“Devemos olhar para os recursos que temos e trabalhar com a comunidade”

No que diz respeito à intervenção no âmbito das dependências, Paulo de Jesus afirma que, em primeiro lugar, as instituições devem perceber a dimensão da missão que têm a cumprir e trabalhar nela com os meios disponíveis e através dos “agentes estratégicos essenciais”. “A discussão dos meios é sempre uma falsa discussão”, afirmou Paulo de Jesus aquando do início de uma das acções de formação sobre Prevenção do Consumo de Substâncias Psico-activas e Intervenção Comunitária, salientando ainda que o que deve ser realmente valorizado neste âmbito é aquilo que é possível fazer com os recursos existentes nas instituições, uma vez que, no seu entender, “é possível fazer muita coisa”. Neste sentido, de acordo com o formador e coordenador do Centro de Respostas Integradas do Alentejo Central (CRIA), “a grande discussão é termos noção de qual a nossa missão e a dimensão da nossa tarefa”, sendo que a partir daí “devemos olhar para os recursos que temos e trabalhar com a comunidade” que, segundo o próprio, possui “agentes estratégicos que são essenciais” para o trabalho desenvolvido por estes centros espalhados pelo país, tais como os agentes políticos, a comunicação social e os pais e encarregados de educação das crianças em idade escolar. Segundo Paulo de Jesus, o Alentejo e os Açores partilham, para além “de um conjunto de semelhanças em termos sociais e culturais”, padrões de consumo que podem ser justificados devido ao facto de ambas as regiões serem qualificadas como “território de festa”, o que poderá originar “alguns consumos problemáticos no consumo de álcool”, refere. Contudo, o coordenador do CRIA que tem estado presente em várias iniciativas de partilha de informação entre as duas regiões, refere que “quando falamos de comportamentos de risco vamos buscar muitas áreas do dia-a-dia dos jovens, desde a sexualidade à nutrição, passando pela prevenção rodoviária”, estabelecendo que a partir daí o principal objectivo será “perceber nesta hierarquia de comportamentos de risco qual é que é a nossa prioridade e distribuí-la nas suas facetas pelos recursos e pela participação que cada um dos parceiros nos poderá alocar”. Por outro lado, uma das principais dificuldades sentidas pelos profissionais que trabalham nesta área, para além da “instabilidade em manter um edifício organizativo”, está também relacionada com o facto de se “receberem muitos dados nacionais que não têm em conta algumas particularidades locais”, sendo por isso importante, de acordo com Paulo de Jesus que se traga “o nosso sotaque local para a investigação”. Segundo o formador, este factor justifica também a importância da troca de ideias entre estas duas regiões que podem ser consideradas mais isoladas pela sua geografia, como Alentejo e Açores, sendo o fenómeno das dependências considerado um “alvo em permanente movimento, o que implica sempre uma grande agilidade por parte dos serviços públicos e uma grande noção da realidade”. Assim, Suzete Frias adianta que, pela sua dinâmica, “o que era verdade há três anos não o é hoje porque os contextos, os padrões de consumo, as próprias substâncias e a sociedade são interactivos e vão mudando”, levando a que as estratégias de combate e prevenção tenham que ser “adequadas às novas necessidades e às novas realidades”, sendo este conjunto de acções de formação essencial para que os profissionais que trabalham neste âmbito se consigam “actualizar e estar na posse de novas ferramentas”. Contudo, a Directora Regional de Prevenção e Combate às Dependências afirmou neste contexto que um dos actuais objectivos deste plano, seja a nível nacional ou a nível regional, é o “de ver em cada território quais são os factores de risco, quais os factores protectores e quais os recursos que existem para que possamos criar medidas orientadoras em geral, mas depois cada território terá medidas específicas feitas à medida da sua necessidade e dos seus recursos”, referindo por outro lado que os recursos das entidades que actuam na prevenção, combate e dissuasão das dependências “somos todos nós, a comunidade em geral”. De acordo com Suzete Frias, “os factores de risco para o consumo de substâncias são, muitas vezes, os mesmos factores para outros comportamentos de risco, seja na sexualidade não pensada, não planeada e não protegida, seja na condução sobre o efeito de álcool ou uma série de riscos que, na adolescência, pelas suas características próprias, são potenciadas”, considerando ainda que esta é uma problemática que pode abranger um indivíduo em qualquer momento da sua vida, fazendo com que “todas as pessoas do seu círculo e a própria sociedade sofram com o impacto desse consumo”. Deste modo, a formação em questão, no espaço de dois dias conseguiu intervir junto de um total de 126 formandos, dos quais 52 profissionais de saúde das equipas das Unidades de Ilha das instituições que estão na intervenção e tratamento no âmbito dos comportamentos aditivos e dependências e das comissões de dissuasão e tóxico-dependência, e 74 profissionais dos Centros de Desenvolvimento e Inclusão Juvenil. Também na Terceira decorreu uma acção de formação especializada nesta área, a par de uma sessão que contou com os mesmos formadores em Vila Franca do Campo, onde se estimaram entre 80 a 100 pessoas da comunidade e agentes voluntários, fazendo parte do contributo da saúde para a Estratégia Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social, “na prioridade que é o desenvolvimento de estratégias de promoção e de acompanhamento dos públicos juvenis”, afirmou Suzete Frias.
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