“O Senhor Santo Cristo é efectivamente um milagre”

As festas em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que amanhã terminam, ficam marcadas por momentos altos de religiosidade e fé dos portugueses, a esmagadora maioria dos quais açorianos, mas também muitos do Continente e da Madeira, no Ecce Homo. É uma fé e religiosidade visíveis em atitudes de doação e entrega e notórias em sentimentos de verdadeiro amor e ternura em Jesus Cristo que se exprimem em promessas por graças recebidas e/ou desejo de melhoras de familiares. A mudança, no Sábado, da Imagem do Senhor Santo Cristo, do Portão Regral para O Santuário, no trajecto em redor do Campo de São Francisco, voltou a ser um momento único na religiosidade açoriana. Ano após ano, é uma procissão de renovação de profunda fé, daquele acreditar que, com Jesus Cristo, é possível, viver melhor mais um ano, apesar dos problemas, das dificuldades e das mazelas físicas e espirituais. São milhares de fiéis que percorrem, no Sábado, este trajecto, muitos de joelhos e outros de muletas ou em cadeiras de rodas, em evidente esforço físico para uma promessa que, concluída, os renova o espírito e os fortalece na vida. Foram milhares os fiéis que, à passagem da Imagem, lançaram pétalas de rosas sobre a Imagem. Pétalas de cerca de duas mil rosas que foram desfolhadas por alunos da Escola Básica e Integrada Roberto Ivens e distribuídas pelas pessoas ao longo do Campo de São Francisco. Como também foi relevante a oferta das 30 mil gerberas que enfeitaram o tapete de flores em todo o trajecto, doadas pelo esforço, sobretudo, do Juvenal da ‘Loja da Mena’ e do professor Gabriel Pavão da EBI Roberto Ivens e vasta equipa de colaboradores. É esta mesma dimensão de sentimento e espiritualidade que se viu também na moldura humana de promessas que acompanham, no domingo, a Imagem do Ecce Homo na grande procissão ao longo das principais ruas de Ponta Delgada num percurso mais longo, durante o qual, se assiste a momentos de incalculável devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres por parte dos moradores da cidade postados nas janelas ou nas portas de suas residências. E, de entre as promessas, fica o registo de uma jovem que, quase ao longo de todo o percurso, não conseguiu conter as lágrimas de fé e esperança; e de pais descalços, com crianças ao colo e o círio numa das mãos. Uma procissão com muitos jovens, irmanados na fé, na multidão de promessas, entre os bombeiros, nos escuteiros, nas representações escolares e, de forma relevante, nas bandas de música de toda a ilha que integraram o cortejo. Uma homilia para reter E um dos momentos, senão mesmo o momento mais relevante das festas religiosas deste ano foi a missa de Domingo, às 9,30 horas, e a homilia do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, que, de uma forma clara e convincente, fez a ponte entre a fé no Senhor Santo Cristo dos Milagres e a religiosidade dos açorianos em redor do Divino Espírito Santo. D. Manuel Clemente tornou também mais perceptível – para quem ainda tenha dúvidas – como os açorianos vivem o flagelo, a morte e ressurreição de Jesus Cristo através da Imagem do Senhor Santo Cristo. É à dimensão da fé e religiosidade dos açorianos que devem ser lidas as palavras de D. Manuel Clemente, numa homilia que foi um marco de clarividência na percepção de que os milhares de fiéis vivem, através do rosto do Ecce Homo, o caminho de Jesus Cristo, desde a hora em que Pilatos diz: ‘Eis o Homem’, passando por momentos de profundo sofrimento, até à sua morte e ressurreição. Uma homilia do Cardeal Patriarca de Lisboa, que, pelo seu significado, aqui deixamos, reduzida a escrito, já que o Cardeal falou de improviso: “O Senhor Santo Cristo é, efectivamente, um milagre” “Demos muitas Graças a Deus por esta oportunidade de concelebrarmos aqui, neste grande Santuário do Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada, e com tantos irmãos que se estendem pelo mundo inteiro, e que connosco aqui estão também, com a possibilidade que os ‘média’ lhes proporcionam. O Senhor Santo Cristo dos Milagres é, efectivamente, um milagre para muita gente. Há séculos já que tal acontece. E com certeza que muitos, na generalidade dos que aqui estamos, dos que por aqui passam, especialmente nestes dias da sua festa, o sentem fortemente. O poder do Senhor Jesus, a força da sua presença, o milagre da sua salvação. As leituras que aqui escutámos, ilustram-nos muito bem o que isto seja, realmente, profundamente. Ouvimos falar, na primeira leitura, do Espírito Santo e de como ele reproduziu, como reproduz agora. Reproduziu, então, nas origens da Igreja, a presença do Senhor Ressuscitado, a adesão a Ele pela vida e pelos sacramentos. Estamos a falar do Baptismo na casa de Cornélia. E, depois do Salmo, na leitura da Carta de São João e, agora, no Evangelho, ouvimos falar, insistentemente, no amor. Mas o amor de Deus. O amor como em Cristo se manifesta e no Senhor Santo Cristo muito especialmente. Manifesta-se como dar a vida. A palavra amor é muito usada mas nem sempre com esta acepção que deve ter. O amor, o amor de Cristo, o amor de Deus significa dar a vida. E, em Cristo, dar a vida pelos seus amigos, como Ele continua a dar. E este é o melhor milagre que constantemente acontece na presença de Cristo Ressuscitado na nossa vida, com a força do seu espírito, também, porque causa uma consciente admiração. Ou seja, nós estamos a falar de alguém que, historicamente, viveu há dois mil anos. Não viveu nesta ilha, não viveu na nossa Pátria. Viveu muito longe. No entanto, não falamos dele como se fala de um ausente: Já o dissestes. Quando eu disse: O Senhor esteja convosco, todos respondestes: “Ele está no meio de nós”. São dois mil anos de presença porque a sua ressurreição garante esta presença e o torna Homem presente. “Que grande milagre, meus irmãos…” Estamos aqui, estamos tão bem, nesta linda cidade de Ponta Delgada, num tempo tão propício. Estamos aqui com as nossas expectativas, com as nossas promessas, com os nossos desígnios, por nós e pelos outros. Estamos também pelos que podem estar melhor. Estamos aqui como muitos outros. Nesta mesma altura, a outras latitudes e longitudes, há irmãos e irmãs nossas na fé que arriscam a vida para celebrar a Eucaristia deste sexto domingo da Páscoa porque nem sequer têm liberdade para o fazer nos países em que vivem. Estamos aqui e estamos com eles e a presença é a mesma e é total, onde o milagre acontece, o grande milagre da Ressurreição do Senhor. É tempo Pascal, mas a Páscoa, neste sentido, é constante porque vê-se por nós e com o Senhor Jesus olhando Deus, é possível e é agora. Ele está no meio de nós. Há aqui um activismo pela forma do seu Espírito. Este é, efectivamente, o grande milagre que nos traz ao Senhor Jesus e, neste momento, o Senhor Santo Cristo dos Milagres transporta-nos com Ele para um mundo de fronteiras, sem fronteiras, transcendentes, Deus. E o outro milagre que é o mesmo, na sua efectivação, digamos, é o do Espírito Santo que é tão particularmente assinalado nestas ilhas dos Açores. O Espírito Santo na luz, como ouvimos na primeira leitura, precede toda a nossa acção cristã como aconteceu com Pedro que, quando chega a casa de Cornélia, fica espantado porque é uma casa de pagãos, não eram Judeus, não eram ainda discípulos de Cristo. Mas o Espírito Santo trabalhava-lhes os corações para adesão ao mesmo Cristo e, por isso, Pentecostes continua também com os seus sinais. Começam a falar com línguas que toda a gente entende porque a linguagem do espírito, que é a linguagem de Deus, que é a linguagem do amor, precede e transcende todas as palavras que sejam. E é exactamente a força deste espírito que paira sobre Jesus no Baptismo, vindo do Pai como uma pomba esvoaçando e que, depois, sai dos lábios de Jesus na cruz quando expira. É este Espírito Santo de toda a vida e amor que circula constantemente entre Pai e Jesus, e que transborda e nos envolve nesta mesma realidade. Como Deus cria e recria em Jesus Cristo todas as coisas, assim também nos faz criar e recriar pelo mesmo espírito todas as situações. De doença, de tristeza, de desilusão, de tudo quanto nos atinge e não nos deixa ser aquilo que Deus continua a querer que sejamos mas que, em Cristo, no espírito de Jesus Cristo, é possível alcançar. Que grande milagre meus irmãos. É um milagre estarmos aqui. E falamos destas coisas e evocamos tudo isto não como realidades do passado, mas como realidades presentes e até mais presentes do que nós porque nos antecedem. O mundo de hoje não está à nossa espera. Ele antecipa-se, ele cativa-nos, ele atrai-nos. Isto mesmo é o Espírito que Cristo nos concede. E esta vida é a vida que aqui celebramos. O Senhor Jesus, o Senhor Santo Cristo dos Milagres e a força do seu Divino Espírito Santo. “A expressão do Senhor Santo Cristo cativa-nos a alma…” E, no entanto, esta Imagem que aqui veneramos do Senhor Santo Cristo dos Milagres tem uma tal expressão que nos cativa profundamente a alma, visitada assim pessoalmente ou então em estampa que todos nós já conhecíamos há muito tempo, o seu autor, aliás desconhecido, conseguiu dar-lhe uma expressão tão convincente, tão evangélica, porque está ali concentrada plasticamente a expressão que Deus quis ter no mundo no rosto de seu Filho Jesus Cristo e, precisamente, naquele momento em que tudo se decidia pelo seu “sim”. O “sim” que tinha dado pouco antes ao Pai, o momento em que disse: “Eu vou até ao fim!”. E disse ao Pai “seja feita a Tua vontade”. E qual era a vontade do Pai? Era que em Jesus Cristo, Deus tomasse toda a sua condição e, precisamente, aquela que tem de mais dramático e de mais trágico para aí mesmo nos salvar. Ele nasceu menino como nós nascemos meninos. Foi concebido pelo poder do Espírito Santo, por Nossa Senhora, e nasceu nove meses a seguir. Depois, cresceu como menino. Humanamente cresceu também em estatura, em sabedoria e em graça. E, depois, trabalhou com seu pai adoptivo, José, na oficina de Nazaré da Galileia. Era chamado o filho do carpinteiro, ele próprio carpinteiro. Até que, com cerca de 30 anos, na Sinagoga de Nazaré, ele sabe e humanamente apreende, interiormente apreende, aquela profecia antiga de Isaías: “O espírito de Deus está sobre mim, porque Ele me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova, o evangelho aos pobres, a vista aos cegos, a liberdade aos cativos no ano da graça da paz do Senhor”. Ele assumiu então: “Isto é comigo, começou hoje mesmo a cumprir-se esta profecia”. E a partir daí, digamos, a sua carpintaria foi outra: A construção da Igreja que Ele começou a reunir em seu torno, pela qual deu a vida e, por isso mesmo, a ressurreição de Jesus Cristo é a alma de todos nós. E com o seu espírito expande-se para a ressurreição do mundo inteiro, os novos céus e a nova terra que, precisamente, em Jesus Cristo e na força do seu espírito, acontecem. “Este é o milagre!...” Tomai isto, meus irmãos e minhas irmãs, neste momento, para a vida de cada um. A ressurreição de Jesus Cristo, a força do seu espírito está como que soprado naqueles lábios quase entre-abertos da Veneranda Imagem do Santo Cristo dos Milagres, do seu espírito. E toca no vosso coração e renova as vossas vidas e recria o mundo novo. Este é o milagre. Tudo isto é autêntico e quase sensível. Naquele momento e naquela Imagem há uma expressão total. Porquê? Estamos a ver, é o Ecce Homo, - ainda ontem se cantava quando fizemos a procissão. “Eis o Homem”, disse Pilatos apontando para Jesus naquela situação humílima. Ele nem sabia o que dizia, Pilatos, mas era uma verdade total também. E o autor daquela Imagem (a do Senhor Santo Cristo dos Milagres) consegue dar uma totalidade à figura que estas coisas ainda mais acontecem. Quando contemplamos a Imagem e, depois, em casa, com a estampa, olhando bem aqueles olhos, ou melhor, deixando-nos olhar por Ele. E porque é tão total aquela expressão? É porque, naquele momento, Jesus já tinha aceite ir até ao fim. E aquele momento é um momento desfigurado, mas é um momento transfigurado. E, por isso, entra no nosso coração e sabemos que ele está connosco. Ele está no meio de nós e, sobretudo, quando a nossa figura ou a figura dos nossos irmãos, por mal do corpo ou por mal do espírito, mais se desfigura. E, então, transfigura-se, olhando para o Senhor que quis estar connosco precisamente neste drama e, muitas vezes, nesta tragédia. Há irmãos e irmãs nossas que, nestes momentos mais duros da sua vida, seja por males próprios, seja por males alheios, seja até no meio de grandes conflitos como hoje tantos cristãos e cristãs persistem em estar em sítios onde há grandes guerras, grandes lutas, grandes morticínios e não saem de lá porque Ele está lá primeiro, o Senhor Santo Cristo. E o milagre da sua presença continua, e dos seus lábios entre abertos sai o seu espírito e a vida acontece mesmo onde só havia morte. Esta é a sua vitória, Esta é a sua Páscoa. É por isso que estamos aqui. Deixemo-nos transfigurar também pelo rosto do Senhor Jesus, deixemos que o seu espírito nos renove, que a sua presença nos conforte. E ainda uma coisa: Já que Ele se apresenta assim, e apresenta-se precisamente assim, como está naquela Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, vejamo-lo da mesma maneira no rosto dos nossos irmãos que sofrem e com os quais Ele mais se assemelha e mais se identifica. E aí mesmo está à nossa espera. E quando nós lá chegarmos para dar alguma ajuda, seremos sobejamente ajudados porque o amor paga-se sempre com mais amor e da parte do Senhor Santo Cristo esse amor é absoluto. Deixemos que estas palavras, estas simples invocações, alimentadas pela Palavra de Deus, aviventadas pela veneranda Imagem do Senhor Santo Cristo, tomem conta do nosso coração e do nosso coração transbordem para muita gente que continua à espera. Nós sabemos, eles saberão por nós! Compilação João Paz
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