aos temas “Carvalho Araújo – Vida Pessoal”, Carvalho Araújo – Vida Militar”, Carvalho Araújo – Vida Política”, “Carvalho Araújo e o Jornalismo” e “O Combate”. Na perspectiva do Comandante da Zona Marítima dos Açores, esta é uma exposição de “muito interesse”, que mostra as várias facetas do homem que “entregou a sua vida a um desígnio superior, que foi o de salvar as 206 pessoas a bordo do paquete “San Miguel”, maioritariamente açorianos, bem como o resto da tripulação”, fazendo com que no total fossem salvas cerca de 300 pessoas. Este acto heróico do Comandante do Navio Patrulha “N.R.P. Augusto Castilho”, embarcação que fazia a escolta do Paquete “San Miguel” desde a ilha da Madeira até à ilha de São Miguel, ainda durante a Primeira Grande Guerra, ocorreu, de acordo com os factos históricos, na madrugada de 14 de Outubro, por volta das seis da manhã. Por essa hora, apontam os relatos, foi ouvido um tiro e avistado, em seguida, um submarino alemão, o “U 139”, levando a que durante as duas horas seguintes o Comandante Carvalho Araújo controlasse o Navio Patrulha para que o Paquete que escoltava saísse ileso do ataque dos militares alemães, um combate que, apontam os relatos, se revelou “desigual”, uma vez que o submarino alemão contava com duas peças de artilharia de 150mm e o navio patrulha português (antigo pesqueiro) contava “com uma peça de 65mm à vante e outra de 47mm à ré”. No entanto, foi no final do combate que o Comandante Carvalho Araújo foi atingido por estilhaços de uma granada, provocando a morte do homem nascido a 18 de Maio de 1831 no Porto, e fazendo com que, na actualidade, seja visto como “um homem que entregou a sua vida em benefício das gerações que despontaram a seguir a essa tripulação que chegou a Ponta Delgada, salvas pela acção desse Comandante que decidiu enfrentar os alemães e o submarino alemão, e que pagou com a sua vida a protecção e a vida de todos os outros que chegaram a Ponta Delgada no Paquete de “San Miguel”, nas palavras do actual Comandante da Zona Marítima dos Açores, Valentim Rodrigues. No decorrer das comemorações do Dia Nacional da Marinha, Valentim Rodrigues explica que, para além desta exposição acerca da vida e morte de Carvalho Araújo, de 19 a 21 de Maio irá decorrer no Pavilhão do Mar uma outra exposição que irá incidir “sobre os meios e alguns dos equipamentos associados à Marinha e à Autoridade Marítima”, cuja inauguração será precedida por uma cerimónia religiosa, que irá decorrer às 09h00 na Igreja de São Pedro. Também nesses dias decorrerão baptismos de mergulho e baptismos de mar na piscina do Pesqueiro e no cais de recepção da marina, onde estará presente a Corveta ‘António Enes’, representativa, de acordo com o Comandante da Zona Marítima, “de muitas corvetas que aqui serviram, existindo até um monumento que a Câmara Municipal inaugurou em homenagem aos homens e mulheres que nelas serviram”. Para assinalar a efeméride, de 19 a 21 de Maio, populares podem visitar alguns dos faróis mais emblemáticos dos Açores, destacando-se, entre eles, o Farol da Ferraria; o Farol do Arnel; o Farol da Ponta do Cintrão; o Farol de Ponta Garça; o Farol Gonçalo Velho em Santa Maria; o Farol das Contendas na Terceira; o Farol da Ponta da Barca na ilha da Graciosa; o Farol da Ponta da ilha do Pico; o Farol da Ponta do Topo na ilha de São Jorge; e, na ilha das Flores, o Farol das Lajes das Flores e o Farol da Ponta do Albernaz. Quem foi o Primeiro Tenente Carvalho Araújo? Carvalho Araújo é visto como “um exemplo” que “viveu e morreu pela Pátria. A prová-lo as suas últimas palavras, enquanto agonizava após ter sido atingido por um estilhaço de granada: “morro como português”. Pouco mais de um mês depois da sua morte, a 22 de Novembro de 1918, foi enviada uma mensagem a todos os submarinos alemães, ordenando que cessassem os ataques a toda a navegação mercante. No dia 11 de Novembro, pouco menos de um mês após o combate, era assinado o armistício que punha finalmente fim à 1ª Guerra Mundial. José Botelho de Carvalho Araújo era filho de José de Carvalho Araújo e Margarida Ferreira Botelho de Araújo nasceu em 18 de Maio de 1881, na cidade do Porto. Os seus pais tinham-se deslocado à cidade invicta para visitarem a avó materna que se encontrava muito doente. No dia 5 de Junho foi baptizado na Igreja Paroquial onde nasceu. Passados alguns meses foi com os seus pais para Vila Real, tendo passado a sua infância, até aos 9 anos, na moradia mandada erguer pelo seu avô paterno, o escrivão Domingos José de Carvalho Araújo. Entre 1897 e 1899 frequentou a Academia Politécnica do Porto para depois ingressar na escola Naval. A 13 de Janeiro de 1906 casou com Ester Ferreira de Abreu, na Igreja de S. Dinis, em Vila Real. O casamento foi apadrinhado pelos pais da noiva que justificou o facto de o acontecimento se ter dado às 5 da manhã por o marido não gostar de notoriedade. Do matrimónio nasceram 7 filhos. A filha mais nova, Fernanda, nasceu no dia em que o pai faleceu em combate. Republicano… Republicano convicto, Carvalho Araújo foi deputado pelo núcleo de Vila Real na Assembleia Constituinte. Os seus dotes oratórios, a sua frontalidade e honestidade estavam patentes não só nos seus discursos e conversas, mas também nos artigos que escrevia enquanto jornalista. Amigo pessoal de Cândido dos Reis, esteve presente na sua casa, a 3 de Outubro de 1910, onde se planeou o golpe do 5 de Outubro, a Implantação da República. Em Junho de 1911 foi proclamado Deputado à Assembleia Nacional Constituinte pelo círculo de Vila Real e em Agosto desse ano foi eleito deputado do Congresso da República Portuguesa. Durante o seu percurso político, Carvalho Araújo fez sempre uma análise crítica da política republicana em geral. Foi a 12 de Outubro de 1899 que José Botelho de Carvalho Araújo assentou praça na Escola Naval, em Lisboa. Concluiu o curso com a média de 12,45 valores. Em 1905 entrou para o efectivo de oficiais. Quando faleceu em combate era Primeiro Tenente e passou a Capitão-Tenente (a título póstumo) em 29 de Novembro de 1918. Tinha sido nomeado Comandante do navio-patrulha “Augusto Castilho” em Agosto de 1918. Foi morto e desaparecido no combate do Navio-patrulha “Augusto Castilho” a 14 de Outubro de 1918. …E jornalista O Jornal Notícias de Vila Real, do qual era Director o pai de Carvalho Araújo, foi apenas um dos muitos periódicos que publicaram artigos escritos por Carvalho Araújo. Directo e incisivo, Carvalho Araújo fazia uma análise crítica da situação do país, da sua política e por isso, ao longo da sua vida, fez algumas inimizades. Um exemplo disso foi o conjunto de artigos publicados no Jornal “A Fronteira”, intitulados “Política… de Traição”, que tiveram início em Agosto de 1918, dias antes de ser nomeado comandante do “Augusto Castilho”. Num destes textos, a 4 de Agosto de 1918, escreveu: “Os princípios, as ideias, a própria moralidade do novo regímen foram pouco a pouco sendo absorvidos pelos princípios, pelas ideias, os processos e a moralidade que os monárquicos trouxeram ao nosso campo. O acto eleitoral e as suas operações preliminares, explendido barómetro para aquilatar as virtudes cívicas de povo, continuaram a ser na República o que tinham sido na monarquia: a mesma bandalheira, a mesma imoralidade, os mesmos artifícios e os mesmíssimos caciques”.
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